sexta-feira, 15 de abril de 2011

Assédio(s)


Ele ainda não tinha 30 anos quando entrou para a empresa. Trabalhava a recibo verde, como a maioria dos jovens da geração global. Ao fim de seis meses, o seu chefe reformou-se e foi substituído por uma senhora. Já tinha ultrapassado há muito os 40, mas mantinha-se vistosa, provocando torcicolos aos homens com quem se cruzava nos corredores.

Ele, com casamento aprazado para o final daquele ano, também não resistia a um olhar furtivo, que a sua condição de subordinado impunha. Quando ela o chamava ao gabinete para discutir qualquer assunto de trabalho, a sua pele clara não conseguia disfarçar o rubor da face, animada pela visão daquele corpo bem torneado, aprisionado num vestido justo que deixava a descoberto uma belíssimo par de pernas.

Numa solarenga manhã de Março ela chamou-o ao gabinete. A discussão em torno de uma questão contabilística foi-se arrastando até ao princípio da tarde. Ela olhou para o relógio e propôs que continuassem a discussão ao almoço num restaurante próximo. Embaraçado, disse que combinara almoçar com a namorada, mas se fosse necessário desmarcava o almoço. Ela concordou que seria a melhor solução.

Durante o almoço não falaram de trabalho. Ela inundou-o de perguntas sobre a sua relação com a namorada, advertiu-o para o facto de ainda ser muito jovem para se comprometer e lembrou-lhe que, trabalhando a recibo verde, não tinha uma situação estável. Talvez devesse pensar melhor, sugeriu.

“ Não consigo esperar mais”- respondeu ele. “Namoramos há tempo demais, precisamos de nos casar e fazer a nossa vida. Queremos ter filhos…”

“Má ideia”- respondeu ela com um sorriso enigmático. “Vivam primeiro um tempo juntos e quando você tiver uma vida mais estável pensem nisso”.

“Isso está fora de hipótese. A família dela nunca lhe perdoaria se ela saísse de casa para ir viver comigo.”

A conversa ficou por ali. Ela pagou o almoço com o cartão da empresa e regressaram ao trabalho para terminar a discussão interrompida ao final da manhã. No dia seguinte ele pressentiu-a mal humorada e algo distante mas, dois dias depois, tudo voltara à normalidade. Na semana seguinte recusou polidamente o convite para almoçar, alegando ter de levar o pai a uma consulta. Nos dois meses que se seguiram teve que recorrer à imaginação para se furtar a novos convites. Entretanto, conseguiu apurar que ela era casada e tinha dois filhos, um dos quais da sua idade. A notícia deixou-o mais descansado. As investidas teriam tendência a diminuir.

Na véspera de partir para uma semana de férias estava em casa a ultimar os preparativos, quando o telefone tocou. Era ela. Estava ainda a trabalhar na empresa e tinham-lhe surgido umas dúvidas sobre uns papéis. Reclamava a sua presença. Contrariado, ele foi.

Ela recebeu-o com um copo de whisky na mão e ele percebeu, na sua voz arrastada, sinais de embriaguez.

“Então que se passa, doutora?”

Sem dizer uma palavra, ela pousou o copo em cima da secretária, lançou-lhe os braços em volta do pescoço e beijou-o de forma arrebatada. Ele não ofereceu resistência. Sentia-se inebriado pelo perfume que exalava do corpo dela. Começou a despi-la. Primeiro lentamente mas, à medida que o vestido lhe descobria o corpo, deixando entrever um seio nu, acelerou a tarefa ao ritmo do batimento cardíaco. Olhou para ela, completamente nua, deitada no sofá do gabinete onde costumavam trabalhar, e pensou por um momento como tinha sido parvo em resistir-lhe. Afinal ela era casada, nunca lhe iria causar problemas. Quando finalmente a tomou nos braços e começou a beijar-lhe o bico dos seios, não reparou que ela mordia os lábios de onde se escapava um breve sorriso de vitória.

Eram três da manhã quando ela o convenceu a ir para casa. Despediram-se num beijo prolongado. Ele saiu primeiro. Meteu-se no carro e acelerou em direcção a casa. Custou-lhe a adormecer. Aquele corpo magnífico não lhe saía da cabeça. No dia seguinte, no aeroporto, lê na manchete de um jornal :

“Aumenta o número de mulheres vítimas de assédio sexual.”

Sorriu e dirigiu-se para o balcão do "check-in"


( Republicação)

11 comentários:

  1. Muito bom.
    É obvio que maioritáriamente são as mulheres as maiores vitimas de assédio sexual, visto que o Poder é esmagadoramente masculino. Aqui quem tem o Poder é ela.... o assédio sexual é uma forma de Poder, entre outras, e não é novo, é dos livros.

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  2. Entre o assédio sexual e o psicológico, venha o Diabo e escolha, como se costuma dizer.

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  3. Nesta história o assediado também teve prazer de fazer amor com uma mulher mais velha, mas ainda de boa forma!!!

    Nós, mulheres, quando somos asssediadas, não temos sempre a sorte, de o ser por um homem um pouco mais velho, mas ainda com uma certo charme.
    Geralmente, somos assediadas por homens velhos, gordos e...

    Falou a feminista em mim!!!

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  4. Vou comentar apenas o texto, senão ia-me alongar no tema... Adorei o texto, muito bom mesmo Carlos, quase que ficamos expectantes quanto a possíveis novos capítulos... aqueles em que ele se arrepende amargamente, passados ums meses, e depois ela lhe arruina a carreia... not so cool then...I wonder if he'd keep on smiling then...

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  5. Mesmo com essas excepções(a do filme também) ainda continua a aumentar o número de mulheres vítimas de assédio sexual!
    (Acabei de ler a tua crónica "Comprar, deitar fora, comprar novo" na TempoLivre e foi reconfortante ler um texto que fala de posições que são também muito minhas, escrito em tons nostálgicos, didácticos e irónicos q.b.:))).Excelente!)

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  6. Tenho de reconhecer que só tive chefas que eram umas tansinhas!

    Depois de ler estes textos ainda fico mais babado com os seus comentários nos meus textos. Você é um mestre!

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  7. emajoteca, eu sou gordo mas ainda não velho. LOL. brincadeira :)

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  8. O poder não tem sexo...
    E para manter o paradigma que tal se a estória bem contada fosse ajustada? Se em vez duma bela, com saia justa como ela, fosse um executivo engravatado, bem instalado e...homossexual. Que tal?

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  9. Isto remete-me assim imediatamente para uma simples questão: Mas o pessoal vai para os trabalhos para produzir ou para fazer telenovelas? Pois é, por isso é que depois há baixa produtividade...

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  10. E o que é que aconteceu a seguir?

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  11. CARLOS, eu assisti esse filme.É bastante envolvente.

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