quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Farinha Amparo e Spaguetti Bolognese


Em tempos, quando um automobilista fazia asneiras e violava as regras de trânsito, havia sempre quem perguntasse, em alusão a uma farinha que dava brindes :
- Olha lá, saiu-te a carta num pacote de Farinha Amparo?
Os tempos mudaram. A farinha Amparo deixou de dar brindes e o pregão passou a ser outro:
- Saiu-te a carta num bolo rei?
Veio depois a União Europeia, acabou com os brindes do bolo-rei e, hoje, os automobilistas fartam-se de fazer asneiras mas ninguém invoca a farinha Amparo ou o bolo que, noutros tempos, apenas se comia no Natal.
Hoje, a grande moda, é perguntar a um licenciado de reputação duvidosa:
- Tiraste a licenciatura depois de Bolonha, não foi?
Bolonha veio descredibilizar muitas licenciaturas e desvalorizar os mestrados. Pouco mais se poderia esperar de uma terra que inventou aquela pasta tão apreciada por miúdos. No entanto, também em breve este pregão cairá em desuso. Um dia destes, o licenciado interpelado sobre a origem da sua licenciatura, responderá descontraidamente:
- Comprei-a na Internet!

O estranho caso dos belgas


Os belgas- um povo estranho que entre outras singularidades elegeu o mexilhão como prato gastronómico nacional- estão há quase oito meses sem governo. Na verdade, o impasse dura há mais de três anos, porque francófonos e flamengos não se entendem e as últimas eleições legislativas, realizadas em Junho, deram a vitória na Flandres ao partido flamengo que preconiza a dissolução da Bélgica e, na região francófona, os vencedores foram os socialistas,que defendem a manutenção da união de Flandres e Valónia.
Quem, por estes dias, demande a insípida Bruxelas, a inóspita Antuérpia ou a pacata Gent, não se aperceberá que este povo dicotómico está desgovernado.
Tudo funciona normalmente. Nos transportes, nos hospitais, nos serviços públicos, nos tribunais ou nas escolas não se ouve ninguém falar de crise política e todos parecem alheios à eminente dissolução de um país. Não sei se são loucos, inconscientes, desinteressados ou conformistas. Sei que continuam a sua vida. Sem governo, nem solução à vista.
E com um grave problema de dívida, que abordarei aqui amanhã.

O ilusionista de Trapalhândia (4)

Capítulo 4: O Farol das Amoreiras

Capítulos anteriores ( aqui)

Ao fim de 20 lições de dicção, Hannibal já pronunciava com desenvoltura "supercalifragiliespiralidoso", mas continuava a engasgar-se com o "Rato que roeu a rolha da garrafa do rei da Prússia". As suas preocupações, no entanto, eram outras. Na iminência da entrada de Portugal na CEE precisava de aplicar os truques que engendrara para convencer os tugas que com ele seriam felizes. Os ventos da História estavam do seu lado e traziam até Portugal a Internacional Consumista que será a sua maior aliada.
O primeiro sinal de que a Internacional Consumista podia estar a chegar a Trapalhândia não veio do cometa Halley que nesse ano visitou de novo a Terra, anunciando a comercialização do telemóvel. Veio da URSS com a chegada de Gorbatchov ao Poder. Anos depois emprestaria o seu nome a uma pizza. A Perestroika é palavra de ordem e a solidariedade do mundo contra a fome desperta, com um sinal de esperança, no mega concerto Live Aid, que põe o mundo a cantar "We are the World".
Em Trapalhândia, os tugas fazem filas. Para levantar dinheiro no multibanco e preencher os boletins do totoloto, na esperança de equilibrar o orçamento familiar. As agências de viagens andam numa azáfama a organizar excursões de todo o País para Ulisseia. Motivo: nas Amoreiras acaba de ser inaugurado o farol da sociedade de consumo à tugalesa - o Centro Comercial das Amoreiras.
Trapalhândia entra formalmente para a CEE no dia 1 de Janeiro de 1986 e o primeiro bébé proveta a nascer no País já é um cidadão comunitário. Ambos os acontecimentos podem ser registados com as novas máquinas fotográficas descartáveis. No Hospital de Santa Cruz faz-se a primeira transplantação cardíaca. A medicina tuga vive um ano de glória.
Acaba o papel selado e começa o "Cartão Jovem" . A sociedade de consumo proclama eufórica :"Venham a mim as criancinhas".
"Era Uma Vez na América" enche as salas de cinema, enquanto a campanha de Freitas do Amaral sob o lema "P'ra Frente Trapalhândia" é feita ao bom estilo americano. Mário Soares "é fixe" e ganha as eleições em Fevereiro, mas quem vai p'rá frente é a sociedade de consumo. A D. Branca está presa, mas a Bolsa faz a sua vez e os tugas entram em euforia bolsista. O vai-vem Challenger explode com sete tripulantes a bordo. Pausa no programa de voos tripulados. Os tugas passam a voar nas asas do sonho, por sua conta e risco…
(Continua)

Late night wander (13)

Como ainda não percebi que benefícios poderão advir para os portugueses, da entrada do FMI em Portugal, fui perguntar a gregos e irlandeses, que já o têm como hóspede há algum tempo. Nem uns nem outros me souberam explicar...