Talvez não seja despiciendo começar a olhar o mundo com mais atenção através do retrovisor, para vermos melhor o futuro que nos espera. Ora vejam lá...
Na quinta-feira negra de Outubro de 1929, a fachada de papel bolsista, que alimentava o sonho de riqueza americano, ruíra como um baralho de cartas, zombando das profecias feitas meses antes pelo Presidente Hoover que, orgulhoso, anunciava ao povo americano estar próximo o triunfo sobre a pobreza.O que aconteceu nos dias seguintes, com quedas sucessivas no mercado bolsista, foi o desespero, a miséria, o desemprego e o caos económico. A descoberta em 1930 de Plutão (que na mitologia grega simbolizava o deus do inferno) parecia premonitória de algumas desgraças e horrores. A crise americana reflectir-se-ia na Europa e daria pretexto à instalação de regimes totalitários. Hitler, Franco e Salazar chegariam aos mais altos cargos políticos. Apesar da Grande Depressão, a América dava sinais de poder sair rapidamente da crise e, em 1931, era inaugurado com pompa e circunstância o Empire State Building, um majestoso edifício destinado a escritórios, com 102 andares. Porém, o fausto do edifício não se coadunava com a crise que se vivia e os escritórios ficaram às moscas, o que levou os americanos a apelidá-lo de Empty (Vazio) State Building.
No ano em que Roosevelt chega ao poder (1933) e a Grande Depressão se instala inexoravelmente na Europa, uma canção faz furor. "Brother can you spare a dime?" ( Irmão, dispensas-me uma moeda?) retrata por palavras o cenário que se vive na Europa: actividade económica parada, desemprego, fome, miséria.
Roosevelt lança o New Deal- um programa de emergência que visa o renascimento da América. Os trabalhadores organizam-se em sindicatos, aparece a primeira legislação laboral, são fixados por lei os salários mínimos e o horário de trabalho, são atribuídos subsídios de desemprego e pensões de reforma e invalidez. A política social estava em marcha, mas o estado social só surgirá depois de uma guerra violenta.
No ano que se segue (1934) tem início "A Grande Marcha" comandada por Mao Tse Tung , que irá conduzir anos mais tarde à vitória dos comunistas chineses. Cansados da Depressão, animados com o New Deal, os americanos jogam ao Monopólio, numa tentativa de reaprender o caminho do sucesso capitalista.
Em Portugal, o ano começa com uma greve geral que pretende derrubar Salazar, mas acaba em efeito “boomerang”, com a destruição do já frágil movimento sindical, que vem a ser consumada em Julho, na “Noite das Facas Longas”.
Em 1938 é assinado o acordo de Paz de Munique, pretexto para Hitler anexar parte da Checoslováquia e quando acaba a Guerra Civil em Espanha, vai iniciar-se uma à escala mundial.
Oitenta anos depois, a Europa mergulhada numa profunda crise económica e financeira, mas também de valores, estende a mão à China, a Sérvia acabada de sair de uma guerra fratricida nos Balcãs, que quase incendiou a Europa, está prestes a ser admitida no seio da União Europeia, o estado social laboriosamente construído está à beira do extertor. Em Portugal o ministro da educação admite que as tecnologias de informação são mais apreciadas pelo poder como forma de controlar os cidadãos, do que para promover a sua educação.Em Cannes, não se assiste à estreia de “E tudo o Vento Levou”, como em 1939, mas há uma reunião entre os mais poderosos do mundo para tentarem reeditar o New Deal. Talvez seja um flop de bilheteira...
França e Alemanha jogam ao Monopólio, ditando as regras e tentando dividir entre si o tabuleiro, mas na Grécia levanta-se uma voz a dizer “o rei vai nu”, porque enquanto bancos e multinacionais acumulam milhões, uma multidão de desempregados e famintos protesta nas ruas. Não cantam “ Brother, can you spare a dime”, mas gritam “Arranja-me um emprego”, frase que também já foi título de canção de Sérgio Godinho nos idos de 70. À falta de empregos, os governos oferecem em alternativa o “Voluntariado”
França e Alemanha jogam ao Monopólio, ditando as regras e tentando dividir entre si o tabuleiro, mas na Grécia levanta-se uma voz a dizer “o rei vai nu”, porque enquanto bancos e multinacionais acumulam milhões, uma multidão de desempregados e famintos protesta nas ruas. Não cantam “ Brother, can you spare a dime”, mas gritam “Arranja-me um emprego”, frase que também já foi título de canção de Sérgio Godinho nos idos de 70. À falta de empregos, os governos oferecem em alternativa o “Voluntariado”
"Ajudem-se uns aos outros, porque nós já não temos mão no incêndio que provocámos", clama a direita instalada no poder em quase toda a Europa e se passeia pelos corredores de Estrasburgo e Bruxelas de extintor na mão, ignorando que o incêndio não está circunscrito à sala dos fundos, onde se acomodam os PIGS. Já vai no quinto andar, é altura de chamar os bombeiros para proceder ao rescaldo e tentar ainda salvar algumas jóias de família.
