sexta-feira, 29 de abril de 2011

Jaquinzinhos





Ele estava apaixonado por ela mas, cada vez que iam a um restaurante, sentia-se constrangido. Ela era vegetariana e ele um bom garfo, apreciador das coisas boas que a Mãe Natureza – alegava ele- tinha posto a circular no Universo, para gáudio dos estômagos humanos.

No início da relação ele procurara disfarçar o prazer da mesa, pedindo coisas simples e leves que sempre o deixavam com uma sensação de fome que aplacava na cama em voluptuosas noites de amor.A relação foi evoluindo, tornou-se mais aberta, até que um dia, quando celebravam um ano de namoro, apeteceu-lhe pedir uns belos rojões à minhota que o namoravam na lista cheia de iguarias tentadoras que lhe atiçavam o palato.

Prescindiu dos rojões, do arroz de pato anunciado como especialidade da casa, do polvo à lagareiro e de outros manjares igualmente apetecíveis, mas não resistiu ao apelo de uns jaquinzinhos acompanhados de um arroz de grelos malandrinho.

Estávamos em Maio, mês em que os jaquinzinhos são mais exuberantes na sua pequenez mas, antes de fazer o pedido, pediu ao empregado o certificado que justificasse o apelido dos peixinhos. Pressentiu o olhar reprovador da companheira, mas sentiu-se no direito de celebrar a data com algo que o satisfizesse mais do que uma pasta ou uns cogumelos gigantes recheados com beringelas.

Quando a travessa cheia de jaquinzinhos honrando o nome aterrou na mesa, começou a salivar. Ela olhou-o com desdém e disse:

-Pobres bichinhos! Como é possível gostares disso? Esses animais nem tiveram direito a viver…

Ele pegou-lhe na mão e respondeu:

- Minha querida! Sempre é melhor que eles acabem no meu estômago, do que intoxicados por um derrame de petróleo provocado pela BP, não achas?

Ela não achou graça. Ele olhou para a travessa e viu um jaquinzinho piscar-lhe o olho em sinal de aprovação.

Nessa noite, quando fizeram amor, ele não ouviu o estralejar de foguetes.


Seis meses depois, no mesmo restaurante, celebrava a data com outra namorada. Ele comeu rojões à minhota e ela afiambrou-se com um pernil. Acompanharam com uma garrafa de Quinta de La Rosa Depois fizeram amor de empreitada mas, passados alguns minutos, cada um dormia para seu lado.

No dia seguinte, ele telefonou à antiga namorada.

-“ Posso convidar-te para jantar? Prometo que só como um “spaguetti al vongole”

Ela aceitou. Já os primeiros raios de sol dardejavam a janela do quarto quando adormeceram. Lá fora estralejavam foguetes.

12 comentários:

  1. É uma estória real? No passado eu fui vegetariano e tive uma namorada que não o era e nem sequer tolerava a minha dieta. Por isso...a relação acabou. Actualmente já não sou vegetariano e a minha actual namorada também não o é. No entanto costumamos ir a restaurantes vegetarianos. Curioso, não????

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  2. Caro Carlos, comi-os na quarta-feira ao almoço, numa esplanada em Alcochete. Só que acompanhados por uma açordinha de bacalhau. Que bons que estavam e que bem me souberam.

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  3. Adoro jaquinzinhos e a história está muito bem engendrada!
    Entendemo-nos melhor com os que são diferentes de nós!

    Abraço

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  4. Conclusão:
    Mais vale uma beringela a estralejar do que um pernil a roncar ;)
    Adorei o seu texto e fiquei a salivar com a ementa de Jaquinzinhos :))

    Bjos

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  5. Penso que este post só vem ilustrar e confirmar o último post do Rogério Pereira!!! :))))) dêem-me um bom peixinho grelhado any day!!

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  6. Benditos jaquinzinhos que fazem o céu parecer que é São João no Porto! Agora, me explica esse "amor de empreitada", que esta pra mim é nova.

    Bom fim de semana, Carlos.

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  7. O Homem e as suas contradições... :)))

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  8. Vamos?
    Vamos lá?
    Vamos comer todo o peixe do mundo?
    Antes que chegue mais petróleo, imundo...

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  9. Olhe que o problema estava no grelo, tivesse ele ido pelo tomate, arrozinho dele, igualmente malandrinho, e as consequências teriam sido diferentes, já que ninguém resiste aos jaquinzinhos, foi do grelo, foi do grelo.

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  10. Interessante e engraçada a estória.

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  11. Muito bom!!! Nada como encontrar o meio termo..rss...

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