
Uma noite de sábado tem de ser vivida a cada momento. Antes de chegar ao fim, é importante saborear os entretantos. É o que se passa com este longo post. O propósito é a audição de uma música mas, antes de lá chegar, há uma longa história que justifica a escolha. Se tiverem paciência para ler o post, acredito que apreciem melhor a proposta musical que hoje vos faço.
Outubro de 1968. Os meus primos brasileiros anunciam que em Dezembro virão pela primeira vez a Portugal e…à Europa ( Esta ideia de que Portugal está desvinculado da Europa colou-se como um anátema na pele dos brasileiros e ainda hoje permanece, mas isso são contas de um outro rosário…) Entusiasmados com a revolução francesa protagonizada por Cohn Bendit, atraídos pelos ventos de mudança que sopravam da Europa, os meus primos decidiram que aquela seria a altura apropriada para rever os tios e conhecer aqueles primos farruscas de que apenas tinham notícia em fotografias de circunstância. Mas, o objectivo primeiro, era mesmo partir à descoberta da Europa, onde uma revolução de costumes, com epicentro em Paris e Londres, despertava a curiosidade do mundo inteiro.
Os meus primos eram jovens entre os 24 e os 28 anos, muito mais velhos do que eu, ainda um teenager acabado de entrar na Faculdade de Direito, cheio de sonhos e de revoltas, com o sangue acorrentado nas veias de uma educação severa e tradicional.
No dia 1 de Dezembro , poucas horas depois de aterrarem em Lisboa, comunicavam aos primos que os foram esperar o seu roteiro de viagem.
Entre os 20 e os 50 anos , para quem gosta de viajar, os dias têm 48 horas e dormir é um desperdício de tempo. Os meus primos tinham traçado, por isso, nesta primeira viagem à Europa que duraria 45 dias, um ambicioso programa cultural diurno e …nocturno.
Outubro de 1968. Os meus primos brasileiros anunciam que em Dezembro virão pela primeira vez a Portugal e…à Europa ( Esta ideia de que Portugal está desvinculado da Europa colou-se como um anátema na pele dos brasileiros e ainda hoje permanece, mas isso são contas de um outro rosário…) Entusiasmados com a revolução francesa protagonizada por Cohn Bendit, atraídos pelos ventos de mudança que sopravam da Europa, os meus primos decidiram que aquela seria a altura apropriada para rever os tios e conhecer aqueles primos farruscas de que apenas tinham notícia em fotografias de circunstância. Mas, o objectivo primeiro, era mesmo partir à descoberta da Europa, onde uma revolução de costumes, com epicentro em Paris e Londres, despertava a curiosidade do mundo inteiro.
Os meus primos eram jovens entre os 24 e os 28 anos, muito mais velhos do que eu, ainda um teenager acabado de entrar na Faculdade de Direito, cheio de sonhos e de revoltas, com o sangue acorrentado nas veias de uma educação severa e tradicional.
No dia 1 de Dezembro , poucas horas depois de aterrarem em Lisboa, comunicavam aos primos que os foram esperar o seu roteiro de viagem.
Entre os 20 e os 50 anos , para quem gosta de viajar, os dias têm 48 horas e dormir é um desperdício de tempo. Os meus primos tinham traçado, por isso, nesta primeira viagem à Europa que duraria 45 dias, um ambicioso programa cultural diurno e …nocturno.
Deixemos os Louvres e os Prados para as suas memórias e atenhamo-nos na sua variada programação nocturna onde se incluiam, entre outros, o Follies Bergère, o Crazy Horse, o Cavern e… o Maxime.
A conversa decorria no lounge do Hotel Tivoli e quando os meus primos souberam que o Maxime ficava apenas a dois passos, propuseram uma ida imediata àquela casa carismática da noite lisboeta, cuja fama atravessara fronteiras e se expandira para além do Atlântico.
A custo foram demovidos da ideia. Para entrar no Maxime era preciso ir trajado a rigor e nenhum dos primos respeitava , naquele momento, os cânones paramentais requisitados para a entrada naquele templo de luxúria.
À época, o Maxime era, para mim, um local inacessível. Tive de recorrer aos bons ofícios do meu pai para poder acompanhar os meus primos. Apostado em agradar aos sobrinhos, aconchegou-me o bolso com umas notas fartas.
No dia aprazado fomos jantar ao Leão d’Ouro. Enquanto os meus primos saboreavam calmamente o jantar e teciam rasgados elogios à gastronomia portuguesa, eu olhava insistentemente para o relógio .
Quando cruzei pela primeira vez aquela porta da Praça da Alegria, paredes meias com o Parque Mayer, foi o deslumbramento. Duas orquestras, grupos de bailarinas com corpos esculpidos a cinzel, evoluindo ininterruptamente num palco feericamente iluminado pelas cores do arco-íris, um público entusiasmado, gente com glamour. Foi uma noite memorável que só viria a repetir , anos mais tarde, em vindas esporádicas a Portugal.
Com o tempo, o Maxime foi perdendo as suas características. Virou bar de alterne, noite de luxúria para magnatas do cimento e jogadores de futebol, seduzidos pelos belos corpos de ucranianas generosamente despidas.
