sexta-feira, 14 de outubro de 2011

CR sub-30 : Da obsolescência e do amor

Pôs a mesa com desvelo, no intuito de a impressionar. A velha toalha bordada pela mãe, cheirando a novo, os candelabros que herdara do avô, os talheres art deco, o serviço de Cantão , contrafacção virtuosa, comprado há anos em Hong-Kong, os copos de cristal por quem a ex-mulher se embeiçara numa visita à Feira da Ladra.

Fixou o olhar nos copos para se certificar que Amélia, a empregada que lhe permanecia fiel há mais de uma década, seguira as suas instruções, deixando-os imaculados de qualquer impressão digital. Nas superfícies curvilíneas só viu recordações espelhadas.

Suspirou ao ritmo da campainha que acabara de tocar. Correu a acender as velas encarnadas, compradas à pressa naquela tarde na loja dos chineses lá do bairro. Afivelou um sorriso forçado, procurando apagar os vestígios das recordações.

Era a primeira vez que recebia Isabel em sua casa. A jovem entrou, depositou-lhe um beijo leve nos lábios e reteve-se um momento a olhar a cómoda da entrada, onde repousavam envelopes com facturas por pagar.
Sentaram-se no sofá da sala para um aperitivo. Ela desvirginou uma garrafa de Porto de 1979, que ele guardava para uma ocasião especial, ele optou por um whiskey com 35 anos, cuja data de nascimento lhe era desconhecida. Pediu um momento para ver o assado. Quando voltou à sala, Isabel estava a observar o bordado da toalha.
“ Que maravilha! Quem fez isto?”
“ A minha mãe”

“Já ninguém borda assim hoje. Já não há tempo para fazer estas coisas. A minha mãe tem algumas toalhas bordadas pela minha avó, mas nada que se compare com esta maravilha. Parabéns à tua mãe…”

O jantar decorreu com conversa mole. Isabel desdobrou-se em rasgados elogios ao assado e à couve –flor gratinada que lhe servia de acompanhamento. Ele parecia por vezes ausente, mas apenas se perdia nos olhos azuis de Isabel que lhe lembravam as águas do Atlântico junto à Quinta da Marinha e o deixavam enfeitiçado.
Na altura de preparar o café, ela insistiu em acompanhá-lo à cozinha.

“ Não me digas que foi nesta velharia que assaste aquele pitéu!?”- espantou-se Isabel apontando para um forno eléctrico que repousava na banca da cozinha.
“ Claro que foi, qual é o espanto?”

“Mas esse forno parece do tempo da II Guerra, Frederico. Com fornos tão giros e modernos, como é que guardas uma coisa dessas? Qualquer dia é uma relíquia…”

“ Pois… é velho mas funciona. Nunca avariou! É como esta máquina de café. Não tenho máquina de café Expresso, nem comprimidos de café à George Clooney para impressionar as mulheres. Aqui só café à moda antiga. Espero que gostes…”
Isabel gostou. Pediu mais um para acompanhar a tarte de frutos silvestres que Amélia confeccionara com desvelo.
“ A tua empregada também trabalha com aquele forno, Frederico?”
“ Claro… achas que ia comprar um forno só para ela?”
“Coitada da senhora, qualquer dia despede-se…”

Frederico sentiu-se picado e aproveitou a deixa para fazer uma longa dissertação sobre a obsolescência dos produtos.

“ Sabes uma coisa, Isabel. A obsolescência dos produtos é, na maioria das vezes, programada pelos fabricantes, para nos obrigarem a comprar coisas novas e rejeitar as velhas, mesmo que ainda estejam em bom estado de funcionamento. Hoje em dia tudo funciona de modo a deteriorar-se rapidamente. Antigamente tínhamos as peças de substituição, os electrodomésticos eram reparados. Hoje, isso é uma raridade. Ou a reparação é impossível, ou fica de tal maneira cara, que os consumidores optam por comprar um novo. Hoje, a sociedade de consumo funciona num ciclo vicioso : Comprar, Deitar Fora, Comprar Novo. O consumo é o grande motor da economia e não pode gripar. Por isso, hoje em dia, já não se fabricam bens de longa duração. Pelo contrário, é preciso garantir que tenham menos durabilidade, para que sejam trocados mais vezes, de modo a escoar a produção. Queres um exemplo? Nos anos 20 do século passado, os grandes fabricantes de lâmpadas decidiram encurtar o prazo de vida das lâmpadas, passando de 2500 horas, para mil! Mas, o pior, é que a tecnologia permite produzir lâmpadas com duração superior a cem mil horas, mas ninguém as fabrica. Sabes porquê?”

