quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A dívida belga

Além dos problemas políticos que ontem aqui aflorei, a Bélgica tem uma das maiores dívidas externas da zona Euro. Nos meios políticos ouve-se falar em surdina de uma possível entrada do FMI no país. Há quem admita que, se Portugal tiver de recorrer ao Fundo Europeu, a Espanha aguentará apenas alguns meses e, logo a seguir, a gula dos mercados virar-se-á para a Bélgica que, além de um endividamento crónico, vive há três anos um impasse político.
Se isso vier a acontecer os especuladores atingem o coração da Europa e, então, talvez a senhora Merkel perceba o que está em jogo.
Pensando em termos europeus, não deixa de ser preocupante imaginar o "berço" da União Europeia partido em dois, com o FMI a intervir para colar os cacos...

Eles precisam, é de Vaselina!


Os defensores da entrada do FMI em Portugal, “para pôr isto na ordem”, devem andar descoroçoados.
Na semana passada, depois de Portugal ter vendido dívida a um juro mais baixo do que os analistas da desgraça previam, recomendei-lhes Eno. Hoje, ao saber que Portugal conseguiu colocar 750 milhões a 4 por cento (juro elevado, mas mesmo assim ( 120 pontos abaixo da última emissão), o melhor é recomendar-lhes Vaselina. Não uma vaselina qualquer. Vaselina Pacu, a mais indicada para os que vivem com o lema "a desgraça do país é a garantia do nosso ganha pão".

O ilusionista de Trapalhândia (5)

Capítulo 5: Pão e circo, a hora do ilusionista

Capítulos anteriores ( aqui)


Por esta altura, os deuses também deviam andar entretidos com a sociedade de consumo e não ouviram as preces de Maria. De nada lhe valera prometer ir a Fátima todos os meses durante um ano, rezar o terço todas as noites, só entrar no Amoreiras para comprar botinhas para o neto e não comer chocolates durante um ano, se Hannibal ganhasse com maioria absoluta.
Não ganhou, mas as profecias do homem que nunca se enganava, raramente tinha dúvidas e não perdia mais do que cinco minutos diários a ler os jornais, cumpriram-se.
Chateado com as reformas que Hannibal propunha, o PRD caiu na esparrela e apresentou uma moção de censura. O governo caiu e Soares “O Fixe”marcou novas eleições para o Verão de 1987. Quando Maria soube indignou-se:
-Hannibal, tu estás a ver isto? O Soares marcou eleições para o Verão só para não podermos ir de férias! E logo este ano que prometeste que me levavas à Capadócia. Não há direito!
- Deixa lá Maria. Com o dinheiro que todos os dias chega da Europa, não vão faltar oportunidades de te levar à Capadócia. Agora o importante é salvar o país...
- Lá estás tu com a mania das grandezas! E que vou fazer ao bikini que comprei no Amoreiras, se não vou para a praia este ano?
Por essa altura, Trapalhândia recebia, diariamente, milhões de contos para se modernizar. Assim começaram a surgir casas com piscina e veículos todo terreno comprados com verbas destinadas à agricultura, enquanto uns portugueses ainda mais engenhosos faziam uma redestribuição pouco escrupulosa, mas generosa, das verbas do Fundo Social Europeu destinadas à formação.
Na campanha para as eleições legislativas de 1987, os discursos de Hannibal eram dirigidos ao povo, com promessas de felicidade:
- Prometo-vos, se me elegerem, que terão dinheiro para comprar frigoríficos, arcas congeladores, televisores de alta definição, computadores e uma parafernália de produtos que vocês nem imaginam que podem existir, nem sabem para que servem, mas que se vão tornar indispensáveis na vossa vida.
- E também nos dás automóveis, casas de fim de semana e o direito a passar férias em Cancún?
- perguntou o Povo.
- Dou-vos tudo isso e ainda férias nas Maldivas, “time-share”, centros comerciais, hipermercados recheados de saldos, promoções e outras confusões, automóveis para os vosso filhos, 100 canais de televisão, caixas multibanco e cartões de crédito à fartazana, para vocês se divertirem.
- Nós já não acreditamos no Pai Natal- respondeu o Povo incrédulo. Só podes ser um daqueles publicitários que prometem tudo, mas quando a gente vai a ver descobre que era um embusteiro.
- Estais todos muito enganados. Eu descobri a poção mágica que transforma os vossos desejos em realidade. Confiai em mim, que não vos desiludirei.
- Tá bem, já percebemos… vais organizar um daqueles concursos estilo Cola Cao, pões-nos a todos a comprar aquela mistela e depois sorteias os felizes contemplados- retorquiu o Povo desconfiado.
-Ó povo incréu! Julgais vós que seria capaz de vos intrujar? Se digo que é para todos , é mesmo para todos. Sem concursos, sem truques, apenas com a minha capacidade para utilizar a poção mágica em vosso proveito. E digo-vos mais… se me reelegerem ainda vos apresento uma Fada Madrinha que, apesar de ter cara de Bruxa Má, vos irá satisfazer outros desejos.

