quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Democracias "fast food"

Ecoam pelo mundo ocidental Hossanas às revoltas populares na Tunísia, no Egipto, na Líbia ou no Iémen. Há até quem meta no mesmo saco o Bahrein, desconhecendo que ali a luta se trava noutro tabuleiro.
Acredita-se no ocidente que, de um dia para o outro, regimes opressivos e totalitários se transformarão em democracias esplendorosas, restituindo aos povo oprimidos a almejada liberdade.
Sou um céptico. É óbvio que não fico indiferente à luta daqueles povos e torço para que consigam viver em democracia, mas acredito tanto nas democracias fast-food, como no regresso de D. Sebastião numa manhã de nevoeiro. Os contos de fadas já não me fazem sorrir nem sonhar com a “Bela Adormecida” ou sapos que viraram príncipes pela força de um beijo redentor. Tenho pena… mas é a realidade contada pela História que me interessa e não o mundo da fantasia.
Ainda é cedo para grira vivas. As democracias não se constroem em dias, nem em meses. São precisos muitos anos. Em Portugal, 36 anos depois de Abril, ainda estamos longe de viver em democracia plena. Para haver democracia, é necessário cultura democrática e os portugueses estão ainda longe de saber o que isso é. Se tivessem cultura democrática, não praticariam como desporto favorito, a evasão fiscal; os governos não recorreriam a truques para branquear as contas e com transparência diriam como aplicam os nossos impostos. Se houvesse cultura democrática a comunicação social não se deixava manipular por forças políticas, nem andaria a brincar com o foto-shop para fazer primeiras páginas que enganam os leitores.
Admito que quem reduza a democracia à liberdade de expressão e ao direito de voto, ignorando que, antes de mais, é responsabilidade, cidadania e ética, ande entusiasmado com o que se está a passar a Oriente. Temo, porém, que daqui a pouco tempo sofram uma desilusão.
Em sociedades sem consciência democrática, quem estiver melhor preparado politicamente pode ascender ao poder sob a capa da democracia, alegando que conquistou o poder pelo voto. Aconteceu isso em alguns países do Leste Europeu depois da queda do bloco soviético. São ditaduras mascaradas de democracias. No Irão, depois de o Xá ter sido derrubado, seguiu-se um regime sanguinário que ainda hoje detém as rédeas do poder e ameaça o mundo.
Depois, há aquele pequeno pormenor de a Europa ser neste momento liderada por conservadores que põem os interesses económicos dos seus países à frente do dever de apoio aos povos que aspiram à liberdade.
Os europeus não hesitarão em apoiar uma democracia de fachada que não ponha em causa os seus interesses. Aceitá-la-ão com a mesma hipocrisia com que aceitaram os ditadores agora derrubados. O que nunca tolerarão é que sejam os povos daqueles países a decidir livremente porque sabem que a democracia que pretendem, não é igual àquela democracia liofilizada que o Ocidente pretende exportar em "perigos e guerras esforçado". Não vem em receitas nos livros da colecção Salgari, nem é proclamada a partir da Casa Branca. E isso é "um perigo" que a Europa actual a todo o custo pretende evitar.

4 comentários:

  1. Apesar dos " em perigos e guerras esforçados", a verdade é que alguma coisa se move. Se é em direcção à democracia, "o que que que isso seja", também tenho fortes dúvidas.

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  2. Carlos
    Nada a acrescentar. Subscrevo até a pontuação.

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  3. Cada vez mais se vê no Ocidente o que Carlos D'Assumpção dizia aqui em Macau acerca dos chineses - "os chineses nunca organizam umas eleições sem primeiro saberem quem as vai ganhar".
    Adapte-se e....

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  4. SIMPLESMENTE APOIADO!
    Zé da Burra o Alentejano
    zedaburra@sapo.pt

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