terça-feira, 15 de março de 2011

Mulheres do Mundo (6)

Naomi Klein

Os movimentos populares no Egipto, Tunísia ou Líbia serão genuínos, ou algo se esconde por detrás deles? A Mulher de que vos falo hoje, talvez ajude a encontrar a resposta.
Nascida em Montreal, em 1970, a jornalista e escritora Naomi Klein é actualmente uma das figuras mais destacadas da esquerda canadense e norte-americana. Mas nem sempre foi assim…Filha de um casal de esquerda, activista contra a guerra do Vetname, Naomi desdenhava a herança dos pais. Crítica feroz do feminismo materno, era uma adolescente coquette que gostava de passar os dias diante do espelho a maquilhar-se e a experimentar roupa.
Quando concluiu o liceu, a mãe sofreu um acidente cardio-vascular. Ficou temporariamente tetraplégica e Naomi ficou à sua cabeceira durante seis meses. Já na Universidade de Toronto, onde estudava Ciências Políticas e Jornalismo,um episódio ocorrido na Escola Politécnica de Montreal iria marcá-la:
Um tresloucado matou a tiro 14 mulheres, enquanto proclamava: “Odeio feministas”.
Conheci-a em 1997, quando era jornalista no diário canadiano “The Globe and Mail”. Militante anti-globalização, conhecida pelas suas fortes críticas ao modelo de desenvolvimento que preconizava a inevitabilidade de capitalismo e democracia andarem de mãos dadas, Naomi Klein preparava já o seu primeiro livro “No Logo”: a Tirania das Marcas – uma azeda crítica à sociedade de consumo e um feroz ataque à globalização. O livro viria a ser publicado em 1999 e, desde então, a jornalista licenciada em Ciências Políticas na Universidade de Toronto, passou a ser convidada para fazer palestras em todo o mundo, perante plateias atentas à sua mensagem.
Em 2004, produz com o marido um fabuloso documentário sobre a Argentina depois do dramático Corralito, que culminou no colapso económico do país. Filmado nos subúrbios de Buenos Aires, “ The Take” narra a história de luta dos trabalhadores porteños para manterem em actividade as empresas encerradas pelos patrões. Centrado nas teias burocráticas e nos entraves levantados pela justiça argentina, que um grupo de operários teve de enfrentar para salvar a empresa onde trabalhava, constituindo uma cooperativa operária, “The Take” é um documento histórico de uma época negra da pátria azul-celeste.
É porém, em 2007, após a publicação de “A doutrina de Choque” que Naomi Klein se torna mais conhecida. O livro desmonta a teoria da Escola de Chicago e de Milton Friedman, que advogava a supressão de todas as medidas do Estado destinadas a proteger os consumidores das lógicas dos mercados. Parece uma profecia da crise económica e financeira que se anuncia e entusiasma de tal modo o realizador mexicano Alfonso Cuarón, que ele realiza gratuitamente um anúncio para a promoção do livro nas televisões.
Quando a crise rebenta, as atenções voltam-se para o que Naomi escrevera:
“ Muitas das mais infames violações dos direitos humanos foram cometidas quer com o objectivo de aterrorizar a população, quer de preparar a introdução de reformas radicais , sempre no sentido de promover a livre concorrência”.
Na opinião de Klein, “ as populações só podem aceitar tais reformas se estiverem em estado de choque, a sair de uma crise, catástrofe natural,atentado ou guerra (…) e se as catástrofes naturais são difíceis de forjar, os golpes de Estado e os ataques terroristas são fabricáveis a qualquer momento”.
Duas razões me levaram a escolher Naomi Klein no dia de hoje. Por um lado, porque se comemora o Dia Mundial dos Direitos dos Consumidores” e , por outro, porque o livro de Naomi Klein nos permite perceber melhor os movimentos de contestação na Tunísia, Egipto ou Líbia. Nem tudo o que parece evidente, à luz da imprensa comandada a partir da Casa Branca é verdadeiro. Por detrás de manifestações populares, rotuladas de lutas pela democracia, esconde-se, não raras vezes, a mão invisível do capitalismo selvagem.Obama, ainda que tardiamente, parece ter percebido isso.

12 comentários:

  1. Não conhecia. é de facto estranho como de repente de deixou de falar do Egipto, Tunisia, e na Líbia estão a deixar o povo ser massacrado pelo louco...

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  2. Existem pessoas que mostram as verdades que alguns pretendem esconder a todo o custo para mais e melhor oprimir o povo.

    Nada acontece por acaso mas tambem muitas pessoas não se dão ao trabalho de pensar e de fazer somas equilibradas e prudentes...

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  3. Obrigada pela partilha. Desconhecia esta personalidade. Quanto mais ignorante for o Povo mais facilmente é levado a "fazer" o que o Poder instituido quer...

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  4. Escolha perfeita para o dia de hoje...que é um dia que me assusta um pouco.Numa época em que devemos diminuir o consumo tem gente ainda comemorando essa prática que perdeu as estribeiras.

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  5. Carlos
    Um dia quando se falar na blogosfera( e isso já tiver passado à história) certamente que um qualquer "Carlos Barbosa de Oliveira" vai perceber que muita gente teve acesso por este meio a personagens que doutra forma não teria. A imprensa "comercial" pouco disto faz.
    Obrigado por aquilo e aqueles que nos vai dando a conhecer.

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  6. Gostei de saber sobre esta mulher . Gostaria de ler um de seus livros.
    com carinho MOnica

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  7. Já ganhei o meu dia com esta sua partilha.
    Tanta coisa que desconheço, felizmente que existem blogues como o seu, só nos elevam culturalmente.
    Obrigada!
    Bjs

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  8. Desconhecia completamente. Como esta existem muitas que não chegaremos a saber, pois assim o convém a muitos outros. Obrigado pela partilha.
    Abraço

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  9. Sem dúvida. Tenho o DVD do documentário e o livro, por sinal ambos comprados na Amazon que agora me causa alguns engulhos depois do boicote à Assange.

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  10. Não conhecia a jornalista e escritora. Apesar dos pesares, ainda há quem nos abra os olhos e chame "os bois pelos nomes"...

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  11. Gosto muito desta etiqueta! Dás-nos a conhecer pessoas fantásticas de quem pouco ou nada se fala!
    Obrigada :)

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