Uma noite, depois de um comício, Maria não se conteve e , quando chegaram ao hotel, enfrentou Hannibal:
-Tu estás maluco? Que é que andas aí a magicar ?Subiu-te o poder à cabeça e já não sabes o que dizes? Puseste-te a prometer porcarias a toda a gente, como é que as vais pagar?
-Está sossegada, Maria, tem calma. Eu não vou pagar absolutamente nada, não estou doido. Vou é fazer as coisas de maneira a que os portugueses pensem que as coisas não lhes vão custar nem um centavo. Inventei uns cartõezinhos magnéticos fantásticos. Quando as pessoas os passam por uma máquina, acreditam que compraram as coisas sem gastar dinheiro. A conta só vem no mês seguinte...
- E se no mês seguinte as pessoas não tiverem dinheiro para pagar?
- Começam a pagar juros, claro...
- Mas as pessoas não percebem isso, pois não? Olha que isso ainda acaba mal, Hanníbal...
- Se as coisas correrem para o torto vão mas é culpar o governo que estiver em funções, já nem se lembram que fui eu a dar-lhes aqueles cartõezinhos mágicos.Com os salários a subir e os juros a baixar, durante 10 ou 15 anos as pessoas aguentam-se. Daqui a 10 anos vou-me embora e o governo que vier a seguir que se amanhe, porque nessa altura já serás primeira dama e eu serei PR, tenho autoridade moral para criticar as asneiras que o primeiro ministro da altura fizer...
- Olha lá, tu vais ser primeiro-ministro, ou ilusionista de circo?
- ...se queres que te diga com franqueza, nem estou muito preocupado com isso...
tenho cá uma fezada que quando chegar a PR, a Manuela vai ser PM e sabes como nos damos bem.
- Lá isso é verdade. Ela é muito tua amiga… mas achas que as pessoas quando virem que não têm dinheiro para pagar as dívidas não se vão revoltar?
- Qual revoltar, qual quê! Os tugas querem é pão e circo e têm a memória curta. Olha, toma lá o meu cartão de crédito e vai ali comprar umas coisinhas ao Amoreiras, para te pores bonita para a minha tomada de posse...
- E tu que vais ficar aqui a fazer?
- Vou reunir com uns jornalistas
- Com jornalistas? Mas tu nem lês jornais, de que é que vais falar com os jornalistas?
- Não vou falar com eles. Vou fazer um dos meus números de ilusionismo.
- Cuidado com os jornalistas, homem! Olha que se eles começam a puxar os cordelinhos ainda são capazes de descobrir umas coisas...
- Está descansada, mulhere! Os jornalistas portugueses são muito suaves. A maioria gosta mais de estar ao lado do poder, do que andar a fazer investigação. Não vês o Amando,que me segue para todo o lado como um cãozinho de estimação?
- Vê lá se eles descobrem o que fizeste à minha madrasta!
- Eles querem lá saber disso, Maria! Vais ver como dentro de algum tempo me vêm comer à mão. Faço uns números novos, como eles nunca viram, digo umas coisas que eles não gostam de ouvir, depois o Amando trata de os amansar, com a promessa de uns exclusivos e daqui a algumas semanas tratam-me como um ídolo. Vais ver as vezes que vou aparecer nas capas dos jornais como a grande esperança de Portugal...
- Tu lá sabes...mas olha que eu tenho muito medo de jornalistas...

(Continua)

Late night wander (14)

As eleições para a PR deveriam ser como os referendos. Sendo a abstenção superior a 50%, a decisão dos eleitores não é vinculativa. Poupava-se dinheiro e chatices.