Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

Falemos então de coisas sérias

Terminada a campanha eleitoral e escolhido o novo governo com o alto patrocínio do Bloco de Esquerda ( a quem, injustamente, Passos Coelho não agradeceu no seu discurso de vitória); confirmado que o nosso futuro PM está muito orgulhoso de ser capataz de um triunvirato coveiro da nossa independência nacional; constatada a alegria dos seus apoiantes na bloga e na comunicação social, que perderam o verniz e demonstraram o seu verdadeiro carácter troglodita, é altura de falar de coisas sérias.

Obviamente que, entre as coisas sérias, não cabe só a discussão política. Cabem também os erros que cometemos nos últimos 30 anos. Nas coisas sérias inclui-se a obrigação de falar de um povo que, obnubilado pelo hedonismo consumista, se demitiu de ser cidadão e discutir o modelo social onde queria viver, entregando o seu destino nas mãos da divina providência que, cansada de acudir a um povo ignaro, lhe voltou as costas. E fez muito bem!

Num regime democrático pelo qual a maioria não lutou, mas lhe foi oferecido de mão beijada pela generosidade de um grupo de civis e militares, que pagaram com a privação da liberdade ou até com a morte, o seu empenho em fazer de Portugal um país mais justo, os portugueses tiveram a oportunidade de construir um país melhor, mais solidário, menos mesquinho, onde as desigualdades fossem esbatidas, mas poucos quiseram lutar por isso...

Quando Cavaco acenou, em 1987, com a banana do consumismo e do endividamento barato, os portugueses empolgaram-se e correram para as lojas a saciar a sua sede de serem iguais aos restantes cidadãos europeus. Deslumbrados com a orgia dos bens matérias que se lhes ofereciam em montras, na televisão, ou na caixa de correio, os portugueses tornaram-se egoístas. Cada um procurou tratar da sua vidinha e preocupou-se mais em mostrar que tinha um automóvel melhor do que o do vizinho, do que em satisfazer as suas legítimas necessidades de consumo. Demitiu-se de exercer a cidadania.
Enquanto a sociedade do desperdício assentava arraiais, os portugueses pensavam ter enriquecido graças a um Totoloto colectivo que a todos contemplara e esqueciam a realidade social do país. Acreditaram que, através do voto, poderiam escolher governos que corrigissem os seus próprios erros. Fizeram orelhas moucas à esquerda que os avisava para as consequências e preferiram ouvir os cantos da sereia que os incitava a prosseguir na louca caminhada para a ruína. Por isso limitaram a escolha ao Bloco Central, esquecendo que a bipolaridade é uma doença maligna. Em vez de remédio para corrigir distorções sociais, o voto bipolar distorce as regras da concorrência e estimula a concertação de interesses entre um grupo hegemónico que vai trocando de cadeiras, mas nunca abandona o palco.

Dir-me-ão que a esquerda tem culpas no cartório e andou demasiado distraída durante todos estes anos. É verdade. Mas, sobre isso, escreverei amanhã.

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