quarta-feira, 16 de março de 2011

Pontapé de saída para o 25 de Abril

“Os muitos nortenhos que no fim de semana avançaram sobre Lisboa, sonhando com a vitória, acabaram por se retirar desiludidos com a derrota. O adversário da capital, mais bem apetrechado ( sobretudo bem informado da sua estratégia), fez abortar os intentos dos homens do Norte. Mas parafraseando um astuto comandante, perdeu-se uma batalha mas não se perdeu a guerra”
Quem escreveu isto foi o meu amigo Eugénio Alves, no “República”, no dia 17 de Março de 1974, num relato da vitória do Sporting sobre o Porto em Alvalade (2-0).
Mas com este naco de prosa, o Eugénio não estava propriamente a escrever sobre um jogo de futebol. Escrevia sobre o golpe das Caldas, que ocorrera na véspera e a Censura proibira de comentar.
A tentativa de golpe de 16 de Março, que ficou conhecido como "golpe das Caldas", acabou por constituir um ensaio para o 25 de Abril, um mês depois, como muitos saberão.
Este exemplo que aqui vos trago hoje serve para assinalar não só o dia, mas também para lembrar a alguns patuscos que passam a vida a reclamar contra a falta de liberdade de expressão, como era difícil ser jornalista na época. Apesar de tudo, podiam dizer-se as coisas nas entrelinhas, se para tanto se tivesse engenho e arte. Como o Eugénio.

4 comentários:

  1. Tenho uma fraca memória para datas. Já aconteceu muitas vezes só me lembrar do meu aniversário quando alguém me dá os parabéns.
    Mas há acontecimentos que recordo bem. Em poucos dias foi o meu caro que me lembrou 2 acontecimentos marcantes na minha vida. O 11 De Março e agora o 16 de Março.
    Nessa altura era um jovem operário vidreiro. Nesse mesmo dia encetámos uma greve contra os salários de miséria praticados na altura. Chegaram notícias das Caldas da Rainha. Sentiu-se que algo estava a mudar. Não sei se a nossa capacidade de resistir à ofensiva repressiva que então se verificou não foi reforçada pelo acontecimento que hoje recorda. Na verdade, foi a maior vitória em termos reivindicativos que vivi.
    Obrigado pela lembrança.

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  2. Era preciso muita arte e engenho para se "enganar" quem não queria, nem deixava ser enganado.
    16 de Março de 1974, deve ter sido a altura da minha concepção (talvez quem sabe no rescaldo das Caldas) eheheheheh.

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  3. Não se arranja o texto ntegral da Crónica?
    Nesta altura o autor merece!
    E.Dias

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  4. Na época não era mesmo nada fácil ser-se jornalista e difundir os acontecimentos a um país amordaçado. Havia de facto muita arte e engenho, tal como lembras na prosa de Eugénio Alves. Mas nos tempos actuais os patuscos não entenderiam que isso de se utilizar "os Nortenhos" já não dá para camuflar uma noticia. :)

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