Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Conta-me como foi...

“Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutras paragens
noutras aragens
entre outros povos
ei-los que partem
velhos e novos…”
(Manuel Freire)



Hoje, a Isabel não chegou com aquela jovialidade habitual de que comungo todas as manhãs enquanto como o pãozinho fresco que ela compra numa padaria a caminho de minha casa.

Não trazia na ponta da língua uma história divertida para me alegrar as manhãs, nem uma daquelas perguntas ingénuas e indignadas, que a assaltaram na véspera , ao ouvir a notícia de mais um assalto a uma ourivesaria ou uma gasolineira.

Não fez o relato de uma cena quotidiana de bebedeiras, violência ou rixa doméstica, ocorrida no bairro dos subúrbios onde vive.
Não lamentou o aumento do preço do passe, ou o despedimento do marido.

Não contou, enlevada, mais uma cena prodigiosa do neto recém entrado na escola “ que a professora diz ser muito inteligente”.

Não falou da Miquelina, uma porca que o marido trata com o mesmo desvelo dos cães de caça e a quem comprou um “rádio a pilhas” para que ela pudesse ouvir a música clássica da Antena 2 . (Diz ele que leu no jornal do tasco onde gasta pedaços de dias vazios, na companhia de outros desempregados , entre jogos de sueca e umas “mines” , que a música clássica torna melhor a carne dos suínos).

Hoje, a Isabel vinha triste. Como nunca a vira em mais de uma década de convívio tri-semanal. Nem quando, compungida, me anunciou há meia dúzia de anos que a filha de 18 engravidara, perdida de amores por “um rapazola sem eira nem beira”. Nem mesmo quando há coisa de dois anos me anunciou o divórcio há muito anunciado da filha e adiantou que a consequência imediata seria ter em casa mais duas bocas para alimentar, a vira tão triste. Pelo contrário, lembro-me bem do orgulho estampado no olhar quando, depois de me dar a notícia, acrescentou:
“ Foi ela que o pôs na rua!”


Hoje, a Isabel que sempre me habituei a ver com um sorriso, apesar da vida difícil,vinha sem palavras. Depositou o pão no tabuleiro ,deixou que fosse eu a barrá-lo com manteiga e ficou à espera que fosse eu a iniciar o nosso diálogo matinal.
A mãe da Isabel está há uns tempos internada no hospital de Braga. Muito doente e com poucas esperanças de recuperação. Perguntei-lhe por ela.
“ Lá está, à espera da morte…” Depois, fixou-me nos olhos e acrescentou:
“O meu filho é que …”
“ Que lhe aconteceu, Isabel?”

“ Vai para a Suíça . O meu irmão arranjou-lhe lá um emprego e parte já amanhã”.

Rebentou num choro compulsivo que me deixou sem jeito. Lembrei-me da conversa recorrente que Isabel trazia desde Agosto “ só digo aos meus filhos para emigrar. Aqui não têm futuro”. Agarrei-me a esta frase e tentei acalmá-la:

“Então não era isso que desejava, Isabel? Não me disse tantas vezes que essa era a melhor solução para os seus filhos?”
Pegou no lenço. Enxugou as lágrimas, ganhou fôlego e respondeu:
“ Pois era, pois era… mas não imagina o que uma mãe sofre quando vê partir um filho! Nunca pensei que custasse tanto…”
Recuei 40 anos. Ainda hoje não consigo imaginar a dor da minha mãe quando me viu partir, de surpresa, pela primeira vez.

Despedi-me da Isabel, desejando que o filho tivesse a sorte que eu tive e lembrando-lhe que se eu não tivesse decidido partir, seria certamente uma pessoa muito diferente. E muito pior…

Saí de casa constrangido com a dor da Isabel, que já considero como pessoa da família. Pelo caminho fui recordando as conversas que ainda há um ano tinha com ela a propósito do filho e da esperança que depositava no seu futuro, depois de o ver entrar para a Universidade.

Estudos interrompidos, porque os pais já não tinham dinheiro para pagar as propinas e viu recusada a bolsa de estudo, vai trabalhar com o tio na construção civil. Depois , logo se vê...

Enquanto atravessava o Campo Grande, na caminhada matinal que precede o início do dia de trabalho, vieram-me à memória imagens da série “Conta-me como foi…” Já desaparecida dos ecrãs da RTP 1, porque com este governo deixou de ser ficção histórica, para passar a ser a história real do país em que vivemos. Está actualmente em exibição na RTP Memória. Para que a nossa memória de um país tristemente empobrecido, de xaile e avental, não se perca.

14 comentários:

  1. Estou de lágrimas nos olhos!
    Já vi partir um filho para sempre, não quero que o outro parta...

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  2. Um país de xaile e a cheirar a retrosaria...

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  3. É mesmo triste ver um filho ter de mudar de país para conquistar uma vida melhor.Isso aconteceu muito por aqui em anos anteriores.Ontem mesmo eu dizia para meu filho que o futuro hoje está aqui.E eu torço muito para que Portugal consiga empregar seus filhos.

