
Lucrécia empunhava a bandeira da JSD na berma da estrada. Sabia que “ele” por ali ia passar, a caminho de uma reunião com os jotinhas laranjas e aguentou a pé firme, à torreira do sol alentejano. Já retirara da mochila a bucha que a Mãe lhe preparara com desvelo e aprestava-se para lhe dar a primeira dentada, quando avistou um carro preto, em excesso de velocidade, a descrever a curva ao fundo da recta onde estrategicamente se colocara.
Lucrécia ajeitou o vestido, fazendo realçar as formas. Agitou freneticamente a bandeira e pôs-se aos pulos na estrada, dedos esticados em V e gritou a plenos pulmões:
“PSD!PSD! PSD!”
O carro estancou uns metros mais à frente, provocando o relinchar dos pneus. O coração de Lucrécia estremeceu. Será que o carro tinha parado por sua causa? As dúvidas desvaneceram-se à velocidade do seu pensamento. O carro inverteu a marcha e voltou a aproximar-se do local onde ela se encontrava. Quando estancou à sua frente percebeu, por detrás dos vidros fumados, a figura do desengravatado Relvas. O seu coração palpitou a um ritmo mais acelerado, quando o vidro começou a descer e o rosto de Relvas assomou, perguntando:
“Então, companheira, o que está aqui a fazer à torreira do Sol, empunhando a nossa bandeira?”
Balbuciante, Lucrécia respondeu:
“ Vim saudá-lo, senhor!”
“Como sabia que eu ia passar por aqui?”
“ Sou uma pessoa informada, senhor. E queria fazer-lhe um pedido…”
“ Diga lá…”
“A empresa onde os meus pais trabalhavam fechou na segunda-feira. Não lhes pagavam o ordenado há seis meses e não sei o que irá ser de nós. Só queria trabalhar para os ajudar, mas aqui também não arranjo emprego, meu senhor!”
“E o que é que você sabe fazer?”
“ Não sei bem, senhor! Tirei um curso de Relações Internacionais por correspondência, já enviei currículos para tudo quanto é sítio, mas nem me respondem. Não sei o que hei-de fazer à minha vida!”
( Lucrécia rebentou em lágrimas)
“ E você é militante do PSD, não é verdade?”
“ Sim, senhor. Eu, os meus pais e até o meu irmão Tonico, que só tem 14 anos, já se inscreveu na Jota”
“ Isso é que é uma família às direitas… quer dizer… uma família responsável”.
“ Pois somos, senhor…”
“Então, vai fazer como eu lhe vou dizer. Mande-me o seu currículo lá para o ministério, que eu prometo arranjar-lhe um emprego. Ou crio um grupo de trabalho, para estudar qualquer coisa, ou contrato-a como especialista para o meu gabinete. Vá lá, pare de chorar, que tudo se resolve!”
“ O senhor está a falar a sério?”
“Claro! Nós estamos aqui para ajudar os portugueses em situação difícil…”
“ Ó senhor doutor, muito obrigado. Não sei como lhe agradecer! Olhe, leve esta sandes para o caminho. É de presunto de porco preto, criado nas nossas terras.”
Relvas hesitou, mas com medo de que a sua recuse fosse mal interpretada, acabou por estender a mão e dizer “muito obrigado”.
“ Então não se esqueça. Guarde lá o meu cartão e escreva, está bem?”
Lucrécia ia responder, mas já nem teve oportunidade de ver o carro afastar-se na curva desenhada no horizonte. Acordou com o mugir da vaca. Estava na hora da ordenha.
( Continua. Ou talvez não...)
rrss rrss buááaáá´
ResponderEliminarambas as coisas porque já não sei se hei-de rir ou chorar!!
Abraço
... é assim quando as Lucrécias vão para a estrada pastar
ResponderEliminarRelvas
Se a coisa pega
vai acabar o desmprego
Carlos
ResponderEliminarEspero que a estória tenha mesmo seguimento. Acho que não lhe vai faltar imaginação e gorar as expectativas.
Continuação de boas férias.
Abraço
Coitada da Lucrécia, já não lhe bastava o nome, é claro que tem que ser "contratada", tem que passar do sonho à realidade!
ResponderEliminarBasta ter tido esse sonho para vir a ser, no mínimo, assessora de um dos onze!
Pois, esse acordar de sonhos delirantes são sempre muito penalizadores...
ResponderEliminar:))) Acho melhor a Lucrécia continuar a mugir a vaca e deixar-se de sonhos impossíveis... então um ministro ia contratar uma assessora apenas e somente, por ter uma cara larocas e ser do partido? isso é lá coisa de filme!! Isso na realidade não acontece em lado nenhum! Pois não? :)
ResponderEliminarEspero pela continuação
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