domingo, 23 de janeiro de 2011

Teresópolis






Já fui muito feliz em Teresópolis. Recordo os banhos na cachoeira, os picnics em família e aquele quarto da casa construída na encosta, com uma vista soberba, que me era sempre reservado. Lembro-me das penosas viagens de Niterói para Teresópolis, só para passar o fim de semana, mas que eram recompensadas com aquele ambiente de paz e convívio com a Natureza, durante dois dias.

Desde que a família decidiu vender a casa, nunca mais voltei a Teresópolis mas, ao ver o meu amigo Pacheco de Miranda fazer uma reportagem da catástrofe que se abateu sobre a cidade, senti um nóa apertar-me a garganta e dei comigo a tentar descortinar se ainda estaria de pé, ou teria sido levada pela enxurrada.

O ilusionista de Trapalhândia (8)

Capítulo 8: O beijo da morte

Capítulos anteriores (aqui)
O Mundo parece estar arrependido por ter tentado destruir a diferença. Por isso atribui o Prémio Nobel da Paz a Rigoberta, uma índia guatemalteca, ignorando dois ex-inspectores da PIDE a quem Hannibal concede pensões por "serviços excepcionais". Injustiças…
Nas bocas do mundo começa a pronunciar-se a palavra Internet (Net para os amigos) que irá revolucionar os já tão alterados hábitos de milhões de pessoas. Com os computadores também se criam efeitos especiais. Começou a era da realidade virtual.
Mas no ano da graça de 1993, em que se quebram todas as barreiras de comunicação, as grandes vedetas são os dinossauros de Spielberg, que invadem as salas de cinema com o seu Parque Jurássico.
O desemprego e a recessão ameaçam os países ricos, a SIDA continua a fazer milhares de vítimas e a Igreja a dizer não ao "Control", agora à venda com vários sabores.
Em Trapalhândia há um novo canal de televisão. É da Igreja e chama-se TVI. Em breve irá mudar de mãos. De mão em mão anda também o primeiro CD ROM feito no país . Apesar de o conteúdo não ser dos mais aliciantes, (a I Série do Diário da República desde 1970), a curiosidade é grande. Dentro de pouco tempo será uma banalidade.
O que não é banal é que no espaço de poucas horas morram duas crianças num mesmo Aquaparque, os novos centros de diversão da época estival. Mas acontece no Restelo e as dúvidas sobre as condições de segurança daqueles estabelecimentos aumentam.
Guiada pelo ilusionista Hannibal, Trapalhândia está no pelotão da frente na Europa e em Outubro, enquanto os estudantes mostram o rabo ao Ministro da Educação, é lançado o primeiro satélite tuga. Começou a aventura no espaço.
Em 1994 Ulisseia é capital Europeia da Cultura e vêem-se os primeiros sinais da EXPO -98: começam as demolições. A TV Pimba assenta arraiais com "Perdoa-me", "Cenas de um Casamento" e "All you Need is Love". A RTP contra-ataca no mesmo estilo .
De Foz Côa vem a surpresa: gravuras pré-históricas são descobertas e ... era uma vez uma barragem.Os telefones eróticos atacam em força, as vendas por correspondência são uma praga, a publicidade entra em nossas casa sem pedir licença, os hipermercados crescem como cogumelos, os desportos radicais assentam praça. Em cada esquina há um moedinhas, uma caixa multibanco e um cócó de cão. Pedro Abrunhosa pensa interpretar o sentir dos portugueses cantando "Não Posso Mais". Mas estava enganado, porque o pior ainda estava para vir...
Depois das auto estradas de betão, entramos , em 95, na era das auto estradas da informação. Mas nestas não andamos: navegamos ou "surfamos" sem pagar portagem. A conta vem ao fim do mês, como a dos telefones eróticos.
Chega o porta- moedas electrónico e a TV por cabo, vai-se às Docas de patins em linha, e quem nos traz as cartas é "O Carteiro de Pablo Neruda". O muito chorado Monumental reabre as suas portas transformado em Centro Comercial. A sociedadde de consumo celebra mais uma vitória…
Cada um tem o seu PC , os cartões de visita passam a incluir fax e e-mail. E toda a gente nos quer levar coisas a casa. Da Telepizza à comida chinesa, passando por refeições completas, incluindo serviço e guardanapos, tudo é possível obter através do telefone. O trânsito vai aumentar na hora de ponta de fim de tarde e as motoretas da Telepizza passam a ser reefrenciadas como perigo público.
Estamos em Trapalhândia, no ano de 1995, e a música de Vangelis ecoa pelo País. Consta que algumas coisas vão mudar lá para o final do ano. "É o Bicho é o Bicho"- canta Iran Costa.
Por esta altura, já Hannibal tinha cumprido o seu papel. Com a sua trupe de vampiros destruíra a agricultura e a pesca, começara a reciclar os tugas para serem prestadores de serviços, oferecendo em troca a parafernália consumista.
Sabendo que a “poção mágica” ( que mais não era do que os fundos comunitários que diariamente abarrotavam os cofres da Nação) já não chegava para saciar os ímpetos consumistas de um povo extasiado e adormecido, o ilusionista- vampiro que agora comia bolo-rei diante das câmaras de televisão, decidiu jogar a cartada do “tabu”.
"Ah, bom, não sei se me recandidato, afinal vocês estão a ser demasiado exigentes, já vos dei tudo o que prometi e vocês ainda querem mais, se calhar o melhor é dar o lugar a outro". Alguns capangas do ilusionista esguio tentaram demovê-lo, mas logo desistiram quando viram a possibilidade de ganhar mais dinheiro, servindo outros patrões. Não se sabe se por sugestão do próprio Hannibal , se por iniciativa própria, um grupo de vampiros decide criar o BPN. Antes, porém, vão ter de aprender alguns números de ilusionismo com Hannibal. As aulas serão pagas anos mais tarde com umas acções suspeitas. Só alguns tugas ficam de tanga, mas todos serão condenados a pagar, durante gerações, os números do gangue de ilusionistas-vampiros que Hannibal amestrara.
Aos poucos, o povo de Trapalhândia começa a mergulhar no torpor provocado pelo beijo dos vampiros. Mas não nos adiantemos...

( Continua)

Late night wander (17)

O FMI ainda não chegou, mas mandou dois emissários para abrir caminho