segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Yes, we can!


2010 foi, muito provavelmente, o pior ano da minha vida. Em termos familiares fiquei reduzido à expressão mais simples do Eu. Na saúde apanhei alguns sustos - felizmente não passaram disso - suficientes para me deixarem em estado mental comatoso ao longo do ano. Cada vez que meti férias morreu um familiar ou amigo. No trabalho empenhei-me num projecto editorial novo, confiei nuns arrivistas recomendados por amigos recentes e tramei-me. A programada emigração para o hemisfério sul sofreu um acidente de percurso que me obrigou a regressar à terra.
No meio de tanto despautério, reencontrei amigos de infância que os atalhos e retalhos da vida tinham separado, entre mares montanhas e vales que traçaram os nossos percursos de vida, trilhados em continentes dispersos. Este reencontro fez-me recordar uma namorada vietnamita.
Num amanhecer tropical, entre fogosos amores suados pelo calor húmido de Vanuatu, declarei-lhe fidelidade eterna. Olhou-me com um misto de doçura e compreensão e disse-me no seu linguarejar mesclado de bislama e inglês:
"Depois dos 40 anos podemos amar, dar prazer ao corpo, mas não podemos fazer amigos. Esses são os que cresceram connosco. Eu quero voltar a My Lai, reencontrar os amigos que perdi pelo caminho, tu nunca irias comigo. E se fosses, depressa te vinhas embora, porque não pertences a My Lai, nunca perceberás as pessoas que lá vivem em constante revolta, pelo massacre e abuso de que foram vítimas. Nunca poderás confiar cegamente em pessoas que não fizeram o teu percurso".
Engoli em seco. Lembrei-me que An Mei estava ali comigo, porque na manhã em que os americanos tinham atacado My Lai tinha ido com a mãe ao mercado para comprar comida, escapando assim ao massacre. Meses depois An Mei regressou ao Vietname. Fiquei em Phukett, durante uma semana, a curtir em álcool as agruras da rejeição. Nunca esqueci aquela manhã. Gostaria de a voltar a encontrar numa dessas curvas da vida. Não por sentir desejo de voltar a amar daquela forma que só a ternura e sabedoria dos 40 alcança, mas para dizer a An Mei que nunca mais esqueci aquela frase e que hoje percebo, melhor do que nunca, que ela tinha razão.
Entramos em 2011 com a sensação, quase certeza, de que vai ser um ano mau. Porque os rendimentos vão diminuir e o custo de vida aumentar. Porque temos menos para gastar em viagens a Cancún, Varadero ou Phukett, não podemos trocar de carro, ou comprar mais um berloque. Porque vai crescer o desemprego e vão engordar os impostos, vão diminuir as reformas e os salários e minguar o Estado Social. Porque haverá gente com fome. Porque perdemos a esperança nos políticos que nos governam ou querem governar.
Pessoalmente acredito, quiçá parvamente porque sou um privilegiado, que para mim 2011 vai ser melhor do que 2010. Viver com menos dinheiro não me preocupa, desde que tenha qualidade de vida. Ou seja, saúde e trabalho. O grande drama de muitos portugueses é confundirem qualidade de vida com bens materiais. Estou mais interessado em bens imateriais como a amizade. Talvez por isso, ao fazer o balanço deste ano, seja levado a concluir que não foi um ano tão mau assim. Apesar de ter sido o pior ano da minha vida. tive a felicidade de reencontrar velhos amigos.
Reforcei a ideia de sempre, de que ter saúde e amigos é mais importante para a nossa qualidade de vida, do que ganhar o Euromilhões. Temos de aprender a relativizar as coisas. Vivemos mais de duas décadas como ricos, quando na realidade nunca o fomos. A maioria dos portugueses viveu nos últimos anos com dinheiro que lhe foi emprestado por agiotas sem escrúpulos, vendedores de ilusões resgatadas com o preço do sub-emprego precário. Viveu refém de empréstimos, cartões de crédito e da necessidade de construir uma imagem, alicerçada nos paradigmas da sociedade do consumo. Tudo se esboroou num ápice.
Em 2010 os portugueses despertaram para a realidade, depois de terem vivido 25 anos mergulhados num sonho cor de rosa. O despertar é tumultuoso e difícil, mas para isso já eu alertara em 1998 quando, indiferente às acusações de catastrofista de João Salgueiro e Vítor Constâncio, escrevi que os portugueses, mais cedo ou mais tarde, iriam despertar para uma realidade dolorosa.Não será tão dolorosa assim. Teremos é de relativizar as coisas e perguntarmo-nos: Poderemos ser mais felizes com menos dinheiro?
A resposta só pode ser: Yes, we can! ( desde que pensemos mais nos outros e demos mais importância às pessoas. Principalmente às que nos são próximas e estão a passar por dificuldades).
O importante é que reinventemos a forma de estar na vida, percebendo que o melhor que ela nos dá é a relação com as pessoas. É com elas que poderemos construir um país melhor.

Late night wander (1)

A coerência do dr. Cavaco é um penico furado. Mete água por todos os lados.