Praça Duque de Saldanha (Lisboa)Entro no Dolce Vita, no Atrium Saldanha ou no Saldanha Residence e pergunto-me: que valor acrescentado trouxeram aqueles centros comerciais a esta zona de Lisboa? Mais escritórios, comércio impessoal, restauração inóspita e standardizada, com nomes tresandando a globalização linguística e gastronómica. Perdeu-se um teatro e edifícios símbolo de uma época.
Olho para a fotografia e lembro-me do alfarrabista do Saldanha nos anos 60, onde era possível comprar, à socapa, livros que a Censura proibia. Foi lá que, com um grupo de amigos, comprei a trilogia do Henry Miller (Nexus, Plexus e Sexus) .
Foi lá que, dias depois da sua morte, “conheci" António Sérgio, personagem por quem me empolguei e me sensibilizou para o cooperativismo. Com um grupo de amigos criei a primeira cooperativa de que fiz parte. Tínhamos grandes planos que Marcello Caetano cortou cerces com a publicação do decreto-lei 520/71 que proibia as cooperativas de consumo de exercerem actividades culturais.
Olho para o Dolce Vita e lembro-me do Teatro Monumental, de Laura Alves e Palmira Bastos. Desço um pouco, pela Fontes Pereira de Melo e lembro-me de mim, puto, a beber informação à volta da mesa nas tertúlias do Monte Carlo, hoje substituído por uma loja da Zara.
O Monte Carlo era considerado por muitos “a catedral” dos cafés. Naquele imenso corredor cruzavam-se jornalistas, escritores, estudantes, actores de teatro e actrizes de revista, numa autêntica Babilónia. Havia muita gente que não ia ao Monte Carlo...vivia lá, desde manhã até à noite. Tertuliava, lia, comia, bebericava, jogava bilhar, damas ou xadrez, pregava partidas a partir de uma cabine telefónica que lá estava instalada ( ficou célebre a "estória" de alguém a chamar o Humberto Delgado ao telefone) e até cortava o cabelo!
Volto atrás, entro na Av da República e lembro-me da Colombo, rivalizando frente a frente com a Versaillles. Procuro valor acrescentado nos inóspitos centros comerciais que descaracterizaram o Saldanha e não encontro. Provavelmente estou mesmo a ficar velho e ainda não percebi…
Não. Não estás a ficar velho.
ResponderEliminarConcordo com tudo o que afirmaste.
Saldanha: QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ. :((
Trabalhei alguns anos na Andrade Corvo. Era só subir um bocadinho e lá estava eu a almoçar no Monte Carlo...
ResponderEliminarO Saldanha transformou-se num deserto, e então o Monumental nem se fala, se não fossem as salas de cinema estava morto.
ResponderEliminarEu preferia o bairro antigo mesmo sem conhecê-lo.Aquilo tudo ficou muito entulhado, além do trânsito meio caótico.
ResponderEliminare á noite o VÁVÁ... óh gosh
ResponderEliminarNão há volta a dar, Carlos: há uma Lisboa que todos os alfacinhas amavam que desapareceu inexoravelmente, vítima de interesses comerciais de empresários que apenas visam o lucro, que descaracterizaram certas zonas da cidade... :(
ResponderEliminarRosaamarela:
ResponderEliminarO Vává também é uma saudade, mas fica um bocado longe do Saldanha...