quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O(s) mensageiro(s) do(s) deuses




Há dias falava com uma senhora que foi à Jordânia dissertar sobre defesa do consumidor. Com ela foi um grupo de peritos de outros países europeus, pagos pelos cofres da União Europeia. Perguntei -lhe qual a impressão que tivera da visita, no concernente à defesa do consumidor por aquelas paragens, mas a resposta titubeante e evasiva levou-me para outras lucubrações.


Lembrei-me, por exemplo, que nas ilhas do Pacífico reinou, em tempos não muito recuados, um conjunto de cultos relacionados com o consumo: o taro (loucura) cult em Vanuattu, o vailala na Papuásia, ou o tuka cult nas ilhas Fiji são apenas alguns exemplos.


A origem destes cultos está relacionada com a chegada de John Frum* àquelas paragens, no início da década de 30 do século passado. Não se sabe exactamente quem era John Frum, mas sabe-se que apareceu na ilha de Tanna, levando objectos exóticos e desconhecidos naquelas paragens. Estupefactos perante tantos objectos estranhos, os indígenas pensaram tratar-se de uma divindade que os bafejara com uma dádiva e passaram a adorá-lo como tal. A data do aparecimento deste homem foi 15 de Fevereiro, data assinalada em toda a Melanésia com festividades em honra de S. Frum.


Não creio que a embaixada de peritos europeus que rumou à Jordânia para anunciar a boa nova da defesa do consumidor tenha provocado nos jordanos a mesma reacção, mas o mesmo já não me arrisco a dizer em relação a algumas tribos sul-americanas eventualmenet visitadas por uma outra embaixada, presidida pelo ex-secretário de estado do consumidor, Fernando Serrasqueiro.


Pelo investimento feito na viagem, não me espantarei se um dia, ao chegar à Quebrada de Humahuaca, me deparar com uma festividade em nome de S. Rasqueiro. Ficarei então a saber que objectos e produtos exóticos terá transportado a sua comitiva.


( Em tempo: graças ao leitor Gonçalo, a quem agradeço, já consegui fazer link para a notícia publicada pelo jornal i no dia 13 de Agosto)



3 comentários:

  1. Caro,

    por acaso - e se bem me lembro da notícia - a despesa seria a "rachar" por entre a restante entourage de empresários cuja ida o Ministério patrocinou.

    Dir-me-á que há muito de reprovável em ter de ser o Estado a prover pelas viagens dos babarejões, mas eu dir-lhe-ei que, infelizmente, é assim que são feitas as coisas aqui no nosso cantinho.

    De qualquer modo, o tom da notícia - force fed pelo ministério para justificar o tal "ambiente de ostentação" - só revela a orfandade desta gente agora que já não têm o zézito para malhar.

    Alías, dei-me ao trabalho (não foi assim tanto - está em: www.ionline.pt/mobile/142987-como-o-governo-socrates-gastou-em-viagens-carros-e-telemoveis) de a encontrar. Aqui fica um parágrafo (espero eu) esclarecedor:

    "A comitiva do ministério era composta apenas por três pessoas - o secretário de Estado e dois elementos do seu gabinete - mas as despesas pagas aos 20 empresários que foram "estabelecer contactos" para avaliar as possibilidades de exportações (um procedimento habitual em algumas deslocações oficiais) fez com que acabassem por sair 35 mil euros dos cofres públicos."

    Leu só o título ou deu-se ao trabalho de ler a notícia? É que para maus leitores, estes jornalistas servem muito bem.

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  2. Eu fico engasgada de raiva ao ler notícias como a que dás!
    O saque continua a todos os níveis, e ninguém, fora ou dentro do governo irá parar, a não ser que os obriguem...

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  3. Caro Gonçalo
    Obrigado pelo link que tentei fazer como habitualmente, mas não consegui encontrar.
    Já aqui tenho criticado várias vezes a atitude hipócrita do ministro Álvaro, que olha para as despesas do antecessor, mas encontra sempre uma razão para justificar as dele.
    O propósito deste post não foi atacar o ex-sec de estado, mas simplesmente brincar com o culto consumista dos melanésios a partir da visita de um fulano( supõe-se americano)que os deslumbrou com os seus produtos, e compará-los com os potenciais efeitos da ida de uma delegação de peritos europeus à Jordânia e os da embaixada lusa ao Perú e México.
    Aliás, como poderá constatarse por aqui passar, este post terá sequêncianos próximos dias. Sempre, espero, em tom de brincadeira.

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