Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

Uma manhã com vista para o mar




Princípio da tarde, estou a almoçar, toca o telemóvel. Não atendo. Dez minutos depois volta a tocar , vejo o número e hesito. Pode ser um pedido de trabalho, nos tempos que correm o melhor é atender.


- Podes ir amanhã a… fazer a cobertura desta apresentação? É um trabalho de duas horitas e ficas despachado.


O local agrada-me. O hotel onde decorrerá o evento fica perto do Rochedo, tem uma localização privilegiada junto ao mar e está um tempo excelente. O tema nem tanto. Aceito por amor à EDP, à GALP e a todos aqueles a quem tenho de pagar, no final de cada mês, os serviços que me prestam.


No dia seguinte, pontualmente, lá estou. Sou dos primeiros a chegar. Um acidente na A5 serve de justificação para quem está atrasado. Sento-me na esplanada a tomar um café. Na piscina há estrangeiras de biquíni a gozar o sol. Eu estou engravatado ( recomendação expressa do director ) e sinto-me como um esquimó no Equador.


As pessoas começam a chegar em catadupa. Entram corpos curvilíneos de jet set generosamente despidos e executivos barrigudos de fatinho e gravata. Olho para eles como se estivesse a mirar-me ao espelho e, descontada a barriga, imagino a minha figura ridícula.


Decorrem conversas animadas na esplanada, as pessoas bebericam cafés e bolinhos, não têm pressa de ir trabalhar. Olho para o relógio. O evento estava marcado para as 10, já passa das 11 e às duas da tarde tenho de estar em Lisboa a fazer uma entrevista que me custou muito concretizar.


São onze e vinte. Preguiçosamente, os corpos dirigem-se para uma sala sem janelas, onde decorrerá a apresentação. Às onze e meia começa a apresentação. Ao fim de 15 minutos já percebi o engodo. Fui atraído a uma "reunião de tupperwares". A diferença é que, no caso vertente, a anfitriã é uma empresa que pretende vender a outras empresas um equipamento tecnológico que, alegadamente, lhes irá permitir aumentar a rentabilidade e poupar em custos de pessoal ( apresentador dixit) .


Abandono a sala e ligo ao director da publicação


-“ Eh pá, isto é uma reunião de tupperwares! Metes-me em cada uma...


Ouço risos do outro lado do fio.


“ Olha, tira umas fotos escreve meia dúzia de linhas sobre o produto, faz duas perguntas ao Dr X e vem-te embora. Mas olha, esqueci-me de te dizer… no final tem almoço e olha que aí come-se bem”.


"Tenho de estar em Lisboa às duas, não tenho tempo para almoçar”.


“Faz como quiseres. Mas amanhã quero cá o trabalho, ok?”


“ Combinado”


Telefono a uma amiga a pedir ajuda.


“ Tens aqui uma coisa à tua medida. Vem ter comigo e traz a máquina fotográfica”.


A minha amiga chega, explico-lhe o que quero e saio por volta do meio dia e meia. Alguns dos executivos já se alambazavam com aperitivos, enquanto lançavam olhares lascivos às meninas generosamente despidas.


À porta do hotel, um parque de estacionamento de automóveis topo de gama. Alguns motoristas conversavam em surdina sobre a situação política. Ou seria futebol? Não faço a mínima ideia.


No caminho para Lisboa vim a pensar na produtiva manhã ( que se iria prolongar tarde dentro) de todos aqueles executivos.


Que se terá passado a seguir? Eu já sei, mas pedi à Brites que seja ela a contar-vos, porque assistiu a tudo. À minha custa, já tem crónica para escrever aqui no domingo.

6 comentários:

  1. Carlos
    Ainda há profissões que se exercem com gosto...
    Aguardo então pelo post da Brites.

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  2. Tenho a certeza que a Brites terá muuuuuuito que contar.....

    :)))

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  3. Aguardarei o relato da Brites.
    Pelo menos a paisagem agradou-lhe?? Não é essa sr. Carlos, não é essa!!! eheheheheh

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  4. Conheço bem o acabou de nos contar.Nos tempos em que eu trabalhava na área também fui atraída para armadilhas assim.Os hotéis aqui não tinham vista para o mar , mas sim para monumentais piscinas e o calor sempre escaldante.

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