terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Rir é o melhor remédio

Se está a precisar de rir, vá a correr ler este post. Nunca pensei que um arquitecto pudesse ter uma prosa tão hilariante

Caderneta de cromos (24)

Padre Querubim Silva

O Padre Querubim (à esquerda na foto) é um dos grandes animadores da contestação das escolas privadas, contra a justa decisão do governo de acabar com as mordomias do ensino à custa do dinheiro dos contribuintes.
O padre Querubim acusa o governo de ser estalinista porque se recusa a pagar a escolas confessionais, mais do que paga em escolas públicas. Este pastor da Igreja devia saber que Portugal é um estado laico ( eu sei que às vezes não parece, mas isso é outra história) onde as várias confissões religiosas têm (supostamente, eu sei...) todas os mesmos direitos. Mas Querubim da Silva também devia saber outras coisas. Por exemplo:
1- Os contratos de associação prevêem um montante a atribuir pelo Estado por cada aluno e turma;
2- Nos últimos cinco anos diminuiu o número de alunos e de turmas nas escolas com contratos de associação mas, curiosamente, aumentou o financiamento do Estado a essas escolas;
3- Não é justo que alguns directores pedagógicos destas escolas recebam sete mil euros mensais;
4- Nem que algumas direcções recebam meio milhão de euros por ano;
5- Mandar os alunos construir urnas e desfilar com elas pelas ruas de Lisboa não é atitude própria de um servo de Deus;
6- Ameaçar com a marcação de faltas os alunos que não participassem na manifestação é um acto indigno;
7- Encerrar escolas, privando 17 mil alunos do direito a terem aulas não só é ilegítimo, como pode condicionar o seu aproveitamento no final do ano. O Cacerolazo no Chile foi muito eficaz, mas os tempos agora são outros e a Igreja tem de perceber que já não tem a influência de outros tempos;
8- Não é conhecida nenhuma escola que tenha dado prejuízo.Pelo contrário, muitas ( senão a maioria) dão lucro;
9- A Igreja Católica não deve encarar o ensino como forma de lucro, mas sim como um serviço à comunidade;
10- Os contratos de associação iniciaram-se há 30 anos, mas nunca foram vitalícios. Desde então, o Estado fez grande investimento em escolas públicas, alteraram-se as condições. Quem decidiu investir no empreendedorismo à custa do contibuinte, pode agora seguir a sua vida, sem necessidade de prejudicar os alunos, nem tentar extorquir dinheiro aos contribuintes.
Finalmente o padre Querubim deve compreender que as escolas que não queiram sujeitar-se às regras impostas pela Ministério da Educação a partir de Setembro, têm bom remédio: encerrem. Sem dramas.
Ah, já agora, senhor padre, faça o favor de dizer aos senhores que não se esqueçam de deixar os carros de potente cilindrada na garagem, faz favor! É que, se ainda não perceberam,há uma grande diferença entre emprendedorismo e chulice.

Esquina da memória (14)


Há dias, o P2 trazia um artigo ( "Já se focalizou no português que anda a falar?") que me remeteu de imediato para um dos primeiros posts que aqui escrevi - exactamente o terceiro. Decidi repescá-lo, porque me pareceu oportuno e a maioria dos leitores não o terá lido.

A "rentrée"

