sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Quantos meses tem um ano?


Sinceramente, sempre pensei que tinha 12 mas, ao ler e ouvir as análises de alguns comentadores, sobre o crescimento da economia portuguesa em 2010, fico com a sensação de ter andado toda a vida enganado.
Com efeito, a economia portuguesa cresceu 1,4% em 2010, ( bastante acima do previsto por FMI, OCDE, UE e o próprio governo) mas os analistas apenas se concentram no último trimestre , em que houve uma regressão de 0,3% e, vai daí, começaram a apregoar aos sete ventos que Portugal entrou em recessão. Mesmo sabendo que, em termos técnicos, os dados de um trimestre não permitem tirar essa conclusão, são muitos os analistas que o afirmam peremptoriamente e começam outra vez a falar na iminente chegada o FMI.Fazem-no com tanto espavento, que me dá a impressão que a desgraça do país é a sua glória.
Talvez esteja enganado. Muito provavelmente estão contagiados pelo efeito Jorge Jesus. Incapaz de temperar o seu entusiasmo, depois de conseguir que durante um mês o Benfica jogasse bem, já reclama o direito de ser campeão, ignorando que entre Agosto e Janeiro, a melhor equipa foi o FC do Porto.
É muito provável que Portugal esteja à beira da recessão e, apesar de improvável, o Benfica ainda pode ser campeão este ano. No entanto, esgrimir argumentos com base em dados parciais, relativos apenas a um período de tempo da amostra total é, no mínimo, falta de seriedade e desonestidade intelectual.

A Suíça por um quintal


Aviso prévio:
Ficar desempregado aos 50 anos significa, na maioria dos casos, uma reforma imposta, sem direito a retribuição. São os “novos pobres”, que vivem normalmente uma pobreza “envergonhada” que não entra mas estatísticas, mas ameaça a esperança de um fim de vida com dignidade. É a pensar nessa geração que hoje inicio a republicação de algumas histórias verídicas de que tomei conhecimento quando fiz uma reportagem para a revista "Dirigir"

Abel, 58 anos, e Lucília 61, deixaram a Póvoa de Lanhoso natal e vieram “ fazer a vida” para Lisboa quando casaram, em 1972. Abel acabara de cumprir o serviço militar em Angola e não sabia o que fazer à vida. Apenas tinha uma certeza: a dura vida do campo não ia ser o seu futuro. Um amigo da tropa- “daqueles que ficam para a vida” - arranjou-lhe um emprego na Mague. Lucília, empregada doméstica nos arredores de Braga desde os 14 anos, não via com bons olhos a partida para Lisboa. Prometera mesmo aos patrões que, depois de casar, continuaria a servir como empregada externa. Abel, no entanto, “deu-lhe a volta”. Um emprego na Mague, a ganhar bem para a época, era um aliciante...
Pouco tempo depois de se instalarem nos arredores de Alverca, Lucília começou a trabalhar como cozinheira num restaurante da zona. Ganhava pouco, mas ajudava ao sustento da casa. Abel, trabalhador competente e esforçado, foi subindo na fábrica e a vida corria-lhe bem.Durante esse período construíram uma casa, com a labuta de fins de semana e das férias. Um dia, porém, um desentendimento de Lucília com a patroa, por causa de um arroz de tomate que um cliente achou estar mal confeccionado, veio complicar a vida do casal. Lucília não suportou a ofensa, discutiu com a patroa e o cliente. Excedeu-se e foi despedida. Ainda tentou receber uma indemnização mas, como as “posses” não davam para “meter um advogado”, acabou por sair de mãos a abanar e voltou à condição de empregada doméstica.
Meses mais tarde a Mague fechou. Abel recebeu uma indemnização “jeitosa” mas viu-se no desemprego aos 45 anos. Durante o tempo que durou o subsídio de desemprego procurou trabalho, mas as suas fracas habilitações reduziam as oportunidades. Foi fazendo uns “biscates” na construção civil, mas a sua débil compleição física e uma doença respiratória crónica rapidamente o obrigaram a parar. Na cabeça de Abel começou a germinar a ideia de ir trabalhar para a Suíça. Lucília, a mais velha de 11 irmãos que vira já partir todo o clã familiar, opôs-se com determinação. Desta vez, não haveria mais partidas. Tinha construído a vida com esforço, não ia agora deixar os filhos.
A vida, porém, revelou –se madraça e Abel não voltou a encontrar um emprego fixo. Um trabalho que parecia promissor numa oficina de automóveis ainda chegou a afastar as nuvens negras mas, ao fim de quatro anos, o patrão passou a oficina a patacos e Abel viu ali crescer um prédio. Candidatou-se a porteiro mas, o vício da bebida que ganhara desde o fecho da Mague, era um mau cartão de visita.
O amigo veio uma vez mais em seu auxílio. Tinha um terreno em frente à casa do casal e propôs a Abel que lá cultivasse “umas batatas”, ao menos para estar ocupado. Abel aceitou o repto e começou a plantar umas batatas, depois umas alfaces e uns tomates, mais umas ervilhas e foi-se afeiçoando à terra . Desde 2004 a produção tem crescido e, duas vezes por semana, Abel vem para EN 10 vender os produtos da sua “quinta”.
À beira da estrada, uma senhora pára o carro.
“Então a como são as alfaces hoje, sr Abel? Quero duas. Dê-me também dois quilos de tomates e 10 quilos de batatas”.
Abel acondiciona tudo no carro da cliente, faz o troco e despede-se com um “até p’rá semana, D. Palmira”.
Volta para o seu posto e, enquanto afaga o Piloto, inseparável companheiro, diz-me com o olhar parado, fixo no infinito:
“Para isto, não valia a pena ter vindo para Lisboa. Ficava lá na Póvoa e se calhar vivia com menos canseira... ou tinha emigrado para a Suíça como os meus cunhados, que estão podres de ricos”. Os olhos humedecem num desconforto quase pungente, enquanto os lábios trémulos deixam sair em balbúcio o lamento:
“ A vida para mim acabou demasiado cedo. A sorte foi que consegui criar os meus filhos e graças a isto talvez não precise de vender a casa. Mas isto não é vida para um homem da minha idade...”

