segunda-feira, 25 de julho de 2011

O Grito*




Para uns é um fanático extremista. Para outros é um louco. Esta versão simplista da loucura, expressa nas palavras de Nuno Rogeiro de forma conclusiva e sem direito a contraditório é a que mais agrada à direita. Quando um dos seus invoca convicções políticas para cometer um crime é sempre apelidado de louco. No caso de ser muçulmano, ou de esquerda, é apelidado de terrorista e apontado pela direita como exemplo generalizado dos comportamentos anti-democráticos da esquerda e do islamismo. Lembre-se apenas Bin Laden. Aos olhos do mundo sempre foi visto como um terrorista, islâmico fundamentalista, mas perigosamente inteligente. Matou milhares e foi assassinado a sangue frio, sem direito a julgamento.
Este norueguês que se auto proclama cristão fundamentalista é, na opinião do mesmo Nuno Rogeiro, apenas um louco. Epíteto que o próprio rejeita e o seu “testamento politico” comprova ser displicente.
A análise de Rogeiro é típica dos comentadores a soldo que enxameiam a comunicação social. À esquerda estão os extremistas intolerantes , à direita os civilizados que, no seu seio, albergam um ou outro louco capaz de cometer alguns dislates. Não se deve, por isso, sobrevalorizar “este acto de loucura”, conotando-o com o comportamento da extrema-direita, mas sim considerá-lo apenas como um “acto episódico”.
Bastará ler alguns excertos do “manifesto de Anders Breivik” para deitar por terra os argumentos de Nuno Rogeiro e perceber que o raciocínio deste norueguês, alto e loiro” não é de um louco. Como não é também, um mero capricho, o facto de pretender que a sua audição seja pública e declarar a sua vontade de comparecer fardado.
Um louco não tem o comportamento calmo e determinado de Breivik. Dispara à toa e, no final, suicida-se.
Desvalorizar a tragédia da Noruega é continuar a alimentar o monstro a que o mundo ocidental tem dado pouca importância, permitindo que cresça e alargue os seus tentáculos de forma a conquistar adeptos.
A crise económica e financeira despoletada pelo capitalismo e alimentado pelas políticas ultra-liberais é um pasto excelente para fazer germinar ideologias xenófobas. Milhões de desempregados, com pouca instrução e sem acesso a outras fontes de informação que não sejam os telejornais diários, ouvidos entre duas colheres de sopa e um comentário sobre o jogo de futebol da véspera, ou uma cena de telenovela que virá a seguir, são ovelhas acéfalas dispostas a aderir ao rebanho da intolerância que laboriosamente a extrema-direita vem apascentado nas duas ou três últimas décadas, perante a passividade dos líderes ocidentais. Quantos milhões de desempregados não aderirão com simpatia à teoria de que o Islão e os emigrantes são a causa do seu desemprego e de todos os males que assolam a Europa?Sempre é mais fácil acreditar nesses “inimigos” do que nos destemperos da voragem capitalista ou no ultra-liberalismo que os sufoca até à morte.
Um velho, doente de Alzheimer, culpa sempre o filho que por ele zela com mais desvelo de o querer roubar, enquanto apaparica outro que efectivamente vai desviando umas pratas lá de casa.
De igual modo, a velha e relha Europa sempre tem sido mais tolerante com a xenofobia e a extrema-direita, do que com o islamismo ou a esquerda mais radical.
Nos Estados Unidos, o partido republicano é um bom exemplo dos resultados a que nos pode conduzir a tolerância com a extrema direita. Num momento de crise gravíssima, quando as circunstâncias exigem um acordo com os democratas, para evitar males maiores, os republicanos estão reféns do Tea Party, a quem toleraram todas as exigências, com o fito de os poderem ajudara a regressar ao poder em 2013.
A tragédia de Oslo não pode ser menosprezada, nem vista como um acto isolado de um louco. Ocorreu num dos países mais pacíficos e mais seguros do mundo e, à memória, veio-me logo a estupefacção da Europa quando Olof Palme foi assassinado em 1986. Nessa época a Suécia vivia um período esplendoroso, mas nunca mais voltou a ser a mesma. Creio que o mesmo irá acontecer na Noruega. Este acto criminoso deixou o país envolto numa onda de estupefacção, que não se apagará tão depressa. Os noruegueses pensarão que,mesmo sendo condenado à pena máxima permitida por lei na Noruega ( 21 anos de prisão) Beivik nunca será punido e, aos 53 anos, estará ainda em boa idade para continuar a difundir a sua ideologia xenófoba e até vir a ser considerado como um mártir.
Era bom que pensássemos neste assunto com menos leviandade e que os líderes europeus percebessem, de uma vez por todas, que desvalorizar estes “actos isolados” só servirá para acelerar o fim da Europa.
Este tema dá pano para mangas e, enquanto pasmo com o silêncio dos blogs de direita (como seriam diferentes as reacções se o atentado tivesse sido cometido pela Al Qaeda!) lamento não ter tempo ( paciência, vá lá...) para o aprofundar de forma mais consistente. Talvez mais tarde volte ao assunto.




*O quadro de Munch seria uma bela imagem para ilustrar este post, pois retrata a angústia e o desespero dos noruegueses depois da tragédia. Mas preferi não misturar uma obra de arte com a obra de um selvagem

11 comentários:

  1. Muito bom texto! Muito bom ponto de vista!
    Tem toda a razão! E agora o fulano apanha no máximo 21 anos de cadeia e pronto! Daqui a uns 10 anos está cá fora para fazer outra parecida.

