terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (3)

Capítulo 3: Planos para o futuro

Capítulos anteriores: aqui

Regressaram a Ulisseia em silêncio, cogitando sobre o futuro. Naquela época ainda não havia auto-estradas e a viagem era longa. Perto de Erisurfeira Maria perguntou:
-Hannibal, filho, tu sabes no que te vais meter? Isso da política não é para ti, só nos vai trazer problemas. Tu já estiveste no governo do Sá Cordeiro (“que Deus o tenha em descanso”) e não te deste lá muito bem, porque é que vais insistir? Estás tão bem a dar aulas lá na Universidade, tens o lugarzinho no Banco e ainda fazes aqueles números de circo, para que é que te vais meter na política?
- Na política, eu, Maria? Tu não estás boa da cabeça, mulher! Eu nunca fui nem nunca serei político. Sei que estamos muito bem na vida, apesar de sermos míseros professores… mas político nunca! O meu futuro é o ilusionismo. Não gostavas de ser primeira dama?
- Primeira dama? Mas isso não é o que chamam à mulher do Presidente da República?
- É…
- Então vais ser Primeiro Ministro ou Presidente da República? Ai filho, não estás mesmo nada bem. Devias ter tomado o Ben-u -ron, como eu te recomendei. Vê lá, queres que vá eu a conduzir até Lisboa?
- Ai, Maria, não estás a perceber nada. Dá tempo ao tempo. Para já vou ser primeiro-ministro, mas daqui a uns 10 anos candidato-me a presidente da República para fazer de ti primeira dama…
- Daqui a 10 anos? Dizes que não queres ser político e já estás a pensar ser presidente da República daqui a 10 anos?
- Ó filha, para ser presidente da República não é preciso ser político. Os tugas vão cansar-se dos políticos e só quem não for político, como eu te afianço que nunca serei, e os tugas vão acreditar que não sou, é que tem hipóteses de vir a ser presidente. Confia em mim, vá lá…
- Bem, se me garantes que vou ser primeira dama, confio. Afinal, no ilusionismo tu és mesmo bom...Mas como é que estás tão certo de ganhar as eleições? Aprendeste algum número de ilusionismo novo?
- Então como é que pensas que cheguei à Palmeira da Foz anónimo e saio daquela sala candidato a primeiro-ministro?
- Hipnotizaste-os a todos, foi?
- Não foi bem isso, porque no hipnotismo ainda estou a dar os primeiros passos... mas lá chegaremos, Maria, lá chegaremos...
- Mas olha lá...Agora há para aí o partido do Janes que vai baralhar as contas todas e se ganhares não vais ter maioria absoluta, cansas-te daquilo tudo num instante. Olha que eu bem sei como tu gostas de mandar sem teres ninguém a importunar-te...Saíste-me cá um mandão!
-Estás a falar do PRD? São uns ingénuos coitaditos. Se eu não ganhar com maioria absoluta tomo umas medidas que ninguém vai gostar e os patinhos apresentam logo uma moção de censura. A oposição vai toda atrás, o presidente da República dissolve o Parlamento, há novas eleições e dessa vez ganho com maioria absoluta, podes ter a certeza.
- E dizes-me tu, com essa ronha toda que não queres ser político. Tens cá uma lata!
- Ihihih!
- Olha Hannibal, prometes que quando fores primeiro-ministro mandas fazer uma auto-estrada para o Allgarve?
- Nem penses nisso, Maria! Os tugas iam pensar que eu estava no governo para defender os interesses do Allgarve e nunca mais votavam em mim. Isso está completamente fora de questão. Mas vou fazer melhor… vou mandar construir uma auto-estrada no Algarve. Desde Lakes até à fronteira com Espanha.
- Para podermos ir comprar caramelos a Ayamonte?
- Sim. E também para meter gasolina, porque daqui a uns anos o preço do petróleo vai ser tão alto e os impostos sobre a gasolina tão elevados, que temos de ir a Espanha meter gasolina.
- Mas sendo primeiro-ministro não vais ter carro e gasolina de graça?
- Claro que vou. E tu, o meu chefe de gabinete e os assessores também.
- Então para que é que te interessa ir meter gasolina a Espanha?
- Não sou eu, Maria, são os tugas. Aqueles que vão para o Allgarve no Verão e passam o tempo todo a passear de um lado para o outro. Tendo uma auto-estrada no Allgarve deslocam-se mais depressa.
-Olha lá, Hannibal… mas se forem assim tantos portugueses para o Allgarve, lá se vai o sossego da nossa Mariani em Cryingmount.
-É verdade que corremos esse risco, mas se isso acontecer arranjamos outro terreno e construímos uma casa maiorzinha, com uma bela vista para o mar. Tenho uns amigos que tratam disso e arranjam um terreno baratucho.
- Eu tenho medo, Hannibal…
-De quê, minha fofa?
- De viver numa casa isolada. E os assaltos?
- Quem falou de uma casa isolada? Os meus amigos também onde ir para lá.E para que servem os seguranças? Se lhes pago é para nos protegerem.
- O quê? Vais ter de pagar a seguranças para nos protegerem? Mas isso deve custar uma fortuna…
- Não sou eu que vou pagar, Maria. São os tugas com os seus impostos, estás a perceber?
-Estou a perceber, estou. Bem mereço chegar um dia a primeira dama… Olha, Hannibal, vais ter de fazer campanha para ganhar as eleições, não vais?
- Claro. Pelo menos para já ainda tem de ser assim… mas depois eu peço à Manuela e ela trata do assunto...
-Então amanhã vou telefonar à Glória de Matos
- Está bem, dá-lhe cumprimentos meus.
- Agora és tu que não estás a perceber. Vou telefonar-lhe para ver se ela te ensina a falar de uma forma que todos entendam. Ou pelo menos se indica alguém…
- Achas que vai ser preciso?
- Claro que vai, mas deixa isso comigo ...
(continua)

