Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

A long, long time ago!

Foi na noite de 16 para 17 de Dezembro de 1961, que as tropas indianas invadiram Goa. Nesta data, recupero um post da série Cidades da Minha Vida, publicada ano passado. Com uma dedicatória especial aos meus amigos goeses, onde obviamente se inclui o nosso HenriquAmigo que nos alegra os dias na sua acolhedora Travessa do Ferreira e a Gi ( que conheci graças à blogosfera). É uma mulher de cinco estrelas, apaixonada por fotografia e a quem só falta um 31. Ela precisa de votos para ganhar o concurso. Eu não meto cunhas, mas sugiro-vos uma ida até aqui e, se acharem que ela merece vencer, votem nela ok?.


Posto isto, vamos até Goa?


Bairro das Fontainhas (Pangim)


Os meus sentimentos em relação a Pangim, são muito semelhantes aos de Malaca. No entanto, já lá estive meia dúzia de vezes e, cada vez que lá vou, sinto que se perdeu mais um bocadinho da cultura portuguesa. Podia aqui escrever sobre a estratégia seguida pelo governo indiano para tentar “apagar” os nossos vestígios, ou sobre a forma como nós contribuímos para isso, mas não vou por aí. Podia relatar-vos episódios em tudo semelhantes ao que vivi em Malaca, do bairro das Fontainhas , onde uns amigos brasileiros apanharam, numa noite de sábado, uma bebedeira memorável, da indisposição que lá tive na última vez que lá fui, que me impediu de sair do quarto do hotel durante um dia inteiro, das cálidas águas da praia D. Paula , da minha primeira ida a Goa, com um grupo de jornalistas para acompanhar a visita de um ex-presidente da República, da hospitalidade daquela gente maravilhosa, ou da profunda decepção da minha ex-mulher, (nascida goesa e crescida em África) quando lá chegou . Mas, sinceramente, não consigo falar de Pangim sem falar de Goa como um todo.



Velha Goa (porta de entrada)
Apesar de ser a capital, não é Pangim isoladamente que me encanta . É aquele conjunto que vai da Velha Goa a Siolim ou a Margão, passando por Bancholim, Valpoi ou Calangute. São aquelas praias maravilhosas, as casas senhoriais de famílias goesas, aquele interior verdejante ainda imaculado com cheiro a Paraíso.
Não consigo dissociar Goa dos livros de Richard Zimmler ( Goa ou o Guardião da Aurora), mas também de Forte Aguada, da Basílica do Bom Jesus, das famílias goesas que por lá ficaram, em cuja companhia passei serões maravilhosos, ouvindo contar histórias de outro tempo. E sempre que me falam de Goa, recordo um episódio picaresco passado na praia de Colva.



Praia de Colva


Daquela vez tinha ido com um grupo de finalistas do curso de Direito da Universidade de Macau. Alugámos alguns carros e partimos à descoberta da ilha. Era Abril e estava um calor tórrido. Os que iam comigo propuseram uma paragem em Colva para beber qualquer coisa. Ficámos algum tempo à conversa, a praia estava deserta e a água convidava a um banho. Tinha comido uma bela carilada de caranguejo e não arrisquei.


Fiquei na esplanada com um dos alunos, mas as duas raparigas que iam connosco decidiram mesmo experimentar a água. Ficámos os dois à conversa. Passados uns minutos, olhei para a praia e vi uma multidão de homens formando um círculo. Imaginei de imediato a cena, mas ainda não tinha tido tempo de comentar quando vejo as duas a sair da praia em grande correria. Traziam as toalhas enroladas no corpo e quando chegaram ao pé de nós, ofegantes, nem as deixei falar. Apenas disse:
Quem vos mandou estenderem-se na areia em biquini?


Claro que uma cena destas hoje em dia será improvável de ocorrer mas, naquela época, em que o turismo europeu ainda não descobrira as belezas de Goa, duas mulheres jovens ( e não por acaso belíssimas) estendidas no areal de Colva em biquini, não era um espectáculo comum para os indianos de Goa.

8 comentários:

  1. Que lindo texto! Adoro estes testemunhos. Que sortudo que o menino é: visitas a Goa... Quem me dera!

    Como sou já um bocadinho entrada na idade (que belo eufemismo, hein?!...) lembro-me perfeitamente desse dia em que Goa caiu. Lá em casa houve algum contentamento (o meu pai era do "reviralho") e eu não entendi porquê. Lembro-me que não se podia falar no nome de Nerhu, o presidente indiano, que era tido como um traidor, um malandro. Que tempos aqueles!

    ResponderEliminar
  2. Tenho na memória todo o episódio...e também reacção do ditador.

