sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Os Respigadores e a Respigadora

Os Respigadores ( Millet)
Nunca tinha ido a um leilão. Há umas semanas tomei finalmente contacto com essa realidade, a pedido de pessoa amiga. Devo dizer-vos que foi uma experiência enriquecedora, pois eu tinha uma ideia dos leilões, que agora se esfumou.
Pensava eu que os leilões eram frequentados por senhoras e senhores aprumados, ostentando a sua abastança,que lá acorriam para comprar peças de que gostavam e onde viam uma possibilidade de investimento seguro a médio ou longo prazo, se a vida desse para o torto. Foi com esta ideia que me apresentei no local indicado pela minha amiga. Ia um pouco constrangido, porque não ia comprar nada, apenas corresponder ao seu pedido para a acompanhar.
Cheguei à hora aprazada. Havia pouca gente, o que logo atribuí à crise. No leilão havia diversas obras de arte de artistas altamente conceituados, a par de “quinquilharia” mais ou menos valiosa, que as pessoas vão acumulando ao longo da vida e que, na hora da morte, os herdeiros vendem a quem der mais.Quando deparei com a fraca assistência, pensei para os meus botões "Já nem as pessoas com possibilidades financeiras acima da média escapam à necessidade de refrear o seu apetite consumista”.
Quando, meia hora depois do horário anunciado, o leiloeiro começou a exibir num ecrã as fotografias das peças, olhei novamente à minha volta. Eram apenas dois ou três os clientes encadernados em vestuário a condizer, na sala onde estavam cerca de duas dúzias de homens desportivamente vestidos. Rapidamente percebi que eram negociantes e ali se tinham deslocado para comprar algumas peças e com elas obterem algum lucro nos dias seguintes. O decorrer do leilão viria a dar-me razão. Num momento em que , já um pouco enfadado, saí até ao jardim para apanhar um pouco de ar, deparei com um pequeno círculo onde quatro ou cinco homens acertavam estratégias:

Tu não licitas o lote 197, que eu não licito o 294. Aqui o João arremata pelo preço base o lote 178 e deixa o Luís levar o 327”.

Confirmei, então, que estava na presença de negociantes. Não de uns negociantes quaisquer. De respigadores que apenas ali estavam com o objectivo de arrematar algumas peças mais ou menos valiosas, ao preço da “uva mijona”, para revender dias depois a clientes previamente contactados, com um lucro razoável.
Tive a confirmação das minhas suspeitas quando, em plena sala, um dos respigadores falava com o cliente ao telemóvel.“ O quadro do Carlos Carneiro está a subir, já vai em 14 mil, porque há muitos interessados e eu não consegui controlar. Está interessado? 15 mil?" Do lado de lá do fio veio o assentimento e o homem ergueu a sua placa. Ninguém mais licitou e o respigador, feliz, comunicou ao cliente “ é seu”.
No leilão havia mais quadros de Carlos Carneiro, de João Lopes, Júlio Resende, Artur Loureiro e outros, mas só mais um foi vendido por telefone, para um museu. Em contrapartida, algumas peças que foram à praça, por baixo valor – nomeadamente bronzes- atingiram valores bastante altos, escapando à lógica da concertação entre os negociantes ( Vim a saber mais tarde, pelo leiloeiro, que “os bronzes é que estão dar”. Entendi as suas palavras como sinónimo de bom negócio, por haver muita procura, mas não posso garantir que esteja certo…)
Os Respigadores e a Respigadora (Agnès Varda)
Enquanto se sucedia o lento pregoar das peças, veio-me à memória o filme de Agnès Varda -“ Os respigadores e a respigadora” .
Naquela sala, os presentes não apreciavam, nem estudavam, obras de arte, peças de museu ( que as havia …) ou colecções. Vasculhavam, entre restos de memórias , ruínas, cinzas de vidas, boas oportunidades de negócio. Faltava a todos os intérpretes a celebração de vida e a liberdade, que Agnès Varda impregnou nas personagens do seu filme. Pensando melhor, concluí que não eram respigadores, aquelas personagens, pois não estavam ali para recuperar nada, mas apenas para servirem de intermediários na transferência de propriedade das peças, auferindo assim algum lucro.
Talvez nunca tenha estado tão perto da noção de efémero, como naquele dia. Aquelas peças cujos proprietários, agora falecidos, tinham adquirido, à volta das quais certamente construíram afectos e cumplicidades, iam transferir-se de mãos. Sem qualquer mais valia que não fosse a de enriquecer a conta bancária de um intermediário.
Dei comigo a pensar que gostava de ter seguido o percurso de algumas daquelas peças, desde o momento em que os seus criadores lhes deram vida. Gostava de conhecer a relação que se estabelecera entre aquelas peças e os seus primeiros e futuros proprietários e perceber as diferenças. E gostaria , acima de tudo, de saber qual o destino daquele quadro que foi adquirido por um museu, deixando de estar aprisionado na casa de um particular, para passar a estar exposto aos olhos atentos de um público apreciador. Irá o quadro envaidecer-se, sentir a falta dos seus velhos proprietários, intimidar-se perante o olhar curioso dos visitantes do museu?
Saí para a rua no meio destas cogitações. Já era noite. Caía uma chuva fina e persistente. Em frente à casa onde decorrera o leilão, havia um ecoponto. Uma velhota respigava papel. De jornais que outros leram, mas ela provavelmente nunca leria. Pensei que o fosse vender, para poder aconchegar o estômago com o produto da venda. Perguntei-lhe quanto lhe iria render aquele fardo. Olhou para mim desconfiada e respondeu:
“ Este não é p’ra vender, meu senhor. É p’ra me aquecer, que a casa é fria e a roupa pouca. Para vender é isto. O senhor quer?”
Abriu um xaile e de lá tirou umas peças em metal, de contornos indefinidos, que alguém tinha mandado para o lixo. Peguei nas peças. Eram imprestáveis.
“ Quem lhe vai comprar isso?”
“Um ferro velho ali em Vandoma. É p’ra fundir”.
“Quanto vai receber?”
“Não sei, ele é que faz o preço. Dois ou três euros”.
Peguei numa nota de cinco e dei-lha.
“Diga lá ao ferro velho que lhe comprei uma balança de decoração toda desfeita, uma pega que me parece ter pertencido a um forno eléctrico e esta cabeça de toiro escaqueirada por cinco euros”.
“Está bem, meu senhor, eu digo.Muito obrigada”
Fomos à nossa vida, cada um para seu lado. Noite alta, ao chegar a casa no outro extremo da cidade, coloquei as peças num outro ecoponto. Talvez alguém as tenha respigado, antes de passar o carro do lixo, e as tenha ido vender a um receptador que as fundirá, quiçá para fazer uma nova peça que, dentro de algum tempo, será leiloada num desses encontros de negócios entre respigadores.

Late Night wander ( 5)

A solidariedade autêntica não se mostra apenas em momentos de crise.