Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011

"As lágrimas amargas..."




Texto reeditado



Ontem à noite fui ao Teatro Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II ver “As lágrimas amargas de Petra von Kant”.


Fui movido pela curiosidade de saber se, quase 40 anos depois de as ter visto vertidas em filme, pelo genial Fassbinder, as lágrimas de Petra me provocariam, em palco, a mesma sensação de rebeldia e provocação.


A resposta é negativa e a culpa não é das actrizes. É do tempo. As provocações de Fassbinder deixaram certamente de ter esse sentido de transgressão e rebeldia, principalmente para o público jovem que preenchia grande parte dos lugares da sala Estúdio. Colhi essa sensação, não só na experiência vivida, mas também nas palavras de uma jovem actriz no final do espectáculo:


“ O tema é banal, não percebo a razão de ter sido tão glorificado pelos meus pais”.


Subentendi, ( mas não lho disse...) no “banal”, um sinónimo de piroso, quase telenovelístico, embora a actriz, revelada ao público português através das telenovelas, não o tenha assumido.


Para mim, sexagenário ainda em fase experimental, a lição foi outra. Se o tema se banalizou, isso significa que a forma de ver o amor enquanto posse persiste, seja ele homo ou hetero.


Os valores terão mudado, mas a forma de viver o amor não sofreu quaisquer mutações, se retirarmos o contexto da peça do modo de vida urbano, e o transferirmos para o mundo rural.


Não me escandalizei, não (re)vi no texto de Fassbinder uma provocação, porque ao longo dos últimos 40 anos o modelo de vida urbano se me entranhou na pele e na consciência de forma subliminar, levando-me a aceitar pressupostos que há 40 anos eram temas de acaloradas tertúlias.


No final da peça, enquanto tomava um copo no amo.te Lisboa, em amena cavaqueira, viajei pelo país que percorro mensalmente em milhares de quilómetros e consumo em toneladas de CO2. Cheguei à conclusão que nesse país extra-urbano,“As lágrimas amargas de Petra von Kant” mantêm a sua raiz provocadora, o seu gene gerador da rebeldia.


Daí que a genialidade de Fassbinder continue a manter a actualidade dos anos 70, resistindo à depredação do tempo e permitindo o direito ao escândalo. Por isso se mantém actual e merece ser revistado. Com outro olhar, mas com o mesmo entusiasmo que despertou na tela, essa fantástica Hanna Schygulla...



5 comentários:

  1. Estava desejosa de saber a sua opinião, ...ainda não vi mas gostava de dar uma saltada à sala Estúdio do D. Maria.
    É uma obra que está ligada à "nossa" geração... e estará sempre!

    ResponderEliminar
  2. Ontem à noite li esta sua crónica, Carlos, que tencionava comentar hoje, o que o vou fazer esta noite, porque neste momento estou com um pé fora de casa, mas para já ainda lhe falo da tristeza que tenho de não estar aí em Lisboa para ver "As lágrimas amargas..."

    ResponderEliminar
  3. Carlos
    Não vi,mas gostaria de ver. penso que iria gostar.
    Beijo

    ResponderEliminar
  4. A grande Hanna Schygulla...feiosita, nariz adunco, mas com montes de talento...que será feito dela?

    ResponderEliminar
  5. "As lágrimas amargas de Petra von Kant" é "quase" uma autobiografia do Rainer Werner Fassbinder.
    A Petra von Kant é o próprio Fassbinder, Karin Thimm é, sem dúvida, Günther Kaufmann, Sidonie von Grasenapp representa o Kurt Raab e a Valerie von Kant é a mãe de Fassbinder, Liselotte Eder.

    O que eu quero dizer com isto, é que essas lágrimas eram mesmo verdadeiras, não tendo nada de banais ou pirosas.

    A Hanna Schygulla NUNCA foi feiosita, nem mesmo agora, depois de velha.

    Para terminar o meu longo comentário, quero agradecer ao Carlos por esta crónica, que tanto me agradou.

    ResponderEliminar