quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Primavera perdida no Palácio do Tempo



Todos os anos, em Fevereiro, há uns dias quentes e límpidos em que a Primavera se anuncia. Espreita à porta do Palácio do Tempo como que a dizer ao Inverno “despacha-te que o teu reinado está a acabar e eu já estou pronta a entrar em cena” e depois desaparece até Abril. Costumo aproveitar um desses dias para, usufruindo da minha condição de “free lancer” , ir até ao Rochedo,passar o dia com a Primavera e dar-lhe as boas vindas.
Este ano esse dia foi segunda-feira. Acenei-lhe no asfalto da estrada do Guincho, junto ao meu Rochedo. Lá estava ela, esperando-me para uma conversa a três. Este ano levei por companhia o meu amigo Baptista – Bastos. Aproveitei as páginas de “As Bicicletas em Setembro” para falar com a Primavera sobre a juventude, recordar os tempos em que ela me visitava num jardim, tendo eu por companhia uns olhos amendoados que me despertavam a paixão e os sentidos. Criticou-me severamente, quando lhe disse que já não era a Primavera de outros tempos, já não me despertava os sentidos com o mesmo vigor, já não sentia o regurgitar da vida quando ela chegava. Fez-me ver que estava a ser injusto, ou talvez o problema fosse meu, apontando para alguns casais de jovens que namoriscavam na praia.

Fiquei em silêncio durante uns minutos, com o livro aberto, na página onde Jesuína sentencia:
É melhor ter amado e perdido do que nunca ter amado”.
E, de repente, lá estava eu outra vez em Península Valdez, olhando o mar, entre amores e memórias perdidas nos areais. Não havia helicópteros largando corpos de resistentes à ditadura, apenas imagens de uma paixão estilhaçada a golpes de baioneta, testemunhadas por pinguins, leões marinhos, baleias e milhares de pássaros usufruindo a liberdade.
Um sopro de vento, vindo de Oeste, trouxe-me de regresso ao Guincho. A Primavera por ali continuava, serena, lendo-me os pensamentos.
“Agora só te trago nostalgia, é?”- perguntou
Encolhi os ombros. Sorri e disse em tom de desculpa:
“Agora nunca sei se chegas em Março, Abril, ou Maio. Às vezes, vens numa passagem tão fugaz, que em vez de uma estação, pareces uma ponte que liga o Inverno ao Verão”.
“ A culpa é tua. Desde que te enfiaste em gabinetes sem janelas, preocupado apenas com o trabalho, já nem te apercebes da minha presença. Depois dizes que a culpa é minha. Vai lá, continua nessa tua vida de faz de conta, a fingir que és feliz. Continua a ignorar que trouxeste o inferno para a terra, em troca do bem estar que te proporciona a economia sólida e pujante. Violaste o Palácio do Tempo onde habitam as estações, puseste-nos em alvoroço, alteraste o clima, já não conhecemos bem o calendário. A escolha foi tua….”
“Tens razão, Primavera, mas como posso ser diferente dos outros?”
“ Já foste diferente dos outros. Depois deixaste-te ir na onda em vez de tentar que outros fossem como tu. Desististe. Por isso é que só te trago nostalgia…”
“Resisti muito tempo, não te parece?”
“Não o suficiente…”
Decidi ficar. Até o sol se esconder no horizonte, estreitando o mar num longo abraço, recordei com a Primavera o tempo em que a sua presença me acelerava a circulação sanguínea e despertava os sentidos . Quando o último raio de sol dardejou o Rochedo, perguntei-lhe:
“Voltas amanhã?”
“Não sei se posso. Passa por cá e logo vês”.
Ontem, ao acordar, percebi que a Primavera se tinha ido embora. Ainda fui ao Rochedo, ver se teria deixado alguns vestígios. Encontrei um conto da Luísa Dacosta - “O Rapaz que Sabia Acordar a Primavera”. Abri. Tinha uma dedicatória que me era dirigida.

