Em tempos, estabeleci amizade com uma socióloga, colega de voluntariado, que nunca recusava uma esmola a um pedinte. Muitas vezes levava-os a comer e ficava a conversar com eles durante algum tempo.Um dia veio fazer-me um pedido. Tinha conhecido um sem abrigo que, depois de muitas horas de conversa, lhe pedira para o levar ao cinema. Não para ver um filme qualquer . Queria ver um filme de Woody Allen que à época estava em reposição em Lisboa :“ Toda a Gente diz que te Amo” . Ela queria satisfazer-lhe o pedido, mas não queria ir sozinha, por isso me pediu que a acompanhasse.
Inicialmente o pedido do sem abrigo pareceu-me bizarro, até mesmo algo excêntrico, mas ela rapidamente me convenceu da sua razoabilidade. Afinal, por que razão não pode um sem abrigo ter interesses culturais, gostar de ir ao futebol e ao circo, ver um filme ou uma peça de teatro? Nem só de esmolas vivem os sem abrigo. Se não precisassem de comer, talvez gastassem o dinheiro das esmolas noutras actividades que lhes alimentassem o espírito. Como informação complementar, esclareceu-me que o sem abrigo lia todos os dias os jornais, pedia-lhe livros e depois discutiam-nos.
Nem eu nem a minha “amiga” tínhamos visto o filme, pelo que anuí acompanhá-la. Ela levou-lhe roupa de um filho e lá fomos os três num final de tarde ao King, ver a Julia Roberts ( eu aventara à minha amiga, estupidamente, a hipótese de ser a escanzelada Julia a razão da curiosidade cinéfila do sem abrigo).
A meio do filme a minha “amiga” segredou-me:
“ É impressão minha, ou ele está a chorar?”
Estava . Alguma cena lhe devia ter tocado numa zona sensível e exacerbado as emoções.
Quando o filme terminou fomos comer qualquer coisa a uma cervejaria da Almirante Reis, perto da “sua casa”. Falámos, obviamente, sobre o filme, mas sem fazer qualquer alusão à quebra emocional que lhe provocara. Fiquei surpreendido com a desenvoltura da sua análise. O seu discurso, apesar de arrastado, era coerente, sustentado e sem falhas, encaixando mal naquele corpo desengonçado de maltrapilho, agora vestido a preceito com um casaco de malha e uma camisa lavada, umas calças ainda impecavelmente vincadas.
Para acompanhar o bife com ovo , apenas pediu água, fazendo questão de sublinhar que nunca bebia. Apenas fumava. Muito.
Deixámo-lo na sua soleira depois de a minha amiga, naturalmente, ter rejeitado a roupa que ele insistia em devolver. De regresso a casa conversámos sobre aquela personagem.
Fiquei convencido com a teoria da minha amiga. Criámos estereótipos que nos habituaram a ver num sem abrigo, uma pessoa que apenas precisa de comida e de roupa. Quiçá, de dois dedos de conversa. Quando nos pede que lhe alimentemos o espírito, achamos uma extravagância e a tendência é recusar. Passamos ao lado daqueles corpos estendidos na rua como sombras de indiferença, ou temos pena e lançamos-lhe uma moeda, prosseguindo o caminho de consciência aliviada.
Um sem abrigo pode sê-lo apenas por opção de vida. Como era o caso deste. Mas sobre isso vos falarei noutro dia.
Foi um gesto muito bonito, muito solidário. A pergunta que faria a seguir: como se tornou um sem abrigo? Opção? Vou aguardar.
ResponderEliminarSei que deve ter conhecimento deste vídeo. Como retrata um sem abrigo é o motivo do envio deste.
ResponderEliminarÉ mais fácil ver as pessoas como rótulos. Assim esquecemo-nos de o quanto os outros podem ser iguais a nós.
ResponderEliminarCarlos querido
ResponderEliminarPratico voluntariado e lhe digo ganhamos muito mais.
A maioria não está na rua porque quer. E a sede por algo mais que as necessidades básicas são enormes.
Linda maneira de dizer que ama!
Um beijinho
Lucia
Fiquei curiosíssimo!
ResponderEliminarMeu querido Amigo.
ResponderEliminarUm sem número de razões pode levar qualquer pessoa a se tornar num sem abrigo.
Por opção, como dizes ser o caso deste senhor, devem ser casos raros.
Li, há uns anos atrás, a notícia de um ex juiz que arrumava carros e vivia na rua. Motivos familiares graves e o consequente refúgio na droga, atiraram-no para aquela situação.
Vou aguardar a continuação desta história de vida.
Beijinhos, Carlos!
Nunca me tinha passado pela cabeça que um sem abrigo poderia ter vontade de ir ao cinema. Mas cada caso será um caso, suponho!
ResponderEliminarFico a aguardar o resto da história! :)
CARLOS, existem casos assim.E,sempre questionamos a razão que leva uma pessoa a viver desse jeito.
ResponderEliminarCaro Carlos, a sua amiga colocou perante sí uma grande oportunidade que você não desperdiçõu... Aprendendo que sem abrigo também
ResponderEliminarpode ser culto, viver e sentir as mesmas emoções que os demais. Por certo você saíu enriquecido.
Grande abraço
Carlosamigo
ResponderEliminarHá sonhos por todo o lado e nós sem o sabermos. E mesmo que o soubéssemos, não os conseguíamos ver, pela cortina das lágrimas que nos correriam quando déssemos conta de que eles existiam reais, nunca virtuais.
É uma estória linda, das que não podiam acontecer, mas... podiam. Puderam. Podem.
Mas também há pesadelos; o Gaspar, o Coelho, o Portas, o Relvas, o Macedo, a Cristas e outros que tais são o exemplo dessas noites em branco. Ah, esquecia-me: o Aguiar-Branco, com hífen.
Abç
PS - Hás de dizer-me o motivo que tens contra mim: ainda não foste ver o xeque-mate a Goa, Damão e Diu em 18 de Dezembro de 1961. Falei sobre isso - e sobrevivi. As sequelas estão lá na nossa Travessa. Será que?...
Esse seu amigo me lembrou um que conheci no começo deste ano.Ele nos viu filmando e pediu para participar.Queria ser figurante ou então ter um papel sem falas.E assim fizemos:ele abria as portas do salão da Rainha de Copas,em Wonderland.
ResponderEliminarA vida dele não mudou,continua sendo feliz e morando no seu "canto", aonde paredes de tábua e papelão são decoradas com algumas notícias e propagandas de cinema. Ele não pediu e nem queria algum tipo de ajuda, queria só poder atuar uma vez na vida.E assim o fez, mesmo sem se importar em ver o filme finalizado.Simples e bonito assim!
Isso mesmo "de consciência aliviada". Ficoesperando a outra crónica pois o assunto de que vai falar deixa-me angustiada .Que levará uma pessoa a viver sem abrigo ?Não é mudar de vida etc é desistir ....
ResponderEliminarAcho perfeitamente natural que um sem abrigo queira ir ao cinema, o que já me parece mais complicado é que se seja sem abrigo por opção, enfim, talvez eu esteja a ser arrogante mas uma pessoa acabar por depender a boa vontade dos seus semelhantes só porque lhe apetece.... Fico à espera do resto resto da história para mudar de opinião.
ResponderEliminar