A China - que entrou no jogo quase em silêncio- comprou discretamente em África , na Ásia, na América Latina e na própria Europa, posições estratégicas que lhe permitirão, a breve prazo, dominar os principais recursos do planeta e vencer o jogo facilmente.
Enaltece-se a chegada de uma Primavera árabe, mas as alterações climáticas distorceram as estações. Por aquelas bandas já começam a cair as folhas prenunciando o Outono e o jasmim deixou de florir. Na Líbia, enquanto a ONU se prepara para atribuir a Kadhaffi um prémio de Direitos Humanos, a NATO apoia os rebeldes no derrube do ditador.
A China - que entrou no jogo quase em silêncio- comprou discretamente em África , na Ásia, na América Latina e na própria Europa, posições estratégicas que lhe permitirão, a breve prazo, dominar os principais recursos do planeta e vencer o jogo facilmente.
Enaltece-se a chegada de uma Primavera árabe, mas as alterações climáticas distorceram as estações. Por aquelas bandas já começam a cair as folhas prenunciando o Outono e o jasmim deixou de florir. Na Líbia, enquanto a ONU se prepara para atribuir a Kadhaffi um prémio de Direitos Humanos, a NATO apoia os rebeldes no derrube do ditador.
O grego que levantou a voz para dizer que o rei vai nu paga caro a ousadia. Quarenta e oito horas depois, está na iminência de resignar ao cargo, entregando o governo de mais um país europeu à direita. Um golpe militar pode estar iminente, perante a indiferença da Europa democrata.
Dentro de dias, será a vez de a Espanha transferir o testemunho.
O contaquilómetros do mundo marca 666. Quem virá mudar-lhe a bateria?
O contaquilómetros do mundo marca 666. Quem virá mudar-lhe a bateria?
Faço votos para que, para bem de todos, o post não seja premonitório!
ResponderEliminarExcelente lição de história!
ResponderEliminarSerá que a história não se repete mesmo?
Os acontecimentos recentes são assustadores e, avaliando o que se já passou, não me parece que tenhamos à nossa espera um futuro risonho. E nem sequer estou a falar da situação económica. Acho que as declarações do Sarkozy, ontem, foram absurdas e uma ameaça a quem ousar pôr em causa a pirâmide que ele e a Merkel têm vindo a construir. Veremos se as fundações da ganância são assim tão fortes.
ResponderEliminarO número 666 , é o número da besta , isto numa linguagem cabalística. Não sendo eu letrada no assunto , mais não digo. M.A.A.
ResponderEliminarTens razão, Carlos - é mesmo muito assustador o momento que vivemos!
ResponderEliminarEu jamais acreditei nesse disparate da História não se repetir!
ResponderEliminarE quanto à China, lembro-me de um livro que não cheguei a ler ( como o tinha em casa não o priorizei e, depois, no divórcio a criatura apoderou-se dele) e que era uma alerta para aquilo que se está passando quanto a esse país.
Esperemos, esperemos mesmo que não tenhamos que olhar pelo retrovisor e que ainda reste alguma esperança.
Tudo de bom, Carlos
Carlos
ResponderEliminarEu não sou superticiosa, mas quanta coisa aconteceu?
Vou até salvar pra mostrar pros meus sobrinhos estudantes de segundo grau e esperar pra ver o que vai acontecer!
Dia 6 é meu aniversario e estou no Rio
com amizade e carinho de Monica
Man Drag
ResponderEliminarNão sei, não...
Monica
ResponderEliminarEntão no domingo lá estarei para lhe dar um beijinho :-)
Só espero que esteja enganado!
ResponderEliminarUm grande artigo de opinião com intercalação histórica cuja premonição espero não se realize mas que, infelizmente, é uma visão que compartilho. Também infelizmente, a chamada esquerda democrática (leia-se socialista, trabalhista, social-democrata) desapareceu, tendo-se blairizado (terceira-via???) dando as duas mãos à direita neo-liberal por toda a Europa, fortalecendo as suas fileiras se não em militãncia, pelo menos em apoio. Portugal é um exemplo acabado desta promiscuidade pseudo-ideológica, onde hoje não há oposição que não seja a comunista ou a revolucionária, vivendo este país já perto do obscurantismo salazarento, com os shares televisivos virados para casas de putas, desculpem casas de segredos e ninguém a ligar nenhuma ao que a nova política proto-nazi nos anda a cometer. Enfim...
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