segunda-feira, 25 de abril de 2011

Parábola da democracia

Então uns senhores vieram à varanda e anunciaram à multidão: - A partir de hoje vocês passam a ter direitos, porque vivemos em democracia. O povo ululante e feliz gritou, bailou, pulou, riu, chorou de alegria, agradeceu e cantou “agora, o Povo unido nunca mais será vencido!”.

O tempo foi passando. A euforia esmorecendo. O riso esmaecendo. As gaivotas deixaram de voar . As rosas deixaram de florir. Foi então que apareceu na Figueira da Foz um senhor com que prometia a todos frigoríficos e máquinas de lavar se votassem nele. O povo votou, sorriu feliz e agradeceu os direitos que o senhor lhes garantia: automóveis, vídeos, telemóveis, férias nas Caraíbas.

O povo andava eufórico. Empunhando uma varinha de condão corria para os bancos a pedir dinheiro . Endividava-se e consumia. Gastava o que não tinha, na ilusão de que tudo lhe era oferecido. Entretido com a Internet e o prazer de consumir, o povo adormeceu. Deixou de pensar. Deixou de agir. Ficou à espera que os senhores voltassem a assomar às janelas para lhe dar mais direitos. Esperou… Esperou… Esperou… mas os senhores nunca mais apareceram. Mandaram uns emissários a dizer que afinal o povo deixava de ter direitos e que teria de pagar a festa.

Foi então que o povo acordou. Mas era tarde. Já estava anestesiado. Então o povo lamentou-se. Da euforia passou à depressão. Já nem força teve para voltar à rua e exigir explicações. Adormecido, voltou a eleger o senhor que 25 anos antes lhes prometera frigoríficos.

Um dia percebeu que não tinha mais direitos, que não fossem o de trabalhar de sol a sol, recebendo salários de míngua, para pagar o preço da sua vaidade. No dia em que o povo morreu, ninguém teve pena dele. Era apenas uma caricatura.






8 comentários:

  1. A fábula é verdadeira, mas o povo já compreendeu a moral da história e ainda está a tempo de seguir outro caminho!!!

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  2. Achas que poderíamos ter dito que não queríamos a globalização?
    Achas que nos ouviriam se gritássemos que não queríamos que os ricos fugissem aos impostos colocando os seus dinheiros em Off-shores?
    Achas que não gritámos suficientemente alto quando pedimos todos os dias Justiça pelos culpados que sendo condenados todos os dias vão para casa com as pernas suspensas?
    Não amigo! O Povo nunca foi realmente ouvido nem mais quando parece que o seu voto teve força e poder. Os seus eleitos fazem sempre o que os poderosos querem. A prova está no que acontece todos os dias nas Bolsas de Valores do Mundo inteiro.

    Nós continuamos a ser o rebanho que lhes dá tudo e não recebe nada a não ser o pasto que a Natureza espalha aleatoriamente pelo Planeta Terra e até esse mal distribuído como todos sabemos.

    Abraços

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  3. Se por um lado acho a sua parábola certeira para alguns, por outro lado, como não me revejo neste povo vaidoso e eufórico, sinto que o povo não morreu.
    Há ainda um povo que trabalha, luta e tenta mostrar que ainda tem forças para mudar o final desta história.

    Bjos

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  4. Acredito que muito povo se deixou anestesiar, deslumbrado com essas falsas promessas. Mas nunca é tarde para abrir os olhos!

    Tenhamos esperança, Carlos!

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  5. Nas fábulas, metáforas e parábolas minhas o povo não morre. Ele é o heroi ou a grande parte dele o é, ainda que a parte mais visivel dele seja vilão... Quase gostava da parábola, não fosse a generalização e a caricatura da parte final...

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  6. Carlos!

    Torço para um final diferente do final desta tua "Parábola". Mas torço que esta fique eternizada, para que ninguém esqueça qual o final que estava programado se ninguém fizesse nada. E abril de 74 mostrou como se pode fazer...

    Feliz dia, Portugal!

    Beijos

    Carla

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  7. Carlos,
    Só o senhor que apareceu na Figueira é que vendeu ilusões?
    Foi ele o grande culpado, talvez o único, do que se está a passar?
    Por favor!!
    E olhe que o senhor que apareceu na Figueira não me é particularmente simpático, não me deve nada, nem eu lhe devo nada a ele.

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  8. Podem elucidar uma portuguesa ignorante quem é esse senhor que apareceu na Figueira a vender ilusões?

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