sexta-feira, 17 de junho de 2011

Quebrar a rotina





Levantar. Mirar-se ao espelho e ver-se a envelhecer em cada dia. Tomar o pequeno almoço. Tomar banho. Escanhoar-se em cada três dias. Rumar ao metro, depois ao autocarro,somando minutos parado à espera do futuro.



Chegar ao emprego. Picar o ponto. Sair para tomar a bica. Ler as gordas dos jornais. Entrar no gabinete, cumprimentar os colegas, discutir as notícias da véspera. Sair pontualmente ao meio dia e trinta para debicar, em balcões assépticos, ou mesas cobertas de toalhas aos quadradinhos, guarnecidas com guardanapos de papel, a ração diária.

É um autómato manipulado pelo mundo da finança, da indústria, da abastança, mas julga-se livre.

Sai às 5 para ir buscar o filho que começou a ser programado aos cinco anos numa escola fast food. Para mandar ou obedecer, será o futuro a determinar a escolha. Passar pela tabacaria para fazer o totoloto, ou o Euromilhões. Voltar a casa, fazendo planos sobre o que faria se lhe saísse o primeiro prémio.

Ler o jornal esparramado no sofá, enquanto a mulher prepara o jantar e o puto se refugia no quarto para fazer os trabalhos de casa, entremeados com conversas no Facebook.Ver as cartas no correio que anunciam as datas precisas em que deve pagar a água, a luz, o telefone, o gás, a tv cabo,o seguro do automóvel, a prestação da casa,a mensalidade do colégio, as dívidas do cartão de crédito, o seguro da casa.

Ligar a Sport TV para assistir ao jogo do dia. Vibrar com vitórias e amolecer os desgostos das derrotas com doses reforçadas de cerveja.Discutir com a mulher, que quer ver a telenovela da TVI. Rumar à Internet para evitar discussões. Tomar a decisão de comprar mais um televisor a crédito para evitar conflitos conjugais. Falar de férias. De ilusões. De prestações vencidas. Adormecer fazendo contas à vida e esperar pela noite de sábado para fazer amor com a mulher que durante a semana não tem disposição para essas coisas.

Acordar ao toque do despertador, para começar mais um dia de direito à vida. Chegar ao emprego e ouvir o patrão dizer “vou fechar no fim do mês, estão todos despedidos, não consigo enfrentar a crise."
Voltar a casa e antes de adormecer dizer à mulher “ Estou com insónias. Vou ali fumar um cigarro”
Ela já não o ouviu, porque adormeceu exausta, acumulando o cansaço do trabalho com as lidas da casa.Vai à cozinha. Pega numa faca. Golpeia os pulsos e sente o cérebro fundir-se num momento de alegria. A mulher acorda a meio da noite, sente a falta do aconchego, levanta-se e encontra-o estendido no chão da cozinha. junto ao corpo inerte está um papel com umas garatujas: “Puta que pariu esta democracia!”

Chama o 112. Quando entra na ambulância, percebe-lhe nos lábios a palavra que há anos não lhe ouvia: "Amo-te" Retribui com uma lágrima escondida num sorriso esforçado.

Uma semana depois deixa o filho entregue aos cuidados de uma prima e vai à Igreja para assistir à missa do 7º dia. O celebrante diz que era um homem bom e generoso. Ela regressa a casa reconfortada, mas não convencida.



9 comentários:

  1. Se quebrarmos essa rotina, com que dinheiro se paga a conta do talho?

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  2. Tenho a certeza que a "solução" estará passará pela cabeça de muitos....

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  3. É uma história horrorosa. Infelizmente, imagino que seja muito frequente.

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  4. Quebrou a rotina dele e do agregado familiar, ao desistir; quebrar a rotina não é o mesmo de rotina quebrada.
    Olá, meu querido. :)

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  5. Aconteceu...a rotina quebrou-se um dia por motivos de saúde...Vida suspensa... aprendemos a Viver e não apenas a sobreviver. A dar Valor aos Momentos e às Pessoas. Tudo o resto...não interessa. Nada de desistir. Nunca!

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  6. Carlos
    Esta é a história do dia a dia de milhares de pessoas.
    Infelizmente a rotina destrói muita coisa boa que existe e por vezes as pessoas só no fim da destruição é que encontram solução para alterar...por vezes ir ver, ouvir, falar, gritar e ate chorar com o mar faz muito bem, eu faço isso transmite-me uma paz interior, é um dos melhores calmantes, por isso como diz a minha amiga Ariel a "solução" poderá estar na cabeça de cada um, atrevo-me a dizer na inteligência de cada um. Eu não suporto a rotina.
    Abraço

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  7. Um cobarde egoista. Resolveu o problema dele sem pensar que deixava a mulher e o filho numa situação desesperada. E ainda fez mais uma despesa, o funeral.

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  8. Não sei porquê mas, concordo com a Virgínia...
    A vida já não é o que era... o tempo bem como o dinheiro, não esticam. Há que ser resiliente, senão esta "Democracia" mata-nos a todos... ou quase. Realmente a vida na aldeia é ainda um desafogo, mas temos de ser pouco ambiciosos, para que tudo corra pelo melhor. Temos de nos contentar com menos... com pouco e mesmo assim...
    Gostei muito da sua escrita, Carlos!

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