“ Este livro é para crianças, mas os adultos também o deviam ler, para perceberem como a magia da Natureza os pode ajudar a serem felizes. Se quiseres, ainda vais a tempo de me restituir todos os poderes, e eu voltarei a dar-te vida. A escolha é tua”.
Da tua amiga
Primavera
Quando peguei no livro, para o trazer comigo, o céu plúmbeo abriu-se por momentos numa réstea de azul, deixando passar uns raios de Sol que transportavam a Primavera. Pareceu-me vê-la acenar-me. Correspondi.“Obrigado por teres vindo. Vê se voltas depressa!”.Não sei se ouviu. Creio que as minhas palavras se perderam no asfalto da estrada do Guincho, arrastadas por um sopro de vento anunciando o regresso do Inverno.

15 comentários:

  1. Amigo Carlos, gostei de conhecer o seu rochedo e a sua relação com a Primavera, a antiga e a actual :)
    Beijinhos.

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  2. Carlos.
    Rochedo, primavera e este maravilhoso lugar me deu vontade de ficar nele também
    com carinho MOnica

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  3. Carlos
    Excelentes companhias. A Primavera e o B.B.
    Fico invejoso

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  4. Os anos passaram e as Primaveras deixaram de ter o significado que tinham. Eu que o diga.

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  5. Muito lindo esse seu encontro com a Primavera, Carlos. Triste, nostálgico, mas lindo, mostrando que a vida foi vivida intensamente até agora e que tem como continuar sendo, basta acreditar na Primavera...
    bjs.

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  6. Cheguei há pouco a casa ~ também eu aproveitei o dia primaveril, embora frio ~ deixei mesmo de ir à inauguração do "Rundgang" na Academia de Belas Artes, só para gozar os primeiros raios de sol, depois de um inverno glacial.

    Não me apetecia abrir o portátil, abri sim, e VALEU A PENA!
    Este texto é maravilhoso, é a cereja em cima do bolo, quero dizer, o meu dia foi muito feliz, sendo este seu texto o final mais bonito que podia imaginar.

    Beijinhos primaveris de D'dorf!

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  7. CARLOS, emocionante e sensível seu
    relato, ficando gravado em minha
    mente esta frase,que diz tudo:
    ¨melhor ter amado e perdido do que
    nunca ter amado¨

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  8. Que belo texto! E quanta criatividade! Também já fui assim.

    Apreciei muito a(s) Primavera(s) da sua vida. Vivi-as no meu retiro silencioso e quieto.

    BJ

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  9. Gostei, Carlos. A Primavera depende sobretudo do calor da alma.

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  10. É marota a Primavera. Dá um arzinho de si e depois desaparece. Ficamos mais uns dias a suspirar por ela. É o que ela quer... que fiquemos todos pelo beicinho... :) Maravilha de texto, o seu, caro Carlos. :)

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  11. Ui, é caso para lhe pedir para voltar o mais rápido possível, que não é só o Carlos a ter saudades dela...

    Mesmo que às vezes já não pareça o mesmo, ela é sempre bem-vinda! :)

    Gostei muito da entrevista!

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  12. O que seria da vida sem esses encontros? É verdade que, reféns da rotina, nos deixamos afastar da Natureza.Preciso me proporcionar ser mais feliz!

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  13. A primavera é muito provocadora. A “teaser”! Hoje deu-lhe para o sentimento, Carlos! Gostei. Gostei muito.

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  14. Fazes favor de não voltares a fazer isso ... é que, até Domingo, este um tempo fantástico. Foste ao Rochedo na 2ª e a semana ficou um bocado instável por causa de ti, pá! ;)

    BeiGInhos.

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  15. Hoje, a Primavera voltou a dar ares da sua graça, pelo menos aqui.
    É por dias como este que troco sempre a cidade pelo campo, os sons, as cores e os cheiros são indescritíveis.

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