Quinta-feira, 18 de Agosto de 2011

Os ressentimentos da memória










Enquanto escrevia o post sobre a "Filha do Lavrador", lembrei-me de um caso que se passou comigo há tempos e aqui recordo. Ainda guardo um ressentimento, impossível de apagar.


Os professores exercem uma das mais nobres profissões do mundo. O seu esforço e a sua dádiva nem sempre são reconhecidos em Portugal, mas o mesmo não acontece, por exemplo, na China, onde o professor primário é visto como uma pessoa de família, pelos familiares dos alunos.Tive, ao longo da vida, professores excelentes, apenas bons e medíocres. O meu professor primário - de que já vos falei aqui - era na realidade um professor medíocre, mas visitei-o muitas vezes ao longo da vida, até à sua morte.No Liceu tive alguns professores excelentes, de quem guardo belíssimas recordações. Ainda sou amigo , por exemplo, do meu professor de Filosofia que, embora sendo padre, é de uma grande abertura de espírito. Lembro-me com saudade do meu professor de Português, mau como as cobras, mas com uma tal sensibilidade, que chorava como uma Madalena nas aulas, quando nos falava de alguns autores portugueses. Ainda hoje sinto um arrepio, quando me lembro das aulas em que ele recitava de cor longos excertos de “Os Lusíadas” e as lágrimas lhe escorriam pela face, em catadupa.



Poderia aqui citar a minha professora de História, que me fazia voar no tempo, com a sensação de estar a viver na época de que ela falava, ou a empertigada e irritante professora de inglês que me castigava nas notas por considerar que eu não me esforçava para ser melhor aluno. Quando, no exame do antigo 5º ano ( actual 9º), tive 18,9, disse-me “mas podias ter tido 20!”. Depois, perante o meu ar incrédulo e desesperado, agarrou-se a mim a pedir desculpa pelos três anos de sofrimento que me fizera passar e arrematou: “mas valeu a pena!”.





Poderia contar-vos muitas histórias, mas hoje quero falar de um professor que tive na Faculdade de Direito. Era um péssimo professor. Ignorante, inculto e fascista, foi responsável pela minha expulsão da Faculdade. Devia estar-lhe grato por isso, pois foi graças à expulsão que a minha vida ganhou um novo rumo, mas não estou e continuo a sentir o mesmo rancor por aquela figura sinistra que era o terror dos alunos de Direito. Descobri isso há dias, quando passou por mim à porta da Versailles. Quando vi aquela figura repelente, agora carcomida pela idade, a minha vontade foi apertar-lhe o pescoço, cobri-lo de porrada, até ficar ali estendido, à espera de uma ambulância do INEM que o conduzisse ao Hospital.
Tal como alguns amores, alguns ódios não se explicam. Não é o caso deste. Sei que foi sempre uma figura detestada. Nem Marcello Caetano o suportava. Mas nunca pensei, até este reencontro, que ainda pudesse despertar –me tento desprezo, volvidos quase 40 anos!


7 comentários:

  1. Não tenho um comentário a fazer propriamente ao tema do texto. Ainda...
    Quero simplesmente dizer como foi agradável lê-lo pela transparência, pela naturalidade, pelo relato franco, honesto de sentimentos partilhados por muitos. Esquecer e perdoar (ou vice-versa) nem sempre é fácil.

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  2. Carlos, meu amigo querido.
    Obrigada por compartilhar um pouco de você.
    Entendo bem o seu sentimento. Também já sofri uma explulsão injusta.
    Hoje o que tenho mais medo na vida é da injustiça.
    Sei que é difícil mas tire esse "erva daninha" do seu jardim. Sepulte esse professor!
    Hoje vejo que a maior vingança que tive foi que o que fizeram para me prejudicar, só me ajudou.
    beijinhos carinhosos

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  3. Carlos, entendo vc, tem pessoas que passam por nossa vida, que bem que a gente podia ter sido livrado de tal presença, mas como nada é por acaso, como vc mesmo confessa, sua vida tomou outro rumo, que é o que deveria ser mesmo. A injustiça sempre dói, e é dificil perdoar quando fomos injustiçados.


    beijos.

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  4. Narrativa interessante sobre seus professores. Paralelamente comecei a me lembrar dos meus.
    Sabe, pelos muitos anos passados,tendo em vista que na época eles já tinham bastante idade, creio que não existam mais.Adoraria poder encontra-los,pois eram excelentes.Só tenho boas lembranças.

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  5. Ainda hoje recordo com saudade a minha professora da primária. Por vezes ainda a vejo e falamos um pouquinho.
    Não me esqueço que fiquei sem férias quando passei para o antigo 1º ano do ciclo (hoje 5ºano), e fiquei sem férias de verão para melhorar as regras na língua portuguesa. Eu e todos os que passaram. Eram aulas das 9:30h às 13:00h e sem intervalo.
    Mas deu resultado, eheheheh.

    A minha professora de História do 9º ano que me fez ter um 18 no final do ano.

    e ao meu professor de Filosofia do 11º ano, que ainda hoje passado estes anos todos, sabe o meu nome de cor e salteado e até sabe onde me sentava na sala e tudo eheheheh

    Eu portava-me bem, atenção!!!

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  6. Recordo-me de ter mencionado esse prof num comentário que fez a um texto meu. Algumas pessoas marcam-nos pela positiva mas outros houve que pelo todo mal que nos fizeram passar nos motivam rancor e ódios que julgávamos impossíveis.

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