quinta-feira, 12 de maio de 2011

O contrato

De regresso a Lisboa começo a perceber o erro do mensageiro que me deu esta notícia.


Fosse ele um consumidor atento, teria percebido que naquela noite de 3 de Maio, Sócrates se limitou a anunciar as linhas gerais do contrato que assinara com o FMI. Na verdade, todas aquelas mentiras que a imprensa andou a anunciar não estavam no contrato o que significava, de imediato, que desta vez não seriam apenas os funcionários públicos a pagar a crise.


Parece-me da mais elementar justiça que assim seja. Essa ideia de querer atirar para cima dos funcionários públicos as culpas da situação do país e fazê-los pagar por isso, é um bocado reaccionária e tem vista curta.


Se o meu mensageiro fosse um consumidor previdente, antes de me dar a notícia teria ido ler as letras pequeninas do contrato com o FMI e ter-me-ia de imediato avisado que eram aquelas cláusulas que ninguém lê, que nos iriam tramar.Hoje, com o contrato na mão, fui ler as cláusulas em letra miudinha e fiquei apavorado. O que aí vem é pior do que o PEC IV e determina a perda de soberania do nosso país.Entre as múltiplas cláusulas em letras pequeninas, houve uma que me eriçou os cabelos:
“ Até final de Julho o governo deve vender o BPN a qualquer preço”.


Todos sabemos que quem está disposto a vender a qualquer preço acaba por vender mal mas, o que mais me preocupa, é que isso abre a hipótese de os vigaristas amigos do professor Cavaco voltarem a comprar o banco por tuta e meia e, com mais meia dúzia de vigarices, encherem os bolsos do sr. Presidente e seus amigalhaços e voltarem a obrigar o Estado a intervir, utilizando o dinheiro dos contribuintes. Talvez seja esse o sentido da frase de Cavaco na comunicação ao país “Se não mudarmos…”
Pois, se não mudarmos lá se vão os lucros das acções, não é verdade, senhor Presidente?


Claro que há um conjunto de outras medidas que explicam bem o que é que a troika veio cá fazer. Privatizar é a palavra de ordem, o que obriga o Estado a abrir mão de empresas como a TAP, a REN ou a GALP e a vender o filet mignon de outras como a CGD ( a área dos seguros é muito cobiçada pelos agiotas) e as principais empresas de transportes. Isso vai reflectir-se – e de que maneira!- nos nossos bolsos, fazendo minguar os nossos salários, porque vamos pagar muito mais pela luz, gás ou transportes. Para já não falar nos impostos directos e indirectos, no aumento das despesas de saúde, etc.


Ora , ao que me parece, foi com estas cláusulas em letras pequeninas que o PSD e o CDS- amigos dos pobrezinhos que não sejam vigaristas e aceitem trabalhar a troco de salários de miséria- rejubilaram. Foram estas vitórias que eles reclamaram para si nas negociações.É disto que o professor Cavaco gosta.


Tudo ponderado, decidi não despedir o mensageiro que me deu estas notícias na manhã do dia 4 de Maio. Afinal, ele apenas seguiu o exemplo da maioria dos jornais. Arranjam uns títulos que distorcem o conteúdo das notícias e, como a maioria lê apenas as gordas nos escaparates, fazem passar mensagens erradas aos leitores.

2 comentários:

  1. Resumindo:
    Antigamente havia um Zé do Telhado que roubava aos ricos para dar aos pobres. Agora há uma quadrilha de Zés do Telhado a roubar aos pobres para dar aos ricos.

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  2. Carlos
    A tactica das letras pequeninas já é muito antiga. Muita gente se tem "lixado" por assinar sem ler tudo.
    O problema é que nós não assinámos e vamo-nos lixar na mesma.

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