Estou sentado no Rochedo, computador aberto à minha frente, pronto a iniciar o trabalho que não me apetece fazer. Toca o telemóvel. Do outro lado alguém pergunta. Sabes que dia é hoje? Não sabia…
A resposta- que não reproduzo- veio num tom de amuo.
Esclarecida a data, desligado o telemóvel depois de um pedido de desculpas, repousei o olhar no horizonte e aterrei em Bahia Blanca. Era lá que eu estava no dia 1 de Abril de 1996.
Quando nesse dia regressei ao hotel, tinha uma mensagem na recepção. Recebera um telefonema de Portugal e pediam-me que telefonasse com urgência ( em 1996 ainda não tinha telemóvel...) O telefonema era de uma jornalista amiga e pensei que se tratasse de uma encomenda de trabalho. Como naqueles tempos era um homem livre que vivia vagueando pelo hemisfério sul, alimentando o corpo e o espírito com trabalhos de circunstância, apressei-me a responder à chamada.
“ Tenho duas notícias para te dar. Uma é boa e outra má, vou começar pela boa. Ganhaste o prémio de jornalismo a que concorreste. Com a massa que vais receber, já sei que não vais regressar tão depressa!...”
-Quanto é?
-…
- Então fico por aqui pelo menos mais seis meses. Qual é a má notícia?
- Morreu o Mário Viegas...
Fiquei em silêncio por uns instantes. Depois quis saber pormenores da morte. Quando desliguei, “voei” até Macau onde o tinha visto pela última vez, num auditório repleto.Quando saí para jantar, não tinha fome. Devo ter trocado o “asado de tira”, ou o churrasco, por qualquer coisa mais leve mas, em memória do Mário, acompanhei a refeição com um belo tinto argentino. Se foi Lujan de Cuyo, Mendoza, Malbec, Chardonnay, Finca Anita ou Nicolas Zapata, não vos sei dizer, mas foi a minha forma de o homenagear.
* O episódio passou-se ao final da tarde de 1 de Abril, mas só hoje tive oportunidade de o passar a escrito.
Carlos
ResponderEliminarO seu post de hoje fez sentir-me mal. Aquela sensação de que é preciso morrer para ser reconhecido e de tempos a tempos ser recordado. No meu caso nem disso me lembrei.
O Mario Viegas, tanto nos conseguia fazer rir como chorar. Hoje fez-me chorar.
Tempo lixado em que a atenção que nos obrigam a dar a outras coisas, fazem-nos esquecer, outras tão importantes.
Era simplesmente genial. Obrigada por o recordar qui.
ResponderEliminarO saudoso e genial Mário Viegas que foi meu colega no Liceu de Santarém!
ResponderEliminarAbraço
Amigo Carlos, tenho saudades do Mário Viegas...
ResponderEliminarBeijinhos e bom fim de semana.
Olá Carlos.
ResponderEliminarComo já te disse, passo muito tempo no teu Rochedo. Leio, aprecio, recolho muita informação, mas nem sempre comento.
Hoje, não podia deixar de o fazer.
Para já, dar-te os parabéns ( com 15 anos de atraso) por esse Prémio de Jornalismo, merecidamente ganho.
E, sobretudo, pela memória que trouxeste dessa força da Natureza que foi Mário Viegas.
Grande declamador e homem de ideais fortes e convictos.
Que pena a nossa memória colectiva ser tão curta...
Beijinhos
Janita
Meu Caro C arlos Barbosa de Oliveira,
ResponderEliminarrecordo especialmente três pequenas peças de Beckett que ele protagonizou no S. Luís, por me ter inicialmente parecido um Autor pouco compatível com o registo mais habitual de Mário Viegas.
Hoje, à distância, crescentemente me apercebo da coerência e criatividade daquelas opções.
Abraço
Um Declamador como não haverá mais nenhum.
ResponderEliminarLembro-me de ser novinha e dar um programa no Canal2, no qual ele declamava poesia, prosa.
Outros tempos!
Bem lembrado! Que saudade deixa...em tantas frentes. Lembro-me especialmente do humor...original. :)
ResponderEliminarO tempo passa tão depressa! Mas é sempre bom recordar Mário Viegas... :)
ResponderEliminarCarlos
ResponderEliminarFiz link
Deculpe "qualquer coisinha".