
Portugal está a viver a maior crise de descrença nas instituições, de que tenho memória.
É sintomático que, perante a abertura de um inquérito às contas da Madeira, anunciado pelo PGR, as pessoas reajam com indiferença, antecipando-lhe o fim. É que mesmo no caso de AJJ vir a ser condenado, as pessoas sabem que ele nunca cumprirá qualquer pena.
Olham para o exemplo de autarcas como Isaltino de Morais ( apesar de condenado continua a exercer as funções de presidente da câmara de Oeiras) , Ferreira Torres, ou Fátima Felgueiras ( só para falar de casos mais recentes e mediáticos) e escondem um sorriso.
Lembram-se do juiz que absolveu Domingos Névoa pela tentativa de corrupção ao vereador da câmara de Lisboa, Sá Fernandes, invocando que o vereador não tinha poderes para satisfazer o pedido do empresário, e soltam uma gargalhada.
No caso Freeport, o concubinato entre jornalistas e sistemas judiciais deu para vender papel e os portugueses correram para as bancas a comprar papel de embrulho, ou postaram-se diante dos televisores a ver o telejornal, com o mesmo empolgamento com que acompanham as telenovelas brasileiras. O vilão daquele seriado, Sócrates, tinha todas as condições para ser odiado. Mesmo que o desenrolar da trama viesse a demonstrar que o enredo tinha sido fabricado para aumentar audiências, pouco se importavam, porque o “suspense” estava garantido.
É mais ou menos o que se está a passar com AJJ e a Madeira. O argumento deste seriado veio mesmo a calhar para desviar a atenção dos problemas que o país vive e remeter para segundo planos os sacrifícios que nos estão a ser pedidos. Serviu também para transmitir a imagem de que Passos Coelho é uma pessoa íntegra e dura, que não se deixa influenciar por interesses partidários.
O cenário foi bem montado, o protagonista é bem parecido, e o argumento bem construído. Não falta aquela pitada de suspense dos seriados de série B, nem o toque de telenovela das 9, mas o final não trará qualquer surpresa: os madeirenses voltarão a eleger AJJ com maioria e descobrir-se-á que o vilão não era o homem da casa da Vigia, que será coimado e admoestado, mas passará incólume ao desenrolar da trama.
O vilão desta novela de terceira classe é Pedro Passo Coelho, que utilizou as diatribes de uma personagem de segundo plano, para o erigir a figura central, enquanto se escondia nos bastidores para fazer passar as suas políticas que visam a destruição dos direitos conquistados com o 25 de Abril. Os espectadores estavam muito distraídos e nem se aperceberam de nada…
Não me venham falar em crise das instituições. Não é que ela não exista, mas será mais apropriado falar em crise de cidadania. Se os portugueses fossem comprometidos com a vida cívica; se não se tivessem deixado obnubilar pelas promessas da Cinderella da sociedade de consumo; se não se tivessem deixado seduzir pelos enredos da telenovela em que se transformou a vida política portuguesa; se não tivessem deixado que a ficção lhes coarctasse o discernimento, nunca teríamos chegado a esta situação.
É sobre isso que todos devemos reflectir, antes que seja demasiado tarde.
Absolutamente de acordo: a responsabilidade maior é nossa, não de quem nos (des)governa.
ResponderEliminaraAlém dos exemplos que aponta , estou totalmente chocada com a sentença dada ao engenheiro, pai de uma juíza, assassino pelas costas do pai da neta que segurava no colo e que continua à sua responsabilidade e impedida de contactos com a família paterna!!
Boa semana
Mais um post a tresandar de ódio e ressabiamento contra o homem que os portugueses elegeram 1º ministro. Os manicómios estão cheios de gente que começou assim.
ResponderEliminarO nosso primeiro deu uma de duro e equidistante em relação ao jardim mas os seus servos tratarão de tudo para que o inquérito e as sanções não apareçam antes das eleições regionais.
ResponderEliminarE o povinho lá vai cantando e rindo...
E como fica quem não deixou fazer nada disso e teve que levar com as consequências dos actos dos outros? Mais revoltado está, não? É o meu caso. Vivi sempre dentro das minhas possibilidades e cumpri sempre com os meus deveres cívicos, afinal de nada me adiantou. Nada.
ResponderEliminarÉ bem verdade, lá vamos cantando e rindo. Outros são tão, mas tão ceguinhos que nem vão cantando e rindo, vão mesmo anestesiados e completamente ressacados com promessas de "agora é que estamos bem" e nem sentem os bolsos a esvaziarem e se o sentem a culpa é sempre dos outros escondendo-se no anonimato para papaguearem recados aprendidos nas sedes dos seus partidozitos de poleiro, porque ainda lhes deve restar um pouco de vergonha de saberem que o ridículo do que papagueiam já há muito foi descoberto. Triste "povinho" este que só se lembra de nadar quando a água já lhe inundou os pulmões!
ResponderEliminarTudo isto é abjecto, tudo isto me mete nojo! E a maioria das pessoas ainda não acordou...
ResponderEliminarUm bom texto de esclarecimento!
(também já estás "infectado" com o virus dos anóninos cobardes...)
Entretnato o inenarrável Relvas já veio dizer que não se compromete com datas para divulgar as contas da Madeira, quando o PM se comprometeu a divulgá-las até ao final do mês. funcionam como o polícia mau e o policia bom e a malta pápa tudo. tudo isto é miserável.
ResponderEliminarCarlos
ResponderEliminarQuanto mais eu leio sobre politica, mas acho que é tudo muito pareciso em todos os paises, só trocam o nome mas corrupção, está em tudo.
com carinho Monica
Sempre assertivo. Admiro-o. Penso que já estamos no "caminho sem retorno"...
ResponderEliminarO vírus também por aqui anda, o segundo comentário do dia, mal ele sabe que para alguma coisa há antivirus...
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