terça-feira, 8 de março de 2011

Reflexões carnavalescas

Enquanto folheava os jornais, no avião que me trouxe de regresso à realidade, percebi que a eventual vitória de Pedro Passos Coelho numas futuras eleições não será a vitória do mérito, mas sim a da desistência. Quando um povo desiste de lutar por causas, renega a classe política e confia apenas em caras novas, para mudar o seu destino, isso quer dizer que o povo está moribundo. Paz à sua alma.

Carta à mulher portuguesa


Mulher que estás cansada de te dirigir penosamente ao emprego teu de cada dia e regressar a casa, ao fim da tarde, transportando fardos de desespero e frustração e, no banco de trás do Fiat Uno, ou pela mão, os frutos de noites de amor.
Mulher que estás cansada dos intervalos rotineiros em que te alinhas , como falcão batendo as asas, em balcões que compartilhas com cegonhas de fato de macaco e enforcados vestidos a rigor, debicando bicas, engolindo projectos frustrados de galináceos, ou sonhando com o camarão que devia estar dentro do rissol, mas que a carestia da vida transformou numa pasta espessa e cor de rosa.
Mulher que estás cansada das noites em que o teu marido sobe os lençóis pingando noite, depois de o elevador o depositar à porta de casa, junto aos sapatos da véspera.
Mulher que estás cansada de fazer amor sem ouvir o estralejar dos foguetes , porque já não há noites de S. João no teu coração.
Mulher que uma noite acordaste e sentiste ao teu lado alguém que procurava os teus seios e as tuas coxas na tentativa de decifrar o enigma que uma noite de fuga depositara a seu lado.
Mulher que uma manhã descobriste que o teu corpo cheirava a desespero e sentiste saudade de chorar abraçada ao homem que ama(va)s.
Mulher que te cansaste de fazer amor com amigos de Alex que fazem amor por empreitada, vício ou necessidade orgânica, esse amor que se esfuma em cinco minutos de prazer e se esquece na própria véspera do orgasmo.
HOJE É O TEU DIA!
Estranha gentileza te concederam, Mulher! Marcaram-te com o estigma da subalternidade, com que é costume assinalar os desprotegidos. Compararam-te ao analfabeto, ao deficiente, ao Lince da Malcata, ou outra qualquer espécie em vias de extinção.Mas Tu estás bem viva, Mulher!

Por isso te desejo que este dia sirva para um pouco mais do que receber uma rosa , ou um jantar a dois à luz da vela. Que sirva também para pensares nas mulheres que pelo mundo inteiro continuam a ser vítimas de sevícias, por parte dos homens. Que te lembres das mulheres de Darfur, das mulheres sem quaisquer direitos, das africanas que morrem com SIDA, das asiáticas a quem a maternidade só é permitida uma vez na vida, das árabes obriagadas a tratar o homem como amo e senhor, das americanas, europeias e portuguesas que continuam a ser espancadas até à morte por homens civilizados que vivem nos países que traçam o destino do mundo.
Mulher portuguesa que sofreste no momento em que pariste e, pouco a pouco,foste perdendo o riso – e muitas vezes o ciso.
Hoje, no dia que a gentileza dos homens te consagrou, talvez recordes as noites em que suportaste entre lágrimas contidas em silêncio, as ejaculações precoces de quem te envolvia o corpo, pensando na amante por quem estava prestes a trocar-te.
Hoje, talvez critiques a moral sexual deste país onde habitas, por ser um caldo Knorr cheio de mitos.
Hoje, talvez te revoltes contra aqueles que continuam a rejeitar uma mulher que queira usufruir o prazer sexual. Mas será que hoje te interrogarás sobre a diferença entre ti e mim? Compreenderás que o que nos separa é apenas uma diferença genética cimentada por uma cultura que te deu a ti as Barbies e os trens de cozinha, e a mim o automóvel e a bola de futebol?Admitirás, mulher, que embora a igualdade seja apenas uma folha de papel, o que nos separa é o tempo que se esvaiu entre a pintura de murais e um despacho de última hora que te deixou retida no gabinete até mais tarde?
Tenho saudades de ti, mulher portuguesa!
Tenho saudades de pintar contigo murais expressivos, cheirando a Revolução, por onde espreitavam Marxes e Guevaras, que nos olhavam em cada esquina.
Tenho saudades de verter no teu ombro lágrimas de desespero e sentir o afago doce e quente dos teus lábios, consolando-me da revolta que me invade pela vitória de projectos de mentira.
Tenho saudades de te enlaçar nos meus braços e ambos ouvirmos o repicar de sinos e o estralejar de foguetes.
Tenho saudades dos sábados à tarde em que íamos ao cinema de mão dada e trocávamos promessas de amor eterno.
Tenho saudades de desfilar contigo em caravanas de vitória, empunhando bandeiras coloridas.
Tenho saudades de sermos Bonnies e Clydes fugindo, de mão dada, da polícia de choque.
Tenho saudades de te ver verter uma lágrima , ao leres o último poema que te fiz.
Tenho saudades de ver estampado no teu rosto um laivozinho de amargura, quando te dizia “vou partir” e depois regressar , trazendo-te uma caixa de bombons comprada numa qualquer freeshop ancorada no aeroporto da minha imaginação.
Sinto que te estou a perder, mulher portuguesa, como perdi a esperança que em mim nasceu numa manhã de um já longínquo Abril. Por isso, hoje quis telefonar-te mas, quando cheguei à cabine telefónica, estava ocupada elá uma velha gorda e farfalhuda, com ar de elefante triste e… desisti. Sabes o que eu queria? Desejar-te um feliz dia da Mulher e ouvir-te responder:
"Raios partam os homens que convenceram outros homens que era bom haver um Dia da Mulher! Serve para aliviarem as consciências, para aumentar o consumo de flores e animar alguns restaurantes, mas queria que servisse para os homens acabarem com o tratamento aviltante das mulheres sem quaisquer direitos. Não quero hipocrisias, nem homens como tu, a quem o machismo não permite ter outro tipo de saudade."
Encabulado,desligaria…

( Republicação, revista e reeditada)










































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Ana Paula
Blue Moon
CF

Late night wander (53)

O Festival da Canção passou-me completamente ao lado. Quando soube quem tinha ganho, torci o nariz. Depois fiquei a saber que a escolha foi do público. Finalmente, consegui ouvir um bocado da canção e dei o meu veredicto. Perante a escolha do povo, concluo: este país tem o que merece.