quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Não é o tamanho que conta...

A discussão em torno da proposta de Jorge Lacão é, no mínimo, serôdia. O importante não é o número de deputados, mas sim o seu compromisso com os eleitores. Que tal se, em vez de discutirem o tamanho, passassem a discutir a qualidade e chegassem a acordo quanto à necessidade de reformular o sistema eleitoral, nomeadamente a criação dos círculos uninominais?

Primavera perdida no Palácio do Tempo



Todos os anos, em Fevereiro, há uns dias quentes e límpidos em que a Primavera se anuncia. Espreita à porta do Palácio do Tempo como que a dizer ao Inverno “despacha-te que o teu reinado está a acabar e eu já estou pronta a entrar em cena” e depois desaparece até Abril. Costumo aproveitar um desses dias para, usufruindo da minha condição de “free lancer” , ir até ao Rochedo,passar o dia com a Primavera e dar-lhe as boas vindas.
Este ano esse dia foi segunda-feira. Acenei-lhe no asfalto da estrada do Guincho, junto ao meu Rochedo. Lá estava ela, esperando-me para uma conversa a três. Este ano levei por companhia o meu amigo Baptista – Bastos. Aproveitei as páginas de “As Bicicletas em Setembro” para falar com a Primavera sobre a juventude, recordar os tempos em que ela me visitava num jardim, tendo eu por companhia uns olhos amendoados que me despertavam a paixão e os sentidos. Criticou-me severamente, quando lhe disse que já não era a Primavera de outros tempos, já não me despertava os sentidos com o mesmo vigor, já não sentia o regurgitar da vida quando ela chegava. Fez-me ver que estava a ser injusto, ou talvez o problema fosse meu, apontando para alguns casais de jovens que namoriscavam na praia.

Fiquei em silêncio durante uns minutos, com o livro aberto, na página onde Jesuína sentencia:
É melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado”.
E, de repente, lá estava eu outra vez em Península Valdez, olhando o mar, entre amores e memórias perdidas nos areais. Não havia helicópteros largando corpos de resistentes à ditadura, apenas imagens de uma paixão estilhaçada a golpes de baioneta, testemunhadas por pinguins, leões marinhos, baleias e milhares de pássaros usufruindo a liberdade.
Um sopro de vento, vindo de Oeste, trouxe-me de regresso ao Guincho. A Primavera por ali continuava, serena, lendo-me os pensamentos.
“Agora só te trago nostalgia, é?”- perguntou
Encolhi os ombros. Sorri e disse em tom de desculpa:
“Agora nunca sei se chegas em Março, Abril, ou Maio. Às vezes, vens numa passagem tão fugaz, que em vez de uma estação, pareces uma ponte que liga o Inverno ao Verão”.
“ A culpa é tua. Desde que te enfiaste em gabinetes sem janelas, preocupado apenas com o trabalho, já nem te apercebes da minha presença. Depois dizes que a culpa é minha. Vai lá, continua nessa tua vida de faz de conta, a fingir que és feliz. Continua a ignorar que trouxeste o inferno para a terra, em troca do bem estar que te proporciona a economia sólida e pujante. Violaste o Palácio do Tempo onde habitam as estações, puseste-nos em alvoroço, alteraste o clima, já não conhecemos bem o calendário. A escolha foi tua….”
“Tens razão, Primavera, mas como posso ser diferente dos outros?”
“ Já foste diferente dos outros. Depois deixaste-te ir na onda em vez de tentar que outros fossem como tu. Desististe. Por isso é que só te trago nostalgia…”
“Resisti muito tempo, não te parece?”
“Não o suficiente…”
Decidi ficar. Até o sol se esconder no horizonte, estreitando o mar num longo abraço, recordei com a Primavera o tempo em que a sua presença me acelerava a circulação sanguínea e despertava os sentidos . Quando o último raio de sol dardejou o Rochedo, perguntei-lhe:
“Voltas amanhã?”
“Não sei se posso. Passa por cá e logo vês”.
Ontem, ao acordar, percebi que a Primavera se tinha ido embora. Ainda fui ao Rochedo, ver se teria deixado alguns vestígios. Encontrei um conto da Luísa Dacosta - “O Rapaz que Sabia Acordar a Primavera”. Abri. Tinha uma dedicatória que me era dirigida.

“ Este livro é para crianças, mas os adultos também o deviam ler, para perceberem como a magia da Natureza os pode ajudar a serem felizes. Se quiseres, ainda vais a tempo de me restituir todos os poderes, e eu voltarei a dar-te vida. A escolha é tua”.
Da tua amiga
Primavera
Quando peguei no livro, para o trazer comigo, o céu plúmbeo abriu-se por momentos numa réstea de azul, deixando passar uns raios de Sol que transportavam a Primavera. Pareceu-me vê-la acenar-me. Correspondi.“Obrigado por teres vindo. Vê se voltas depressa!”.Não sei se ouviu. Creio que as minhas palavras se perderam no asfalto da estrada do Guincho, arrastadas por um sopro de vento anunciando o regresso do Inverno.

Foi bonita a festa, pá!

Durante alguns dias, pessoas bem intencionadas acreditaram que a democracia ia finalmente chegar ao Egipto. Líderes europeus fizeram discursos inflamados em defesa das pretensões do povo egípcio. Dias depois, confrontados com a possibilidade de o poder cair nas mãos dos muçulmanos, o tom dos discursos esmoreceu. Obama veio dar a machadada final. O melhor é tudo continuar como está até os Estados Unidos porem lá um homem da sua confiança, mascarado de democrata. Foi bonita a festa, pá, mas na hora de abrir as garrafas de champagne, o cozinheiro mor entendeu que ainda não tinha chegado a hora de as tirar do congelador.

E que tal cortar nas despesas dos gabinetes?

Isto não é apenas cegueira, é mesmo estupidez!

Late night wander (32)

Se Passos Coelho reconhece a sua incapacidade para governar contra os interesses instalados das corporações, para que raio quer ser primeiro-ministro?