quarta-feira, 9 de março de 2011

Cavaco, o árbitro

O discurso de Cavaco Silva, na sua tomada de posse, fez-me lembrar que também precisamos de uma mulher assim... para desfilar em Belém. Os portugueses estão fartos de arbitragens tendenciosas.

Quarta-feira de Cinzas


Acabou-se o Carnaval. Durante os dias em que as ruas de algumas localidades foram invadidas por trupes de gajos vestidos de gajas e os políticos foram caricaturados em carros alegóricos, assistimos a outras cenas carnavalescas.
No Festival da Canção, um duo com nomes de palhaços dividiu o país em Prós e Contras (Atenção, Fátima Campos Ferreira!). A troco de chamadas de 60 cêntimos +IVA, os portugueses pagaram-lhes uma viagem a Dusseldorf. Afinal a crise não é assim tão grave...
Uns jovens à rasca, quiçá inspirados nas cenas que tornaram conhecidos Jel e Falâncio, fizeram uma rusga ( no Carnaval do meu tempo chamavam-se "assaltos") a uma reunião partidária. Não levaram a tradicional “multa” do período carnavalesco mas ,mesmo assim, foram convidados a jantar à borla. Mal agradecidos, recusaram. Optaram por vir para a rua em busca dos microfones ávidos de alguma comunicação social para gritar: “isto é fascismo!”
Alguns patuscos concordaram. O Rei Momo ainda lhes tentou lembrar que aquilo era má educação. Debalde. Felizes, os invasores foram à vida, com a esperança de, no próximo ano , serem eles os vencedores do Festival da Canção.
Coincidência ou premonição, nesta quarta-feira de cinzas toma posse o Presidente da República. Entramos finalmente na Quaresma da democracia. Talvez não haja festejos na marquise da Rua do Possolo mas, cumprindo as promessas de Cavaco Silva, os juros da dívida começarão a baixar. Poderemos respirar de alívio e organizar uma peregrinação a Boliqueime para agradecer ao inquilino de Belém. Cumprindo a tradição deste dia, Cavaco será ungido pelo celebrante com as cinzas simbólicas do arrependimento?
O que vale é que, no próximo sábado, antecedendo o tradicional Baile da Pinhata, os jovens à rasca vão descer à rua para protestar a sua indignação e revolta com os políticos. Todos, dizem eles, mas não é bem assim. Alguns partidos já lhes manifestaram o seu apoio. Não me parece que tenha sido recusado.
Entretanto, lá por fora, o carnaval líbio pode estar a chegar ao fim. Com jeitinho, dentro de algum tempo, ainda vamos ver Kadhaffi a almoçar no Eliseu. Recebido com honras de Estado.
Já só faltam 40 dias para a Sexta-Feira Santa. Haverá matança na Páscoa?

Mulheres do mundo (4)

Henrietta Lacks
(1920-1951)
Muitos nunca terão ouvido falar desta mulher negra, quase analfabeta, a quem a morte ( ou melhor, a imortalidade…) transformou num dos nomes mais importantes da medicina.
Nascida na Virgínia, filha de escravos, foi viver com o marido, em 1941, para os arredores de Baltimore, onde teve cinco filhos.
Em Janeiro de 1951 começou a queixar-se de dores na barriga , mas recusava-se a ir ao médico. O único hospital que tratava pobres e negros gratuitamente ficava em Baltimore, a mais de 30 quilómetros da sua casa mas, no dia 4 de Fevereiro , as dores eram tão insuportáveis que acedeu a que o marido a levasse a uma consulta.Foi-lhe diagnosticado um cancro no colo do útero e os médicos, sem lhe pedirem autorização, recolheram tecidos para estudo. Nas provetas de recolha , ficou inscrita como He La. Mais tarde ou mais cedo, depois de algumas experiências in vitro, as células morreriam, como sempre acontecia.
Só que...as células cancerígenas de Henrietta Lacks não morreram! Pelo contrário, ao fim de 24 horas tinham duplicado e continu(ar)am a multiplicar-se ao mesmo ritmo.A notícia empolgou a comunidade científica e, quando Henrietta Lacks morreu, em Outubro de 1951, praticamente todas as células do seu corpo foram entregues a laboratórios em todo o mundo.
A imortalidade das células He La tem permitido uma fantástica evolução da medicina. Foram utilizadas para produzir uma vacina contra a poliomielite.( Milhões de crianças de todo o mundo trazem hoje em dia, dentro de si, um bocadinho de Henrietta Lacks, que lhes foi depositado na língua, com duas simples gotas).
Viajaram até ao espaço, para serem submetidas a experiências sob gravidade zero; são utilizadas na pesquisa de tratamentos cancerígenos e da SIDA ; serviram de base à maioria dos progressos científicos da segunda metade do século XX e, hoje em dia, especula-se sobre a possibilidade de, através do seu estudo, se conseguir a imortalidade das nossas células.
Até meados dos anos 90, do século passado, não se conhecia a identidade das células He La. Os médicos não queriam divulgar o nome de Henrietta Lacks, pelo facto de não terem obtido consentimento para a recolha dos tecidos. Acresce que, apesar do inestimável contributo da mãe, para a Humanidade, os filhos nem sequer tinham direito a um seguro de saúde...
Hoje, a história da vida desta mulher negra, baptizada como Loretta Pleasant e que ninguém sabe explicar como se passou a chamar Henrietta Lacks, é conhecida em quase todo o mundo graças a uma medíocre estudante de Biologia que, durante uma aula, viu a sua fotografia e decidiu investigar a sua vida. O resultado é um livro magnífico “ The Immortal Life of Henrietta Lacks” da autoria de Rebecca Skoot, escritora e jornalista freelancer, que me serviu de base para escrever este post.
O livro já está disponível em Portugal ( apenas em versão inglesa) mas a versão portuguesa deverá chegar às livrarias em Abril. Boa notícia: já se encontra à venda na Net (Companhia das Letras) e o primeiro capítulo, para aguçar o apetite, aqui fica o link…
E se quiserem, divulguem, porque não é apenas um livro belíssimo sobre a história de uma família negra a quem foi negada a verdade ... é também um excelente trabalho que honra o jornalismo.

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