segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Não se está mesmo a ver?

Claro que os pais vão fazer isto na defesa dos interesses dos filhos.

Conversas com o Papalagui (53)

-Eh, tuga, grande carrão! Tu não sentes a crise…
-Ganhei o Euromilhões e decidi investir...
-O Euromilhões? Grande sortudo! Quando foi isso?
-Há três semanas.
-Eh pá, mas o primeiro prémio do Euromilhões não sai em Portugal há mais de um mês!
-Estás a duvidar da minha honestidade?
-Não, tuga. Só gostava que me explicasses como conseguiste ganhar o Euromilhões, se ele não saiu em Portugal. Foste jogar a Espanha?
-Acabou-se a conversa. Não estou disposto a alimentar essa tua conversa suja.
-Conversa suja? Só por te perguntar onde registaste o boletim que te deu o primeiro prémio do Euromilhões?
-Não tenho de te provar nada. Tens de nascer duas vezes para seres mais honesto do que eu, ouviste?
-Estou tramado! O Cavaco disse o mesmo aos portugueses quando lhe perguntaram sobre umas acções muito lucrativas que ele não se lembra a quem vendeu… Deixa lá, tuga. Apesar de tudo ainda confio mais em ti do que no Cavaco e estou-me marimbando. Quero lá saber se ganhaste o dinheiro no Euromilhões ou a vender droga. No entanto, deixa-me que te diga. Quem não deve não teme. E quem recusa explicar como enriqueceu de um dia para o outro, é porque não tem a consciência tranquila. Claro que esse não é o teu caso, porque mais honesto do que tu não há.
-Disso podes ter a certeza. Sou honesto e preocupo-me com os pobres e as desigualdades.
-Isso também já sabia. A propósito… também acumulas pensões como o Cavaco? É que ele também anda muito preocupado com a pobreza e as desigualdades…

Este jornalismo faz bem, mas...

Felizmente, apesar de muitas desilusões, continuo a encontrar motivos para considerar o jornalismo a melhor profissão do mundo. Já aqui tenho feito algumas referências a jornalismo e jornalistas que merecem todo o respeito pelo trabalho que desenvolvem.

Já aqui tenho lamentado que jornalismo sério, de investigação, não seja a regra, mas sim a excepção em Portugal. Não poderia por isso deixar de fazer uma referência a uma iniciativa do DN que deve merecer o nosso aplauso. Ao criar um Gabinete de Investigação, com o objectivo de fazer jornalismo fora das agendas ditadas pelos interesses partidários e corporativos, o DN pode dar um enorme contributo para a (re) credibilização do jornalismo em Portugal.

O primeiro trabalho dos jornalistas que compõem este Gabinete, cuja publicação se iniciou na sexta-feira, pretende fazer um retrato do Estado que temos. É cedo, ainda, para fazer uma avaliação qualitativa - a publicação só termina no dia 15- do trabalho desenvolvido. No entanto, como ponto de partida, há revelações curiosas. Como, por exemplo, facto de a máquina do Estado - a que Cavaco um dia chamou "O Monstro"- ter tido o seu período de engorda precisamente quando Cavaco foi primeiro ministro. Assim se mostra como o jornalismo pode contribuir para desfazer mitos, em vez de os construir.

Outro dado curioso, não tão surpreendente, é que nos últimos três anos do governo Sócrates foi criada uma Fundação em cada 12 dias. Certo... o problema é que a maioria das Fundações a que alude o trabalho do DN são privadas, o que induz o leitor em erro... Mas sobre esta matéria não me alongo muito mais, porque recentemente escrevi um artigo para a revista "Dirigir", com base numa investigação que fiz sobre as Fundações e que comecei com uma frase de Rui Vilar, presidente do Centro Português de Fundações: " Há Fundações a mais e transparência a menos".

Termino este post com as palavras de João Marcelino, que me encheram de esperança num futuro melhor para o jornalismo, pelo menos no DN: "Pretendemos fazer um retrato tão fiel quanto possível da situação a que chegámos, sem o objectivo mesquinho de encontrar culpados".

Espero que se cumpra o desígnio do director do DN. Será um grande contributo para o jornalismo e um excelente serviço prestado aos leitores que poderão ter o prazer de voltar a ler jornais que os convidam a fazer uma reflexão, em vez de serem bombardeados com as opiniões de jornalistas que fundamentam as notícias em "investigação" ditada por fontes anónimas.

Late night wander (7)

O governo Sócrates é mau? É. Conseguiu atingir a meta de redução do défice a que se tinha comprometido em 2010? Se os números não tiverem sido manipulados, como fazia Manuela Ferreira Leite, a resposta é SIM. Alguém faria melhor? Duvido. Então como justificar a insistência da Alemanha e da França, para que Portugal recorra ao FMI?

A resposta parece-me óbvia. O que está em jogo é a tentativa de garantir que a direita assegure o poder na Europa para que mais facilmente os donos dos mercados financeiros a controlem. Alemanha e França querem Passos Coelho no poder em Portugal para poderem ser donos da Europa. Perante a evidência, Cavaco remete-se ao um silêncio e avisa os portugueses para se manterem caladinhos, e agradecidos, para que quem nos empresta dinheiro não se zangue. De acordo com as sondagens, os portugueses acham bem e preparam-se para eleger Cavaco no próximo dia 23. Um povo de curvados não pode aspirar a mais do que ter um dos seus em Belém.