
Os seniores da carruagem de Metro são filhos do conflito da II Guerra Mundial, precursores da geração dos baby boomers e frequentaram a Universidade, numa época em que a figura de Dionísio animava as discussões sobre as democracias emergentes, nascidas num quadro de expansão de valores hedonísticos, geradores de modos de vida que entraram em ruptura com a sociedade autoritária e tecnocrática.
Assistiram à explosão da sociedade de consumo de massas, onde os actos de consumo se esgotavam na satisfação das necessidades. A mítica geração contestatária, intérprete do Maio de 68, do slogan Make Love Not War, protagonista de Woodstock, iria romper com os autoritarismos, lutaria contra a guerra e os proibicionismos sexuais , exaltando a libertação do corpo e reclamando o direito ao prazer.
O importante na juventude daqueles seniores foi, certamente, poder vibrar com as sensações do corpo, explodir contra as instituições burguesas desfrutar o prazer nos seus limites. Manifestou esse desejo em grupo. Transgredindo, expressando-se em manifestações de rua, em concertos rock com experiências psicadélicas, exaltando os prazeres da carne e do consumo de massas, glorificando o “Peace and Love”, a força do grupo.
A geração destes seniores viveu um período áureo em que o mundo evoluiu da penúria para a abundância, quando a sociedade de consumo apenas pretendia satisfazer as necessidades dos consumidores e não lhes colocava, em cada acto de consumo, um questionário de escolha múltipla.
Os jovens que viajam no mesmo Metro nasceram numa sociedade diferente, onde o espírito de transgressão continua a existir, mas passou de moda, a sociedade de consumo de massas evoluiu para a sociedade da hiperescolha, movida pelos megabytes das novas tecnologias em que o cidadão consumidor é confrontado com múltiplas ofertas e aliciado, pelo marketing e pela publicidade, a usar e deitar fora, a cultivar o desperdício, porque as novidades surgem em cada dia e o crédito se anuncia, libidinoso, como mulher de vida fácil oferecendo os seus préstimos em cada esquina.
Dionísio já não mora aqui?
Os seniores cresceram numa época em que as alegrias eram colectivas e os prazeres se partilhavam em grupo, mas estes jovens deixaram de viver em grandes grupos e passaram a viver em nichos cada vez mais restritos, onde os gostos se personalizaram.Continuam a existir as manifestações de massas, como bem evidenciam os festivais de Verão, mas a oferta é agora muito mais diversificada e ir a um festival de Verão é mais um ritual do que uma manifestação de vontades. É uma forma de vida.Estes jovens substituitram a reivindicação pela satisfação quotidiana do prazer, mas tiveram o azar de percorrer o caminho inverso dos seniores. Nasceram, estudaram e cresceram numa sociedade de abundância mas, ao chegar à idade adulta, encontraram uma sociedade de penúria, onde o dinheiro deixou de ser barato e a forma de o alcançar através do trabalho, cada vez mais difícil.
Os jovens que viajavam no Metro naquela manhã vivem agora num mundo que parece ter saído do seu eixo e mudado a sua órbita. Quando a prosperidade parecia não ter limites e o triunfo da sociedade de lazer parecia iminente, tudo mudou. A globalização favoreceu o aparecimento de países emergentes como o Brasil, Índia ou China, que à custa de salários baixos conseguiram entrar nos tradicionais mercados de forma agressiva, alterando as suas regras. Empresas tradicionais deslocalizaram-se aproveitando a oportunidade de pagar salários mais baixos e se tornarem mais competitivas, mas perderam a sua identidade nacional.
O mercado de trabalho torna-se mais competitivo e os vínculos laborais mais precários. O consumo tornou-se o objectivo supremo das sociedades democráticas- que não são dionísicas- , mas Dionísio domina o estilo de vida de cada cidadão consumidor que satisfaz a sua voragem consumista em grandes superfícies profusamente iluminadas, com cantos de passarinhos robotizados e odores pré-fabricados, numa verdadeira orgia de ofertas .
O dinheiro é o novo rei dos mercados, regulador de conflitos, compra todos os prazeres e satisfaz todos os desejos, o bem estar o novo deus, a cultura do lazer um modo de vida. O hiperconsumo e a hiperescolha são as novas drogas que saciam a voracidade consumista, oferecendo-se aos consumidores com menos recursos, em saldos, liquidações, promoções e vendas a crédito.
Foi desta forma subtil que a sociedade de consumo foi criando as condições para o nascimento do consumidor individualista, dionisíaco e competitivo, que fermentou na sociedade da solidão, onde a Televisão e sobretudo a Internet , se erigiram a novas substâncias dopantes, acessíveis a (quase) todas as bolsas.
(Continua )
Sugestão de leitura complementar: Do cometa Halley à Primeira Guerra Mundial
oi, boa tarde, estou muito triste com o vírus em meu blog, acho que vou perdê-lo, nao sei como resolver isso, beijos e boa TARDE!
ResponderEliminarCarlos
ResponderEliminarComo num filme em que a gente está a ver as coisas acontecerem e de repente bate na testa e diz. É isso!
Iremos passar de "cultivar o desperdício" para escolhas e opções de vida mais sustentáveis e racionais, não há outra forma de sobreviver, o mundo ocidental está em declínio.
ResponderEliminarCarlosamigo
ResponderEliminarAcabei de publicar na nossa Travessa um testículo com x, INTERDITO a Senhoras, menores e até cavalheiros da mais esmerada educação. É um tanto brejeiro e pode ferir a susceptibilidade ou até mesmo o pudor de quem se atreva-la a lê-lo. Intitula-se A garrafa e os copos. Dele me permito transcrever um passo dos mais inocentes.
“Ela, muda e febril, deixou-se levar, estendeu-se na cama, ele perguntou-lhe posso pôr-lhe o instrumento, refiro-me, claro, ao termómetro, no sovaco? Nata, sem uma palavra, desatou o nó do cinto do roupão, abriu-o um pouco, a camisa de noite não ocultava nada, quando ele se inclinou para tirar a temperatura, os bicos dos seios fugiam da prisão diáfana.”
Repito o alerta: é IMPRÓPRIO para consumo. Depois, não digam tu e a tua malta que não avisei.
PEDIDO: manda-me o teu imeile para o hantferreira@gmail.com. Obrigado
Meu amigo:
ResponderEliminarUma descrição perfeita da nossa sociedade e das diferentes gerações.
Eu acredito que foi tudo premeditado para nos levarem a este consumismo e agora nos terem nas mãos.
beijinhos
Sem dúvida que esta nova sociedade de hiperescolha também acarreta uma maior individualização e até egoísmo das pessoas, tornando-as mais solitárias - na música que ouvem nos Ipods e companhia, nos seus computadores, nas televisões que têm no quarto, o que também as alheia da realidade que as cerca... ;)
ResponderEliminarCom o aviso do HAF não fui ler, porque parece que para ele a libertação foi só para os libertinos. Senhoras bem formadas, libertadas e sérias não podem ler. De nada serviu o ditado da minha infância: mulher séria não tem ouvidos. Será séria ou mal encarada?
ResponderEliminarSe bem me parece os seniores de hoje, também passaram um bom bocado para ganhar a vida. E não desperdiçaram. Por isso hoje têm de dar aos exigentes filhos, quiçá netos.
Estou amando os textos, as peças de quebra cabeça que vão se encaixando....
ResponderEliminarBeijinho
Estou a adorar esta rubrica... continuo no metro a observar os ocupantes e a ler os seus textos... :)
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