Terça-feira, 14 de Junho de 2011

Valor Acrescentado

Praça Duque de Saldanha (Lisboa)



Entro no Dolce Vita, no Atrium Saldanha ou no Saldanha Residence e pergunto-me: que valor acrescentado trouxeram aqueles centros comerciais a esta zona de Lisboa? Mais escritórios, comércio impessoal, restauração inóspita e standardizada, com nomes tresandando a globalização linguística e gastronómica. Perdeu-se um teatro e edifícios símbolo de uma época.

Olho para a fotografia e lembro-me do alfarrabista do Saldanha nos anos 60, onde era possível comprar, à socapa, livros que a Censura proibia. Foi lá que, com um grupo de amigos, comprei a trilogia do Henry Miller (Nexus, Plexus e Sexus) .

Foi lá que, dias depois da sua morte, “conheci" António Sérgio, personagem por quem me empolguei e me sensibilizou para o cooperativismo. Com um grupo de amigos criei a primeira cooperativa de que fiz parte. Tínhamos grandes planos que Marcello Caetano cortou cerces com a publicação do decreto-lei 520/71 que proibia as cooperativas de consumo de exercerem actividades culturais.

Olho para o Dolce Vita e lembro-me do Teatro Monumental, de Laura Alves e Palmira Bastos. Desço um pouco, pela Fontes Pereira de Melo e lembro-me de mim, puto, a beber informação à volta da mesa nas tertúlias do Monte Carlo, hoje substituído por uma loja da Zara.

O Monte Carlo era considerado por muitos “a catedral” dos cafés. Naquele imenso corredor cruzavam-se jornalistas, escritores, estudantes, actores de teatro e actrizes de revista, numa autêntica Babilónia. Havia muita gente que não ia ao Monte Carlo...vivia lá, desde manhã até à noite. Tertuliava, lia, comia, bebericava, jogava bilhar, damas ou xadrez, pregava partidas a partir de uma cabine telefónica que lá estava instalada ( ficou célebre a "estória" de alguém a chamar o Humberto Delgado ao telefone) e até cortava o cabelo!

Volto atrás, entro na Av da República e lembro-me da Colombo, rivalizando frente a frente com a Versaillles. Procuro valor acrescentado nos inóspitos centros comerciais que descaracterizaram o Saldanha e não encontro. Provavelmente estou mesmo a ficar velho e ainda não percebi…

7 comentários:

  1. Não. Não estás a ficar velho.
    Concordo com tudo o que afirmaste.

    Saldanha: QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ. :((

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  2. Trabalhei alguns anos na Andrade Corvo. Era só subir um bocadinho e lá estava eu a almoçar no Monte Carlo...

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  3. O Saldanha transformou-se num deserto, e então o Monumental nem se fala, se não fossem as salas de cinema estava morto.

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  4. Eu preferia o bairro antigo mesmo sem conhecê-lo.Aquilo tudo ficou muito entulhado, além do trânsito meio caótico.

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  5. Não há volta a dar, Carlos: há uma Lisboa que todos os alfacinhas amavam que desapareceu inexoravelmente, vítima de interesses comerciais de empresários que apenas visam o lucro, que descaracterizaram certas zonas da cidade... :(

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  6. Rosaamarela:
    O Vává também é uma saudade, mas fica um bocado longe do Saldanha...

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