terça-feira, 4 de outubro de 2011

CR sub-30: Tão diferentes...tão iguais...

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A viagem está quase a terminar para o observador que acompanhou o percurso destes quatro passageiros numa carruagem de Metro. Provavelmente, nem os jovens nem os seniores perceberam que estão mais próximos do que em qualquer outra época da Humanidade. A sociedade da hiperescolha aproximou-os, ensinou-os a serem bons consumidores, incitou-os a exigir a satisfação das necessidades de consumo com celeridade, convidou-os a serem mais intervenientes, padronizou- lhes os gostos , mas exaltou a sua individualidade. Se a “outra” sociedade tivesse cumprido o seu papel, também os teria ensinado a serem melhores cidadãos, mas algo falhou e, por isso, enquanto todos exigem o direito individual ao consumo que lhes proporcione a felicidade suprema, esquecem com frequência a responsabilidade colectiva no exercício de uma melhor cidadania. Ora esse aspecto é fundamental para perceber que os padrões de vida proporcionados pela sociedade da hiperescolha só poderão ser mantidos se houver uma consciência cidadã.
Seria bom que todos nos interrogássemos sobre isto: se a sociedade da hiperescolha que promoveu o culto do “EU” nos proporciona tanta felicidade, por que razão é uma sociedade que nos impõe tantos medos, tornando o mercado da segurança, uma actividade próspera?


Não se trata apenas de tentar perceber porque há seguros para tudo. De saúde, de vida, de acidentes de trabalho ou domésticos, de incêndio, multi-riscos ou de prevenção de catátrofes. Trata-se também da segurança nos lares, nas estradas, nos transportes ,nos aeroportos, ou nas ruas das cidades, que fez florescer uma panóplia de equipamentos destinados à vigilância ou a garantir a nossa segurança, como os cintos, os airbags ou as câmaras de videovigilância. A segurança dos brinquedos, dos parques infantis, dos espaços de recreio, dos medicamentos, dos alimentos, incutem-nos a ideia de vivermos rodeados de perigos, onde não faltam as ameaças de epidemias que põem em risco a vida dos seres humanos e dos animais.

Nas duas últimas décadas convivemos com o medo das vacas loucas, da brucelose, da gripe das aves, do mercúrio nos peixes, das intoxicações alimentares, dos OGM, da poluição, do aquecimento global, dos resíduos, dos aterros, mas ainda não foram descobertos antídotos para combater as desigualdades, o desemprego ou a pobreza.

Sabemos, por outro lado, que o aquecimento global resulta em grande parte dos padrões de consumo que visam tornar-nos felizes, mas reagimos com desconfiança às energias alternativas, oferecemos resistência quando nos pedem parcimónia no consumo, encolhemos os ombros quando nos alertam para a delapidação dos recursos naturais e resignamo-nos, enfadados, quando nos falam de reciclagem ou separação dos lixos domésticos.

Vivemos, jovens e seniores, na contradição de querermos tudo e o seu contrário. Somos contra as deslocalizações, mas queremos preços mais baixos e melhores salários. Olhamos revoltados contra a exploração do trabalho infantil e contra o trabalho escravo, mas desdenhamos o comércio justo. Fazemos como o fariseu e quando as desgraças acontecem no Haiti, no Paquistão, em Moçambique ou em Timor, expiamos as nossas culpas com donativos para as vítimas. Solidarizamo-nos com as vítimas de todas as guerras, da SIDA , ou do Darfur, mas fechamo-nos em casa diante de um ecrã de televisão ou do computador, enquanto mastigamos junkfood, nos tornamos mais obesos e recusamos enfrentar a realidade, porque isso é tarefa para os políticos que consideramos sempre incompetentes e incapazes de resolver os nossos problemas de saúde, habitação ou emprego.

Na sociedade do “Eu, Ldª”, jovens e seniores vivem obcecados pela fruição do prazer e pelo bem estar, mas um dia, ao acordar, vão ter presente aquela frase de Woody Allen: “Deus morreu, Freud também e eu não me sinto muito bem…”
Afinal, somos todos iguais na morte, só nos falta sermos iguais durante a vida. O que distingue jovens e seniores são os objectos e os serviços a forma de os fruir. E é sobre isso que se falará no CR sub-30.


Aviso: A viagem de Metro termina aqui. Os posts são uma parte de um artigo que escrevi para a revista "Dirigir". Utilizei-os para enquadrar o CR sub-30, cuja publicação iniciarei na próxima quinta-feira. Creio que assim perceberão melhor os objectivios desta rubrica.

4 comentários:

  1. Sou um Biólogo e Professor Brasileiro. Percorro páginas diversas para divulgar o Ver de Vida, dedicado à causa ambiental.

    Felicidade nesta sua bela jornada.

    Cláudio J. Gontijo

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  2. Seria necessária apenas uma pequena parte da lucidez presente no seu texto para que tudo corresse de forma menos catastrófica!

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  3. Muito interessante a viagem de metro, aguardo o resto...

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  4. A frase de Woody Allen é lapidar!

    Mas o que é certo é que hoje nem conseguimos perceber como sobrevivemos à infância, com tantos "perigos" que nos rodeavam, sem que nós ou os nossos pais suspeitassem da sua existência. Mesmo assim, para muitos de nós que brincávamos na rua, esfolávamos os joelhos quando trepávamos às árvores ou caíamos da bicicleta, não deixou de ser uma infância feliz... :)

    Enfim, bem sei que o texto é generalista, mas eu uso os ecopontos - não só por nós, mas também pelas gerações vindouras! Quer dizer, suponho que não serei a única (até a avaliar o como por vezes estão cheios) e o panorama não será assim tão negro, embora entenda onde quer chegar! ;)

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