Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Blowing in the wind

Ali estou, parado, cigarrilha bailando entre os dedos, um livro de contos de Tchekov esquecido sobre a mesa, pensamentos voando à rédea solta nas asas do vento.

As nuvens correm aceleradas, como querendo fugir do sobrevoo de um país que já foi rico, orgulhoso da sua História, dos seus heróis, navegadores, cientistas e escritores, mas começou a delapidar séculos de história às mãos de um jovem inconsciente, supostamente apreciador de mancebos, que pretendeu mostrar a sua virilidade combatendo mouros em Alcácer- Quibir.

Enviada por Neptuno, uma folha de jornal dá-me conta de outra derrota: a da dignidade de um país, perdida entre os corredores de Bruxelas e os escritórios de Wall Street.Estico o pé, amordaço a folha na sola do sapato e leio “ Portugal pode chegar a uma crise no sistema democrático”.O aviso é da Associação Sindical de Juízes. Não aqueles que consideram legais os cortes de vencimentos, a subtracção dos subsídios de Natal e de férias, o aumento de meia hora de trabalho, mas sim dos que não conseguem meter na cadeia um político corrupto, ou um banqueiro desonesto,porque demoram décadas a decidir um processo, impotentes para ultrapassar as manobras dilatórias. Daqueles que são lestos a condenar os pobres que não têm dinheiro para pagar a advogados que façam enrolar o processo em recursos e outras artimanhas processuais.

Ao lado, outra notícia anuncia que um ministro renunciou ao subsídio a que legalmente tinha direito, mas a que devia ter renunciado por princípios éticos e morais, tendo em conta a situação do país e não porque a opinião pública o condenou no tribunal da civilidade.

Olhos cravados no chão, pergunto se valeu a pena ter pautado a minha vida por princípios éticos na minha relação com o Estado.

Se valeu a pena ter sempre pago os meus impostos pontualmente, mesmo quando vivia no estrangeiro e sabia que nunca seria reembolsado das verbas que estava a descontar.

Pergunto-me se valeu a pena ter sempre reclamado facturas, para evitar que comerciantes e prestadores de serviços fugissem ao IVA.

Questiono-me se deveria ter aceite propostas para receber honorários pelos meus trabalhos sem passar recibos verdes, eximindo-me assim a pagar IRS.

Sempre cumpri com os meus deveres, mas não posso dizer o mesmo do Estado em relação a mim. Essa entidade abstracta que devia ser pessoa de bem avisou-me tarde e a más horas, depois de eu ter entregue o meu trabalho, que só poderia pagar-me se aceitasse uma redução de 20 por cento nos honorários que acordara comigo em Janeiro.

Essa entidade toda poderosa, que negoceia esgrimindo o seu poder, faz tábua rasa da outra parte e remete-a para os tribunais quando não cumpre com a palavra dada.

Olho para o relógio. Está na hora de regressar a casa, porque dentro de alguns minutos um profissional vai lá reparar uns estragos efectuados ontem pelo vento em fúria.Pago a conta. O empregado pergunta-me se quero factura. Desta vez não esbugalho os olhos e respondo agressivamente “claro que quero factura!” . Respondo “Não, não vale a pena...”

No caminho de regresso a casa, enquanto penso num país que convida os seus cérebros a emigrar, condena a classe média à míngua, mas concede aos seus governantes e à classe financeiramente poderosa, a manutenção de privilégios e mordomias, pressinto que me transformei.

Quando o profissional me disser “ é X com IVA, ou Y sem factura”, responderei:“ Sem factura. Poupo no bolso e poupo o ambiente”.

Tornei-me um mau cidadão. Mas tinha alternativa?

11 comentários:

  1. Não acredito!
    Isto de se nascer honesto é um "estigma" para o resto da vida! :-))

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  2. Se acreditamos no que fazemos vale sempre a pena.
    Ficamos de bem conosco e isso é muito importante.

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  3. E depois dorme tranquilo? Penso que não!

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  4. Carlos
    A brincar tocou num assunto pertinente. Não tenho preconceitos em dizer que às vezes me sinto um dos "Vacões" que ontem citei.
    Mas por enquanto prefiro dormir descansado e ser um Cidadão cumpridor. Mas que apetece, apetece...

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  5. Virando o provérbio ao contrário: quem nasce direito, tarde ou nunca se entorta. Mas que dá vontade, dá sim senhor.

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  6. Hoje a transgressão é subsersiva.

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  7. À sua pergunta Carlos, eu respondo:não. Não valeu, nem vale a pena ser honesto em Portugal. aqui hoje, tal como sempre o "crime compensa". É a chamada esperteza saloia daqueles que ainda se ficam a rir e a chamar-nos de "otários" porque cumprimos com as nossos deveres de civilidade. E cada vez me vou convencendo mais que eles é que estão certos. Errados estavam os nossos pais que nos educaram para sermos cidadãos de direitos mas também e, sobretudo, de deveres.

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  8. Claro que o meu comentário anterior pretendia ser irónico! Mas que, por vezes cansa, cansa.

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  9. Quando ouvimos relatos de desonestidade, corrupção, desrespeito pela lei por pessoas em funções de destaque na sociedade, podemos nos colocar em dúvida. Será que vale a pena ser honesto? Vale mas também vale ser respeitado.

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  10. Carlos
    Se existe algo de que me orgulho é o facto de ser honesta, mas realmente vivemos num mundo de desonestidade, de corrupção, que me faz sentir triste, não existe respeito por nós, mas vou continuar a ter os valores que meu pai me ensinou e que pratiquei toda a minha vida, embora já tenha sofrido demais por ser eu mesma.´
    Beijinho

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  11. Vale sempre a pena, Carlos, mesmo que seja só por nós próprios e a nossa consciência.
    Mas entendo tudo o que diz.

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