A honestidade de Cavaco e a inversão do ónus da prova

Se um qualquer cidadão me dissesse que, para ser mais honesto do que ele, eu teria de nascer duas vezes, o mais provável é que reagisse enfiando-lhe uma murraça nos queixos.
Com o cidadão Cavaco, porém, não posso reagir assim. Para além do dever de respeito à figura do PR, tenho de ponderar que anda rodeado de seguranças.Isso não me impede de dizer o que penso.
Em minha opinião, Cavaco é realmente sério, pois raras vezes se ri. Daí a poder concluir que é um cidadão honesto, vai uma grande distância. Só porque ele afirma que é? Por aí não vou lá…
Cavaco apresentou provas de que aquilo de que o acusam é mentira? Não. Reagiu com insultos ( disse que não respondia aos outros candidatos, mesmo quando eles são loucos) e depois remeteu-se ao silêncio.
Por outro lado, Cavaco demonstra uma falta de memória preocupante. Não se lembra a quem vendeu as acções da SLN e, imagine-se(!!!) mandou o seu staff dizer que não se recorda quando, nem onde, fez a escritura da sua casa de férias. Escritura essa que, curiosamente, desapareceu…Pode daqui inferir-se que Cavaco é desonesto? Não.
Ninguém pode acusar um cidadão de ser desonesto, ou criminoso, sem provas. O problema é que, ao recusar esclarecer todas as dúvidas e se alcandorar a “português mais honesto”, Cavaco inverteu o ónus da prova. Agora é a ele que compete provar que é mais honesto do que eu. E aí eu respondo: mais honesto do que eu, garanto que não é.
Tal como ele tem o direito de afirmar que sou menos honesto do que ele, e de garantir que é honesto porque ele próprio o diz ,também eu, até prova em contrário, tenho o direito de duvidar da honestidade do PR. Porquê? Poderia responder, utilizando a argumentação cavaquista, simplesmente "porque sim”. Não o faço. Começo por lhe lembrar a história da mulher de César e depois olho para o seu percurso e tiro as minhas conclusões.
No mínimo, o que posso garantir é que me preocupa muito a sua persistente falta de memória selectiva...
Razão, mais do que suficiente, para nunca votar nele.