    Quanto ao Nuno Rogeiro... só o ouve quem for mesmo ignorante (o pior é que este povo é-o!)

    Gostei.

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  2. Carlos
    Aquela frase de Julio Dantas, com que a Fê o brindou no post que lhe dedicou, está bem patente aqui.
    Susbscrevo até a pontuação.
    Abraço
    Rodrigo

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  3. "A tragédia de Oslo não pode ser menosprezada, nem vista como um acto isolado de um louco."

    A loucura é um estado demente.
    Nesse estado está o mundo, que tal com a gente, julgando-se sã, está profundamente doente...
    Conheço a maleita.
    Conheço também quem essa realidade aceita...
    Não, não é um acto isolado
    Cada vez vejo mais loucos,
    um pouco por todo o lado.

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  4. A Europa não está a vulgarizar estes actos, ela é culpada, não pelas descrições que faz, que respeito, mas sim pelo facto de fechar os olhos a uma realidade que está aí bem presente, que todos sentem, mas que têm receio de ser apelidados de políticamente incorrectos. Que é a tolerância cega a respeito da influência de outras culturas - crescente multiculturalismo na Europa.
    Esta política de desculpabilização, vem de certos sectores da designada esquerda; sociais-democracias e socialistas incluidos que têm desgovernado e descaracterizado a Europa.

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  5. Aqui está a frase que o amigo Folha sSca mencionou, como ele sublinhou perfeita para este seu post.

    «O que é mais difícil não é escrever muito; é dizer tudo, escrevendo pouco.»
    Júlio Dantas

    Lamento também o protagonismo que estão a dar a este criminoso.

    Bjos

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  6. Sinceramente, acho que é um louco perigoso! Como também penso o mesmo de fundamentalistas islâmicos ou de esquerda. Interessa pouco o que eles defendem, facto é que se acham tão acima dos outros, que a mortandade que causam à sua volta nem os toca e ainda se consideram "heróis"...

    E o Durão Barroso estar na sua lista como "perigoso marxista"? Se não fosse lamentável, até daria vontade de rir...

    Mas gostei do post, note-se! ;)

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  7. Vejo atitudes xenófobas e racistas crescerem de dia para dia. Vejo a extrema-direita a ganhar força. Ouço déspotas a mandarem postas de pescada, que o povinho quer ouvir e aplaudir (afinal de contas, tem de haver sempre um bode expiatório para a crise). E não consigo perceber como os políticos e as autoridades não estão alertas para este assunto. Até parece que já não nos lembramos de que há não muito tempo um "louco" de extrema-direita aliciou milhões de desempregados a cometerem o maior genocídio de sempre.

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  8. Sou contra toda e qualquer tipo de violência mas neste caso uma pena "à Americana" era o ideal. Acabava um monstro que o próprio pai disse que se devia ter suicidado.

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  9. Carol:
    Tentei comentar no seu blog, mas não consegui, porque não pude seleccionar o perfil de Anónimo que é o único que o Google me aceita em alguns blogs.
    Obrigado pela visita

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  10. Gostaria de deixar alguns comentrários a partes do seu texto que passo a citar:

    «Para uns é um fanático extremista. Para outros é um louco. Esta versão simplista da loucura, expressa nas palavras de Nuno Rogeiro de forma conclusiva e sem direito a contraditório é a que mais agrada à direita.»

    Para mim é simplesmente um terrorista, porque assassinou dezenas de pessoas. Tal como Bin Laden fez nos EUA a 11/09/2001 e a Al-Qaeda em Madrid a 11/03/2004 e pouco depois em Londres.
    Por outro prisma, são todos terroristas e são todos loucos. Só um louco ou loucos é que matam dezenas, centenas ou milhares de pessoas de forma planeada e fria. Ou seja são todos loucos e terroristas.
    Se o Nuno Rogeiro tem uma opinião diferente, foi a única até agora que ouvi nesse sentido.

    «A crise económica e financeira despoletada pelo capitalismo e alimentado pelas políticas ultra-liberais é um pasto excelente para fazer germinar ideologias xenófobas.»

    Não me parece. Até porque inspirando-me em Churchill, o capitalismo pode ser o pior sistema económico, se excluirmos todos os outros. Porque sem capitalismo pura em simplesmente não há produção de riqueza. Até os ortodoxos comunistas chineses perceberam isso.

    «De igual modo, a velha e relha Europa sempre tem sido mais tolerante com a xenofobia e a extrema-direita, do que com o islamismo ou a esquerda mais radical.»

    Discordo. Os partidos neo-nazis estão proibidos na Alemanha, mas os partidos de extrema-esquerda não estão.
    Em Portugal os partidos fascistas estão proibidos pela constituição, mas a extrema-esquerda, até há bem pouco tempo sentava quase 20% do total de deputados na Assembleia da República. E a situação no resto da Europa é parecida.

    Em geral na Europa, e em Portugal em particular, quem se diz de direita corre sempre o sério risco de ser apelidado de ser simpatizante da extrema-direita, de fascista ou mesmo de nazi.
    Mas quem é de esquerda, é visto como um indíviduo tolerante, democrata e com enormes preocupações sociais, como se isso fosse exclusivo da esquerda.

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