“ Parece-me lógico, Frederico…se fossem feitas para durar esse tempo todo vendiam-se muito menos lâmpadas, algumas fábricas tinham de fechar e aumentava o desemprego…”

“ Isso é verdade, mas agora vê o outro lado da questão. Como os produtos duram menos tempo, consomem-se muito mais recursos naturais e há muito mais lixo. Principalmente lixo electrónico, que é prejudicial ao ambiente. Estás a ver as consequências do consumismo? Se queremos proteger o ambiente, precisamos de criar um modelo social mais sustentável , onde a obsolescência não funcione como motor da economia”
“Ora, ora… se todos pensassem como tu, não havia progresso…”
“ Gostas dos Pink Floyd, Isabel?”
“Adoro. Tenho lá em casa vários CD deles”
“ Então vais ouvir uma relíquia que aqui tenho...”

Frederico levantou-se e abriu a porta de uma cómoda onde se acomodavam centenas de discos em vinil.
“Tu tens discos em vinil? Mas isso já não é música, de certeza, é zumbideira…”
“Estás enganada. Ouve só o Another Brick in the Wall…”
Isabel espantou-se com o som magnífico que brotava da aparelhagem

“Pois é, Isabel. As pessoas aderiram em massa ao CD, mas só agora começaram a perceber que o som dos discos de vinil é muito superior. O segredo é ter uma boa aparelhagem e tratar os discos com muito cuidado, para conservar a qualidade do som. Por isso, muita gente está a voltar aos discos de vinil. É que às vezes, Isabel, o progresso e as novas tecnologias não significam qualidade. Nós é que nos tornamos cada vez menos exigentes e, assim que surge uma novidade, corremos entusiasmados atrás dela, sem cuidar de saber se não vamos ficar a perder quando trocamos um produto velho por um novo. Muitas vezes, as marcas lançam produtos novos só porque detectaram que estavam a durar tempo demais. Anunciam uma pequena inovação e os consumidores vão a correr, comprar um produto de pior qualidade do que o anterior
“ Bem, está na hora de ir andando”- disse Isabel dissimulando um bocejo.
Frederico acompanhou-a até ao carro. Antes de arrancar, Isabel perguntou:

“ Como é que se chama isso de provocar a diminuição de vida das coisas, Frederico?”
“ Obsolescência!”
“ Está, não vou esquecer. Obrigado pelo jantar!”

Frederico voltou para casa a pensar na conversa. Ao meter a chave à porta, teve um pressentimento. Tinha entrado em obsolescência no coração de Isabel.

( Crónica escrita para a revista "Tempo Livre")

12 comentários:

  1. Tempo livre (revista da Inatel) já tinha dado pela sua colaboração nela...
    Não tinha lido este conto ... acho-o muito bem "aplicado" na actualidade, (para além de muito bem escrito, o que é vulgaríssimo encontrar neste cantinho), os "menos" jovens apercebem-se muito pouco da obsolescência das coisas e dos afectos, tão generalizada nas sociedades de consumo...
    Será por causa dela que os idosos são tantas vezes postos de lado?

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  2. Carlos amigo querido

    Fantástico o texto!
    Parabéns.
    Sou suspeita pois como escrevi há alguns dias no blog também mantenho funcionando itens obsoletos.
    Engraçado que pelo menos por aqui, até os relacionamentos as pessoas mais velhas estão tendo dificuldades de encontrar seus pares.
    Todos querem os mais novos.
    Beijinhos obsoletos!

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  3. PERFEITO!
    A Isabel é duma geração que não compreende o verdadeiro significado de Obsolescência! :)
    O Frederico tem que mudar de companheira :)

    beijinhos

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  4. Só recentemente descobri a relação do autor deste blog e de alguns contos da revista do INATEL.
    Sobre o Frederico , que sorte que ele teve em " cair mal " à Isabel... Não perdeu grande coisa.
    M.A.A.

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  5. demasiado tempo perdido com a Isabel. Só compensado pela beleza do texto. Tenho aqui o meu "The Wall", original. E o respectivo gira discos.

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  6. O improvável existe

    Sempre um prazer
    viajar pelo seu espaço

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  7. É o que merecem os homens de certa idade que se embeiçam por garotas cuja idade dá para serem suas filhas, rrssss

    Quanto ao texto, está bem escrito. Com sempre, aliás!

    Um abraço

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  8. Como a canção " o anel de rubi" do Rui Veloso. "não se ama alguém que não ouve a mesma canção".
    Beijo

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  9. Ah...mas esse Frederico não existe(rs)...começa pelo capricho, passa pelo long play e termina no discurso, mesmo sabendo que sua interlocutora não está realmente interessada em tentar compreendê-lo. Adorei!!!

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  10. Carlos,
    se este texto fosse uma peça de teatro eu estaria de pé a aplaudir.
    Bravo...
    Há coisas que jamais serão obsoletas. Estarão sempre actuais e em perfeitas condições de uso.

    A começar pelo carinho que temos e com que tratamos as nossas "relíquias.
    Parabéns!
    Um beijo

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