quarta-feira, 18 de maio de 2011

Memórias do cinema (3)

O cinema foi a diversão favorita do século XX. Exibido inicialmente em barracões, salões de festas e teatros, o cinema respirou também ao ar livre, especialmente nos “drive-in”, muito apreciados pelos jovens americanos a partir dos anos 50, cujas memórias são quase indeléveis nos jovens portugueses.

País recatado nos costumes, o drive-in era encarado como antro de pecado, por isso o cinema sempre se viu em salas apropriadas para o efeito. Em Lisboa, o Salão Ideal abre as suas portas em 1904 e no Porto só três anos mais tarde (1907) surge a primeira sala de cinema: o Pathé.

As grandes salas de cinema que marcaram gerações ( S.Jorge, Tivoli, Império em Lisboa e Coliseu, Rivoli, ou S.João no Porto) só aparecem nos anos 30, com a exibição dos filmes sonoros. São salas imponentes onde vai gente de todas as classes sociais. No entanto, a segregação social é bem patente. Pela frequência, mas também pelas sessões destinadas a públicos estratificados. O sábado à noite, por exemplo, era o dia de a burguesia e a classe média alta se encontrarem e aproveitarem a oportunidade para exibir as suas toilettes nos foyers, durante os intervalos. As matinées”de domingo eram especialmente frequentadas por “magalas e sopeiras” (como se dizia na época), único momento de lazer que lhes era permitido durante a semana.

Nos anos 70 aparecem as primeiras salas “multiplex” e, na década seguinte, começam a proliferar os centros comerciais com salas de cinema acopladas. Começavam a surgir os primeiros sinais de crise na indústria cinematográfica, com a redução do tamanho das salas e o esvaziamento dos “monstros sagrados”. A televisão começara a fazer os seus estragos.

Hoje, quase toda a gente tem cinema em casa. Os equipamentos “home cinema” revelam bem a evolução dos comportamentos sociais: a cada um a sua medida, que o tempo é de prazer e cada um o deve gozar à sua maneira. Acabe-se com o convívio, essa manifestação ultrapassada de socialismo, e viva o individualismo ultra -liberal, mais consentâneo com os valores do progresso.Ir ao cinema "em grupo" passou a ser coisa de caretas, ver um filme em casa, passou a ser mais um exercício de isolamento, mas exemplo de modernidade.

( Continua)

2 comentários:

  1. Como me lembro bem de toda essa evolução...(excepto os anos 30, claro:)))
    Continuo contudo a não prescindir de ir ao cinema todas as semanas, de preferência com um ou dois amigos!
    Agradáveis estas tuas crónicas - é bom recordar!

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  2. E tudo o tempo levou, como recordo aqui as tardes em que a minha face reluzia com as cores reflectidas pela tela do Águia D'Ouro. O velho cinema há muito que morreu e agora está a transformar-se num hotel, mantendo pelo menos preservada a fachada e a memória.

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