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  4. Carlos querido,entendo a dor de Isabel.
    Meu menino saiu aos 16 anos. Mas mudou-se de estado.
    Hoje já está por aqui.
    Mas a sindrome do ninho vazio é realidade.
    Que o "menino" da Isabel tenha uma linda caminhada e que haja esperança e muita luz no futuro de Portugal

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  5. Adorava a série, que a meu ver retratava essa Lisboa de outras eras, em que eu tinha apenas a idade do Carlitos e não percebia bem o que se passava à minha volta...

    Mas também não quero que o meu filho parta para terras distantes, por aqui não ter oportunidade de emprego e de uma vida digna.

    Comovi-me imenso com a dor de Isabel, que neste momento será a de muitas mães (e pais) portugueses!

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Carlos,

    Algumas das minhas respostas davam um post, lá vamos... Tb eu fugi, era filha única e queria libertar-me da pressão dos meus pais, que nesse tempo era muita, fiz pela vida e ESTUDEI no estrangeiro, vim bem preparada, foi fácil arranjar trabalho, ainda hoje vivo desses louros.

    Sei do que está a falar, os amigos contavam-me que os meus pais perderam a fala...

    À minha filha única que vive a 45 km e quase não a vejo, quando está está de partida, vivo numa permanente saudade, não, não é desamor, são as nossas profissões que nos obrigam a isso, mais que as profissões quero acreditar que é esta vida violenta em que estamos envolvidos, é a lei da sobrevivência.

    Chegou ontem à noite, a minha vontade seria ir ao aeroporto, mas uma mãe não pode ir buscar uma filha adulta ao trabalho como se ela ainda estivesse na escola primária... assim, hoje dei-lhe um ultimato "menina, amanhã almoçamos, resposta ok mami, mas será sempre tarde, de manhã trabalho".

    Assim vou vivendo de momentos, de saudade, de emoções, sei que o que nos liga é o amor que temos a Portugal, e se ela quiser ir de vez, sei que uma parte de mim morrerá... já estou com lágrimas nos olhos, por mim e pela Isabel, assim é melhor fechar isto e desejar-lhe um bom fim de semana.

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  8. Onde está a madrugada redentora de abril, Carlos? Onde está a alvorada de democracia e liberdade do dia dos cravos? Onde a puseram estes predadores apátridas e vendidos? Onde? Dói saber que um jovem teve de desistir dos seus estudos por não ter dinheiro para os pagar. Dói muito porque não foi para isto que se fez abril! Se calhar, o que ele faz de melhor é mesmo emigrar; se calhar é a luz ao fundo do túnel em que ele viu transformado o seu destino. Mas a dor de uma mãe que vê partir um filho para longe, não se acalma com estes raciocínios lógicos. A mãe é a "galinha" que só se sente feliz e tranquila com os seus "pintainhos" debaixo da asa, protegidos de tudo o que de mau acontece no mundo, mesmo que essa proteção seja muito escassa, perante os abutres que rondam a capoeira!Pobre mãe! Pobre de nós todos que assim somos acordados de um sonho bom, pelos vampiros que dele se aproveitaram quanto puderam.

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  9. Carlos
    Podia chamar a seu este post, um retrato actual da nossa sociedade, mas temo que diariamente este retrato se altere e para pior.
    Gostei de ver parte do poema de Manuel Freire, que o próprio canta.
    Conheço de cor este poema. Nunca pensei que um dia o voltaríamos a escrever, declamar e cantar com uma lágrima no olho.

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  10. CARLOS, parece que a história se repete. Viemos para o Brasil,tem muitas décadas, porque havia escassez de trabalho.Eu não entendo de política, mas ouvia dizer que a culpa era do Salazar. E,agora, de quem é?

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  11. Meu amigo:
    Resumidamente:
    Sou também actriz deste drama!
    A minha filha é Bióloga, vem na segunda feira de uma estadia de 4 meses no Brasil e pensa para lá voltar brevemente.
    O meu filho Economista, está a tratar do necessário para emigrar para a Austrália.
    Nem sei mais o que dizer o que fazer...

    beijinhos comovidos

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  12. Sou um jovem, que estou a poucos dias, de dar o mesmo desgosto aos meus pais... custa-me muito ter de partir, apesar de ser uma decisão tomada há muito tempo, apenas não concretizada antes, porque sempre faltava algo, mas agora que o dia se aproxima mais difícil é saber que vou deixar os meus país, deixar o meu irmão (provavelmente o que mais me custa) e de certa forma apesar de tudo, deixar o meu país, onde nasci e cresci, para partir para muito muito longe, provavelmente para não mais voltar a não ser de visita, mas a verdade é que já desisti do meu país... por muito feio e triste que possa parecer a verdade é esta, e a única coisa que desejo é procurar uma vida nova, longe daqui, lamentando o que se perde, mas lutando por uma vida mais feliz... e sei que muitos há que pensam como eu e entenderão o que quero dizer...
    cumprimentos

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  13. Gostaria de tranquilizar a Isabel com um "seu filho irá encontrar uma vida melhor", Eles partem de casa dos pais sempre com essa esperança, não é? A vida dá muitas voltas. Agora com o advento das tecnologias podemos estar afastados fisicamente mas as saudades podem ser atenuadas.

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