Tentar desculpabilizar as atrocidades do regime de Kadhafi pode ser um belo exercício de dialéctica para aquietar alguns espíritos , mas não mais do que isso.
Parece-me no entanto importante chamar a atenção para a forma como a comunicação social e alguma blogosfera tem tratado o assunto, fazendo crer que de um lado estão os maus (os fiéis a Kadhafi) e do outro os bons ( os que o querem apear). As coisas não são assim tão simples...
Vem isto a propósito das imagens que têm sido transmitidas à exaustão, alertando a opinião pública para os crimes horrendos que foram cometidos pelo ditador.
Seria de elementar bom senso e respeitador dos mais elementares critérios jornalísticos que antes de exibirem na televisão as imagens de corpos calcinados, além de chamarem a atenção para a crueldade que as imagens deixam transparecer, os jornalistas lembrassem:
“ Estes crimes cometidos pelo regime de Kadhafi foram avalizados pelos países que, durante 42 anos, o apoiaram sem uma única crítica e até se tornaram cúmplices, quando lhe concederam o privilégio de presidir à comissão dos direitos humanos da ONU”
Depois, no final, teria ficado bem lembrar os telespectadores que os jornalistas só puderam entrar no bunker de Kadhafi três ou quatro dias depois de os rebeldes lá entrarem, terem procedido a inúmeros saques e, eventualmente, algumas manipulações destinadas a atrair as simpatias da opinião pública.
É que eu não me esqueço da forma como foram fabricadas as provas que justificaram a invasão do Iraque; ainda me lembro das atrocidades cometidas pelas tropas americanas no Iraque, cujas imagens foram, normalmente, acompanhadas de comentários que as branqueavam; não esqueço os crimes de Abu Ghabi e Guantánamo, nem os voos clandestinos de transporte de presos, que tiveram a conivência de vários países ocidentais; ainda tenho frescas na memória imagens de outras atrocidades cometidas pelos americanos em vários pontos do globo, desde a América Latina ao Vietname e não esqueço, enfim, o apoio dos americanos às sangrentas ditaduras latino-americanas e o seu envolvimento no derrube de Allende ( para não falar de Grenada, Cuba e muitos outros)
As imagens que vi do bunker de Kadhafi, ou dos hospitais de Tripoli, não me impressionaram? Claro que sim, não sou insensível…o problema é que, tendo na memória os episódios referidos, não posso confiar cegamente naquilo que me foi exibido. Já não me basta, como a S. Tomé, ver para crer. Quero saber toda a história que eventualmente possa estar por detrás delas.
Carlos
ResponderEliminarChama-se a isso dar nome às coisas.
Claro que isto é da sua "Lavra" mas começa a ser frequente os media caírem em descrédito pelo exagero com que utizam a miséria alheia. Tambem nessa classe profissional há um trabalho a fazer, pois acredito que há muito profissional sério.
É evidente que o sensacionalismo e a exibição de imagens chocantes "vendem" melhor que o tratamento sério das mesmas.
Quanto ao resto de acordo com tudo.
Bem podemos esperar sentados pela história toda, nesta como noutras essa história é feita pelos vencedores, essa coisa de jornalismo independente foi chão que já deu uvas e os casos pontuais que porventura aparecem comprovam isso mesmo.
ResponderEliminarPorque será que eu tenho a impressão de dejá vu?
ResponderEliminarE creio que esta mesma (des)vergonha se repetirá na Síria.
Boa semana
Nada nesta vida (nem ninguém),é exclusivamente a preto ou branco... os meios de comunicação social, gostam de dicotomias... de "lados"... de fundamentos, justificações, e raramente têm ambas as versões... mas diga-se que não são apenas os jornalistas. Hoje em dia, ter acesso à informação total, sem ser manipulada, é difícil, e apenas pode resultar de um exercício de investigação permanente a que se dão ao trabalho, apenas os interessados. Os outros agradecem o entretimento das imagens, a mastigação dos meios de comunicação social e a repetição de comentários transmitidos...
ResponderEliminarDólar US, Ouro, Petróleo A Santa Trindade da Civilização Ocidental Moderna... quem tentar algo contra...
ResponderEliminarEle que venha exilado para Portugal, montar a tenda em Cascais. Ou lá onde foi...
ResponderEliminarMeu caro, o petróleo ou o gás natural fazem milagres, tal como os diamantes.
Nos países africanos onde não existem tais riquezas e abundam os ditadores, morre-se de fome!
E nesses casos os queridos líderes ocidentais mandam uns pacotes de massa para o mercado negro local, enquanto assobiam para o lado...
Ah, pois é, já vem sendo hábito não podermos acreditar em tudo o que os nossos olhos vêem via TV, com provas de tantas manipulações anteriores. Desde o outro que estava "algures no deserto", em frente a um monte de areia... ;)
ResponderEliminarE um ditador numa comissão de direitos humanos é, no mínimo, uma aberração - que os hipócritas do costume não falharam!
ResponderEliminarTantos interesses... e muito descaso com o povo :(
ResponderEliminarFolha Seca:
ResponderEliminarfelizmente ainda há, mas estão em vias de extinção e temo que rapidamente a maioria passe a funcionários políticos.
Salvo
ResponderEliminarEu já nem peço que os jornlistas sejam independentes. Só peço que sejam sérios e deixem de nos atirar poeira para os olhos. O problema é que uitos não fazem por mal... é que aquela cabecinha não dá mais!
São
ResponderEliminarComo diz o Salvo, os vencedores é que fazem a História...
Eva
ResponderEliminarO problema é que os jornalistas que ainda estão interessados em fazer investigação, muitas vezes não têm onde a publicar e vão-se desmotivando...
O povo merece o descaso e muito mais... que faz o povo? Parece um calhau...
ResponderEliminarVoz a 0 db
ResponderEliminarDiz que é uma espécie de troika...
Capitão
ResponderEliminarEm áfrica, mas não só...
Teté:
ResponderEliminarE reparou que os rebeldes já mataram o filho d Kadhafi umas 3 ou 4 vezes?
á lá, que a partir da segunda morte e do aparecimento diante das câmaras de televisão do outro filho que os rebeldes afirmavam ter prendido, começaram a dar-lhes menos crédito
Amigo Carlos!
ResponderEliminarEste é um tema que daria para fazer correr muita tinta.
Claro que, como cidadão, me faz muita confusão todo este embróglio de assassinatos e prepotências, o que não aceito de forma nenhuma pois a história já está repleta de ditadores, mas o que é certo é que há bem pouco tempo recebi um mail sobre Kadafi que, a ser verdade,me fez desejar que todos os ditadores fossem como ele.
Mas isso é outra "estória".
abraço amigo
Essas imagens são óptimas para vender, Carlos.
ResponderEliminarA violência, o horror, vendem.