segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (9)

Capítulo 9: O regresso de D. Branca?
Capítulos anteriores (aqui)

Voltemos então a 1995, quando Hannibal decidiu deixar o cargo de primeiro-ministro.
Quem não gostou da ideia foi Maria, mas foi-se contendo. Só dois meses depois de Hannibal ter quebrado o tabu é que conseguiu arranjar coragem para lhe dizer o que lhe ia na alma.
- Então tinhas prometido que fazias de mim primeira dama e agora que as coisas começam a dar para o torto deixas o governo? Fui eu confiar em ti durante este tempo todo, fartei-me de sofrer para nada.?
-Tem calma, Mariazinha! Já sabes que nunca me engano, raramente tenho dúvidas e cumpro as minhas promessas. Serei PR e tu primeira dama.
-Agora que os tugas estão a endividar-se como loucos e um dia vão deixar de poder pagar aos bancos, que sentem que os abandonaste, é que pensas em candidatar-te a Belém? Devias ter feito isso em 1991, quando estavas na mó de cima. Agora as pessoas não te vão perdoar!
- Maria, não te lembras que em 1988, quando os tugas andavam doidos a jogar na bolsa, eu os avisei para os riscos, com aquela bela metáfora do “Gato por Lebre”?
- Claro que lembro. E depois veio o Salgueiro dizer que não havia problema nenhum...
- Pois, Maria, tu lembras-te, mas os tugas já se esqueceram e isso é que é importante. Vais ver que com esta febre maluca dos portugueses a endividarem-se, ainda vamos ganhar um bom dinheirito. Imagina que o Oliveira e Costa e o Dias Loureiro e mais uns quantos, quando sairmos do governo, estão a pensar criar um Banco
- E tu vais para Presidente do Conselho de Administração?
- Não, Maria. Já ouviste falar de crédito?
- Ai, valha-me Deus, Nossa Senhora e a Santíssima Trindade! Tu agora vais ser como a D. Branca? Eu bem sei que aquele número do cartão de crédito que ofereceste a todos os portugueses foi genial, mas quando eles perceberem que afinal têm de pagar as dívidas e não êm dinheiro, vão reagir mal...
- