segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O retrato desfocado do Estado


Há uma semana elogiei aqui o trabalho de investigação do DN, que se propunha traçar um retrato do Estado. Concluída a publicação, mantenho o que então escrevi: o jornalismo de investigação, liberto das imposições de agenda, é a essência da profissão e, por isso, sempre digno de louvor.
Acontece, porém, que o trabalho dos jornalistas do DN me deixou com água na boca e a sensação de estar a ver uma fotografia desfocada. Fui ao longo da semana bombardeado com números (que não me surpreenderam) mas continuei sem encontrar explicações, sem conhecer detalhes, que me permitam fazer uma avaliação correcta. Pior… em virtude de os dados apresentados se referirem, quase exclusivamente, à última década, fiquei com a sensação de que o Estado é um corpo de 10 anos, imberbe mas monstruoso e não um corpo maduro de 36- os anos da nossa democracia- que foi engordando ao longo do tempo, por falta de exercício e práticas alimentares saudáveis.
Ora todos sabemos que os maus hábitos alimentares adquiridos na juventude são em grande parte responsáveis pela obesidade na adolescência e idade adulta… e foi precisamente entre os 10 e os 20 anos ( quando Cavaco era primeiro ministro) que o Estado engordou e adquiriu maus hábitos. Como revela a investigação do DN.
O retrato do Estado traçado pelos jornalistas fez-me lembrar um voyeur apaixonado pela vizinha, que todos os dias vê sair de casa, voluptuosa, no vestuário que lhe realça as formas. Quando ela entra no carro, enxerga-lhe um pouco da coxa curvilínea que lhe aguça a imaginação, e desperta vontade para descortinar um pouco mais a sua nudez. Mune-se de uma câmara fotográfica e, durante semanas, põe-se à janela na esperança de a ver despir-se. Um dia consegue tirar umas fotografias através dos vidros fumados, onde se percebem dois seios firmes e umas nádegas protuberantes, mas a fotografia não permite perceber correctamente o traçado curvilíneo das formas, nem se os seios e as nádegas terão sido moldados em silicone, ou são dádivas generosas da Natureza.
A fotografia também não concede ao voyeur o privilégio de saber se a mulher que ostenta aquele corpo é casta, ou dada às volúpias da carne, dócil ou megera. Tudo o que o voyeur conseguiu confirmar é que o corpo nu daquela mulher o atrai ainda mais do que quando a vê sair de casa elegantemente vestida. Mas porquê?
Ao trabalho do DN falta a assertividade que se espera de uma investigação aturada. Depois de o ler, percebem-se melhor alguns contornos daquele corpo monstruoso, mas continuamos sem saber se a obesidade se deve a uma doença degenerativa incurável, ou é fruto de incúria e displicência do paciente.
O DN tirou uma fotografia ao Estado, mas ficou do lado de cá da vidraça. Não cuidou, ou não lhe foi permitido ir ao fundo da questão, para saber se a gordura resulta de mau funcionamento hormonal, se há qualquer disfunção endócrina, se a luxúria é desleixo ou adição.
Não se leia aqui uma crítica aos jornalistas que fizeram, repito, um trabalho meritório. Sei, por experiência própria, como é difícil penetrar no âmago do aparelho de Estado. Conhecer-lhe os vícios, as teias de interesses e jogos de poder que se entrelaçam nos gabinetes e corredores dos serviços públicos, as amizades de conveniência, a falta de noção de alguns dirigentes que lidam com dinheiros públicos e fazem, ou permitem, gastos sumptuários, os esbirros de prepotência que os levam a atirar para uma prateleira funcionários qualificados e a promover inúteis a cargos de chefia. Sei tudo isso, mas tinha valido a pena tentar ir mais fundo.
Perceber como se fazem os concursos, como se fundamentam as promoções, como o “outsourcing” sustenta algumas empresas que trabalham quase exclusivamente para o Estado, fazendo trabalhos que os funcionários poderiam assegurar.
Todos sabemos que o Estado gasta muito, mas o que eu queria saber é se gasta mal e onde.
Dizer que há funcionários públicos a mais é recorrente. O importante era saber onde estão os excedentários e porque é que as Leis de Mobilidade Interna e Especial falharam nos seus propósitos. Uma dica: pagar 12 meses de vencimento e cobrar IRS sobre 14, talvez explique alguma coisa...
Se o Governo defende que pode diminuir os salários dos funcionários públicos, por que razão não envereda também pelas negociações com funcionários interessados em sair, mas que estão impedidos de o fazer porque as leis referidas e o novo regime de reformas os obriga a permanecer para além da sua vontade e do termo do contrato que assinaram com o Estado?
Como cidadão, interessava-me conhecer sem tibiezas os impedimentos e obstáculos a soluções conducentes a um Estado mais atraente, mais funcional e mais jovem. Um Estado gratificante e não um encosto de ocasião.
Se os jornalistas tivessem tido possibilidade de entrar no aparelho de Estado, talvez tivessem encontrado resposta para muitas das dúvidas que certamente se lhes colocaram e que os portugueses em geral ( e os funcionários públicos em particular) gostariam de ver respondidas.
O DN ficou à janela. Tirou a fotografia através da vidraça embaciada e mostrou-nos apenas um Estado gordo e desmazelado. Foi pena. Talvez para a próxima, possamos ver a fotografia de outro ângulo. Porventura tirada na praia, em topless…
Como devia ter feito o voyeur apaixonado pela vizinha. Se fosse mais afoito, ia até á praia, tirava uma fotografia e aproveitava para entabular conversa. Provavelmente, ficaria a conhecê-la melhor.

O ilusionista de Trapalhândia (2)

Capítulo 2: Não há coincidências
Capítulo anterior aqui

O grupo retirou-se, depois de mais uma curvatura da espinha a 90 graus, deixando escapar um sibilino “desejamos-vos as maiores felicidades”.
- Hannibal, diz lá o que andaste a fazer. Onde é que te meteste homem? Disseste que ias discursar e apareces-me agora com um rancho folclórico? Havia por aí alguma feira, não me disseste nada e foste fazer um dos teus números de ilusionismo??
- Acalma-te, mulher! Claro que fui discursar, mas isto do ilusionismo está-me no corpo e consegui agrupar umas palavras com sentido, mas que nem eu mesmo entendi muito bem, e eles gostaram do que lhes disse. Gostaram tanto, que me elegeram presidente do partido.
- Do partido? Qual partido? Ai, que eu devia ter ido contigo, minha Nossa Senhora!Não me digas que com essa idade te foste meter em política, homem! Andaste tu a preencher a ficha na PIDE a dizer que estavas integrado no regime da União Nacional do senhor Doutor, que não te metias em política,até escreveste que não convivias com a minha madrasta, omitindo que um ano, no Natal, lhe ofereceste aquela caixa de bombons que a deixou de diarreia…
-Essa por acaso foi uma ideia genial, Maria. Ela a pensar que tinha sido da lampreia de ovos, nunca desconfiou de nada…
- Coitadinha, que Deus lhe “deia” muita saúde Mas diz-me lá. Que partido é esse?
- Olha, para ser franco, nem sei bem.É aquele partido que o sr. Padre de Boliqueime diz que devemos todos votar, porque tem umas setinhas que apontam para o Céu…
-Ah! Então é nesse partido que a gente sempre votou, não é?
- Pois , talvez...já não me lembro muito bem, como sabes não sou político...
- E agora és presidente?
-É verdade, mulher. Vem a gente até à Palmeira da Foz fazer a rodagem ao carro e saio daqui Presidente. Ele há cada coincidência…
- Que é que disseste? Coincidências? Vou já telefonar à Margarida Rebelo Pinto para lhe sugerir o título para um livro. “Não há coincidências”…
- Pois não, Maria, mas os tugas vão ficar a pensar que tudo isto foi uma coincidência… Bem, vou só comer um bolinho de arroz e tomar um café, que temos de voltar depressa para Ulisseia. Amanhã tenho muito que fazer.
- Mas amanhã não tens aulas, Hannibal!
- Pois não, mas vou ter uma reunião muito importante no Partido para traçarmos a estratégia.
- Estou a ver que isso te está a subir à cabeça. Vê lá no que te metes. Com essa mania do ilusionismo ainda és despedido!
- Maria… tu ainda não percebeste? Vou ser o futuro Primeiro Ministro de Trapalhândia!
Maria esbugalhou os olhos, deixou escapar um suspiro e disse:
- Vá lá filho, come o bolinho e toma um chazinho de limão em vez do café. Olha e toma este Ben-u-ron, porque me parece que estás a ficar constipado. Não te dói a cabeça? Parece-me que estás com arrepios...
(Continua)

Saravá!

Para todos os leitores e leitoras brasileiros que me visitam, aqui fica o meu grande abraço.