Quando o Maxime reabriu, numa aposta do Manuel João Vieira para recuperar o velho templo da Praça da Alegria, planeei várias vezes voltar lá. Acabou por nunca acontecer. Fui lá várias vezes, mas apenas em fins de tarde para apresentação de livros.
No último sábado, o Maxime encerrou novamente. Fechou-se mais um espaço da Praça da Alegria , cada vez mais triste e soturna, depois do incêndio no Hot Clube e do desaparecimento do Ritz Clube. Tive pena. Foi como se partisse um amigo a quem não tive oportunidade de dizer o último adeus.
Foi a pensar em tudo isto que escolhi esta canção para as Saturday Nights ("on the rock") Espero que vos agrade e, quando terminarem, saiam de casa para curtir a noite. Valeu?
A conversa decorria no lounge do Hotel Tivoli e quando os meus primos souberam que o Maxime ficava apenas a dois passos, propuseram uma ida imediata àquela casa carismática da noite lisboeta, cuja fama atravessara fronteiras e se expandira para além do Atlântico.
A custo foram demovidos da ideia. Para entrar no Maxime era preciso ir trajado a rigor e nenhum dos primos respeitava , naquele momento, os cânones paramentais requisitados para a entrada naquele templo de luxúria.
À época, o Maxime era, para mim, um local inacessível. Tive de recorrer aos bons ofícios do meu pai para poder acompanhar os meus primos. Apostado em agradar aos sobrinhos, aconchegou-me o bolso com umas notas fartas.
No dia aprazado fomos jantar ao Leão d’Ouro. Enquanto os meus primos saboreavam calmamente o jantar e teciam rasgados elogios à gastronomia portuguesa, eu olhava insistentemente para o relógio .
Quando cruzei pela primeira vez aquela porta da Praça da Alegria, paredes meias com o Parque Mayer, foi o deslumbramento. Duas orquestras, grupos de bailarinas com corpos esculpidos a cinzel, evoluindo ininterruptamente num palco feericamente iluminado pelas cores do arco-íris, um público entusiasmado, gente com glamour. Foi uma noite memorável que só viria a repetir , anos mais tarde, em vindas esporádicas a Portugal.
Com o tempo, o Maxime foi perdendo as suas características. Virou bar de alterne, noite de luxúria para magnatas do cimento e jogadores de futebol, seduzidos pelos belos corpos de ucranianas generosamente despidas.
Quando o Maxime reabriu, numa aposta do Manuel João Vieira para recuperar o velho templo da Praça da Alegria, planeei várias vezes voltar lá. Acabou por nunca acontecer. Fui lá várias vezes, mas apenas em fins de tarde para apresentação de livros.
No último sábado, o Maxime encerrou novamente. Fechou-se mais um espaço da Praça da Alegria , cada vez mais triste e soturna, depois do incêndio no Hot Clube e do desaparecimento do Ritz Clube. Tive pena. Foi como se partisse um amigo a quem não tive oportunidade de dizer o último adeus.
Foi a pensar em tudo isto que escolhi esta canção para as Saturday Nights ("on the rock") Espero que vos agrade e, quando terminarem, saiam de casa para curtir a noite. Valeu?
É mm mauzinho!! Eu praqui abandonada em convalescença e o Carlos a escrever sobre estas cousas...
ResponderEliminarE ainda põe estes retratos!!
Eu fui uma vez ao Maxime...tinha uns vinte anos, eramos muitos e
ResponderEliminarcheios de curiosidade mas foi uma decepção!
Agora, ao ler o seu post também fiquei com pena, pois sendo uma casa "da noite" estaria cheia de histórias, dramas e paixões!!!
Muita gente a vai recordar.
xx
Valeu!!!
ResponderEliminarEm 68 ainda estava nas fraldas e mal dava meus primeiros passos, mas eu bem que gostaria de ter conhecido lugares assim.
A Liza Minelli tá linda nesse vídeo, Carlos!
ResponderEliminarPerfeito para um sábado à noite.
Beijos
Carla
Nunca fui ao Maxime. Aliás nunca fui de sair muito.
ResponderEliminarOuvi e vi na televisão que iam encerrar o Maxime, o que indubitavelmente é mais uma perda de um ícone alfacinha.
Memórias suas, dos seus primos que tão bem expôs.
Obrigada pela partilha.
Nathalie
Meu amigo.
ResponderEliminarComeço pelo fim, pela canção Cabaret, vi, salvo erro nos anos 70, a estreia do filme com o mesmo nome e na altura jovem ainda ficou-me marcada a excelente interpretação da Liza Minnelli.
Nunca fui ao Maxime, aliás nunca saí muito à noite, acho que perdi e perco 50% da vida.
Tenho pena no entanto que estas espaços tenham acabado ou se transformado em locais pouco recomendáveis.
Bom domingo!
Beijinhos
Pelo que vi, a empresa, dona do espaço da Maxime, espera reabri-lo. Eu fico à espera de ter a oportunidade de ir lá. :)
ResponderEliminarNunca lá fui, até porque quando tinha idade para lá ir a "orientação" do clube já mudara. Mas sim, parece que a ideia é reabrirem o "Maxine" noutro local...
ResponderEliminarEsperemos (sentados)!
Quem não gostar desta canção é um herege Carlos.
ResponderEliminarFogueira imediatamente!!!