Segunda-feira é, durante todo o ano, o dia da semana por excelência para o embate provocado pelo reencontro com os bytes, os links, os offset, os offshores e off the record, os clips e os chips, o software e o hardware, o copy right , o copy desk e o copy and paste, as notícias do jet-set , os press release , o lay out e o design.
Mas esta cena ocorreu mesmo na passada segunda-feira , 3 de Setembro, data consagrada para a rentrée.
Bronzeado de férias e ainda um pouco atordoado pelo trânsito lisboeta, o Pires chegou ao escritório e deu de chofre com uma discussão sobre a melhor manchete do dia, as estratégias de marketing, e o merchandising, o escoamento dos stocks e o novo spot de promoção. O cabotino do Mendes, self made man em vertiginosa ascensão nos quadros da empresa, falava a um canto com a Sofia que, mesmo sem tirar os auscultadores do ipod parecia seguir atentamente o seu discurso sobre o rendimento per capita, o cashflow e as prime rate.
O Pires estava quase a perder o selfcontrol e já tinha decidido que naquele dia não iria com os colegas do costume comer ao self service, quando se lembrou das poses da Marina que namora com o disc jockey de uma boîte do basfonds lisboeta. Decidiu inverter o caminho, antes que fosse amarrado a qualquer discussão em que não estava interessado em participar e dirigiu-se ao gabinete da Marina para lhe espreitar a pose que, invariavelmente, oferece à cobiça dos homens um pedaço de coxa entre a racha da saia, ou um peito descoberto pela generosidade do decote. Pelo caminho, deu de caras com o pateta do Abreu, à volta do scanner, gritando para o estagiário:
- Já printáste? Faz delete! Esqueceste-te de clicar, como é que querias abrir o CD? Faz save as se não queres perder o documento, meu palerma ! Já recebeste o e-mail de Inglaterra? Se os gajos não se apressam mandamos-lhes um fax!
- Porque é que não mandas antes um MMS? – alvitrou o Pires enquanto se esgueirava, sorrateiro, para o gabinete da Marina
Estava a conversa a animar, o pobre do Pires urdia, babado, uma fórmula imbatível de a convidar para jantar sem que ela pudesse recusar, quando entra o chefe Lopes de uísque na mão e começa a dissertar sobre a entourage política , o elan do novo Governo, a élite cultural os collants que a mulher lhe pediu para comprar e de que se esqueceu, do tailleur que ofereceu à amante, dos éclairs da pastelaria da esquina, do baile de debutantes da filha mais nova que se vai realizar em Outubro e dos progressos da mais velha no ballet.Quase uma hora depois dá por interrompida a conversa e pede à Marina que lhe reserve uma mesa para dois no restaurant, sem se esquecer de recomendar ao maître, para pôr a garrafa de vinho no frappé.
Ainda teve tempo para perguntar ao Pires como tinham sido as férias e pedir à Marina que lhe lembrasse para marcar na Agenda um dia para um almoço “com todo o pessoal”.
“É preciso motivar a rapaziada para o trabalho, que esta empresa é uma nau muito pesada, precisa de gente activa e sangue jovem. Com as novas tecnologias, quem não souber dançar tem que dar lugar aos novos! ”-ouviram-no dizer enquanto se afastava em direcção à porta.
O pobre do Pires esqueceu a fórmula do convite irrecusável que congeminara para convencer Marina a jantar com ele. A cabeça encheu-se-lhe de soundbytes, lembrou-se das conversas do Abreu e do Mendes e declarou-se indisposto.
“Diz ao chefe que não me senti bem e vou para casa”.
Até hoje, ninguém mais pôs a vista em cima do Pires.

Pedro Fuinha


Pedro Passos Coelho mostrou-se, nos últimos dias, surpreendentemente paciente. Fez saber que não tem pressa de chegar ao governo, perdeu o ar crispado dos primeiros tempos e adoptou um discurso conciliador. É apenas manha de fuinha. Ele sabe que não pode aprovar outro OE e precisa de ir a eleições antes de ter de se confrontar com essa situação. Aprovando ou reljeitando o OE, Coelho ficaria sempre numa situação muito delicada.
Depois das trapalhadas da revisão constitucional, Pedro Passos Coelho está a tentar fazer passar aos eleitores uma imagem de tolerância e responsabilidade. Ou seja, está a tentar mostrar aquilo que não é.
O problema é que quando se entusiasma, trai-se. Foi o que aconteceu no domingo, quando sugeriu que o governo deveria ponderar o encerramento das empresas públicas que não dão lucro. A tirada é populista e irresponsável. Obviamente, alguns eleitores amordaçados pela crise, aplaudem a proposta do líder laranja, que encaram como um combate ao despesismo. Mas será melhor que abram, os olhos, pois a proposta de Passos Coelho será ruinosa.
Apenas um exemplo:
Na óptica de Coelho, como as empresas de transportes públicos ( Metro, Carris, etc) dão prejuízo, devem ser encerradas. O que se seguiria se isso acontecesse? Os transportes públicos passariam a ser assegurados por empresas privadas…subsidiadas pelo governo! Os passes sociais sofreriam um agravamento de preços significativo, enquanto grupos privados embolsariam o dinheiro dos contribuintes. Quando quiserem extorquir mais dinheiro do governo, basta fazerem como as escolas privadas. Suspendem os transportes, à espera que o governo lhes alimente a ganância.
O que Pedro Passos Coelho irá fazer, quando for governo, já todos sabemos. Entregar todos os sectores de actividade do Estado que possam dar lucro aos privados, negligenciando o papel social do Estado. É este mundo maravilhoso que o líder laranja anda a querer vender aos portugueses. Tenhamos cuidado, porque a fuinha é um predador oportunista, verdadeiro terror dos galinheiros e a sua reprodução ocorre nos meses de Verão.
O melhor é estarem alerta quando, na praia, começarem a ouvir outras fuinhas elogiar as propostas do Pedro.

Late night wander( 26)

Só hoje entramos em Fevereiro mas, pelo que Janeiro nos trouxe, começo a pensar que este ano de 2011 vai ficar na História, como um ano de grandes mudanças. E não o digo apenas pelo que está a passar-se no Norte de África...
Esperemos o que nos vai trazer o "tranquilo" Coelho, que chega já no dia 3.