    Bons sonhos, Carlos

    ResponderEliminar
  3. Embora miúda lembro-me bem da angústia que foi a tomada de Goa porque dois rapazes da freguesia estavam lá e foram feitos prisioneiros!
    Quando regressaram houve uma enorme festa!
    Conheço bem a Travessa agora vou espreitar a Gi! :-))

    ResponderEliminar
  4. Fico a ler estas tuas memórias e dou comigo extasiada.
    Que vida emocionante tem sido a tua, Carlos!
    Quanto mundo percorreste e emoções sentiste.
    Sei que a vida nem sempre te tem sorrido, mas ao menos podes dizer que VIVESTE...
    Um beijo e tem uma boa noite, Carlos.

    ResponderEliminar
  5. Carlos querido, como conheci um pouco mais sobre você lendo esse post.
    Muito bacana.
    Beijinhos

    Lucia

    ResponderEliminar
  6. Carlosamigo

    Tenho de te agradecer já a referência que tiveste a gentileza de me fazer a propósito de Goa. A invasão - pois que de uma invasão militar se tratou, com o intuito de a libertar do colonialismo português - começou a 18 de Dezembro de 1961 e terminou no 19 seguinte. Foram cerca de 40.000 soldados, marinheiros e aviadores indianos contra 3.892 portugueses. Faz domingo exactamente meio século.

    A minha mulher Raquel é que é de Raia, Salcete e o seu primeiro antepassado a ser baptizado foi um tal Ignacio de Melo, em 1578; anteriormente chamava-se Praband Raikar, ou seja o dono da aldeia...

    Que Deus o tenha na sua eterna glória e à sua mão direita, o brâmane catolicizado, porque fui eu, um miserável pária e pacló quem deu cabo da frondosa árvore genealógica da família. Eu sou assim...

    Cheguei ao aeroporto de Dabolim pela primeira vez a 18 de Setembro de 1980 (os diversos carimbos no passaporte assim o atestam) e logo a 20 tive a maior festa de aniversário de toda a minha vida. Entre familiares e amigos eram mais de quatrocentas almas, bem medidas.

    Estive com o Eduardo Faleiro, meu colega aqui em Lisboa na Faculdade de Direito, que se pirou a tempo. Iria depois ser ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros em Nova Delhi.

    E ao longo dos anos foi um virote. Desde Gulmarg em Cashmir, nos contrafortes dos Himalaias, até Korvalam, junto ao cabo Trivandrum, desde Bombaim (Mumbai) até Calcutá, andei por quase todo o sub-continente, sem Belmiro.

    Entrevistei a Indira Gandhi e o Rajiv Gandhi, quando eram primeiros-ministros, obviamente antes de serem... assassinados. Não usei, portantos (sem s) a tradicional mesa de pé-de-galo.

    Gosto da Índia e amo, adoro, Goa. Eles, os goeses, dizem que eu sou mais... goês do que eles. E são capazes de terem razão.

    Em 19 de Janeiro, vou (vamos) até àquelas bandas; mas, infelizmente, volto(amos) logo em 17 de Abril. É pouco, muito pouco. Mas, livro-me de ouvir e ver o Passos da crise e os seus capangas. Pelo menos até à volta.

    Vivi esses dias tormentosos, pois a minha recém-namorada tinha a família lá e a miserável e criminosa e fdp da gajada salazarenta afirmou que tinham morrido os militares e muitos civis. Mais uma mentira do Botas.

    Só quatro dias depois, o comandante Solano de Almeida, dos TAIP, (que levantara voo por entre as crateras das bombas na pista do aeroporto)aliviou a Raquel e a mim também: estava tudo de boa saúde...

    Enfim, malhas que o Império teceu...

    Desculpa o comprimento desmesurado deste comentário. Mas foste tu, Amigo, quem começou... Obrigado

    Abç

    ResponderEliminar
  7. ADENDA

    Não tenho vergonha nenhuma, a pdi é uma chatice.

    Só para dizer que estive na City of Joy com o Dominique Lapierre, meu Amigo. É... a cidade da alegria... dos leprosos, um distrito de Calcutá. Prometo que um dia contarei... Sem mesa de pé-de-galo, abrenuncio, te esconjuro, Satanás!!!...

    + um obrigado e + um abç

    ResponderEliminar
  8. Oh, meu querido Hamburguerzito ... nham nham (lol), eu sem tempo para a blogosfera; prometi-te que ia fazer os possíveis para regressar em 2012. :)
    Não sei se tive muitos votos vindos daqui (já que é preciso as pessoas terem Facebook), mas, desde ontem, que o meu 4º lugar, tão fofinho, está ameaçado;bem preciso de ajuda. :)


    Quanto a Goa ... ainda vou ter de retomar os posts do meus saudoso pai. :P

    Obrigada a todos e a ti, especialmente.

    ResponderEliminar