Importa-se de repetir?

Não vi a entrevista de Pedro Passos Coelho, na RTP 1, porque a essa hora estava a ver jogar o meu clube. No entanto li o "Público" e esta frase deixou-me com "a pulga atrás da orelha":
Haverá eleições este ano?-perguntou Judite de Sousa. “Isso depende inteiramente do Governo”, respondeu o líder social-democrata
Sinceramente não percebi. Das duas uma: ou o PSD está a pensar apresentar uma moção de censura e conta com o apoio do PCP ou do BE, ou então sabe que se o governo "não se portar bem" Cavaco dissolverá a AR. Caso contrário, a afirmação não faz qualquer sentido. O que não é de estranhar, porque nada do que PPC diz faz sentido.

Morning call (2)

Às vezes, uma ideia simples pode ajudar-nos à conciliação com a vida e a acreditar que a solidariedade entre as pessoas ainda é possível.
Foi o que aconteceu quando soube como este grupo de vizinhos da Freguesia de S. Mamede (Lisboa), conscientes da sua cidadania e da responsabilidade social que ela encerra, conjugou os seus esforços para ajudar outros vizinhos em dificuldades e melhorar a qualidade de vida na sua freguesia.
Assim nasceu o programa “Boa Vizinhança”, formalmente apresentado no dia 4 de Fevereiro. O programa iniciou-se com o projecto Cartão do Bom Vizinho, o qual permite o acesso por parte de residentes na freguesia com idades superiores a 65 anos e com comprovada situação de carência económica, a vários benefícios concedidos por comerciantes e particulares da freguesia de S. Mamede, que aderiram à iniciativa.
Já se encontram previstos três novos projectos. Um na área do ambiente, descendente do Limpar Portugal, o LIMPAR S. MAMEDE; outro na área da inovação social, O DIA DOS VIZINHOS, comemorado na Europa em finais de Abril e que servirá como um brain-storming colectivo de ideias, de partilha, de reflexão sobre a freguesia, sobre o espaço e sobre o próprio projecto; o terceiro na área do voluntariado e da cidadania activa, com a criação de um banco de Voluntariado da própria freguesia.
Para saber mais sobre este programa , leia aqui.
Entretanto, lanço um desafio a todos os leitores do CR. Há inúmeras iniciativas solidárias em todo o país. Porque não divulgá-las nos vossos blogs, como sinal de esperança num futuro melhor e incentivo a que se criem novos elos solidários na sociedade portuguesa?
Se não quiserem escrever, mas estiverem interessados em divulgar algum projecto de cidadania, comuniquem-me, porque eu vou à procura e darei informação aqui no CR.
Vamos lutar contra esta onda de pessimismo que invadiu os portugueses e mostrar que somos capazes de construir um país com futuro?

Late night wander (40)

Ontem, os líbios saíram para as ruas, em protesto contra o ditador Khadaffi. Até aqui, tudo bem... mas gostava que me explicassem como é que um ditador foi eleito, em 2003, presidente da Comissão de Direitos Humanos da ONU e, em 2009 recebeu estas felicitações de Ban- Ki- Moon. É impressão minha, ou há qualquer coisa que não bate certo?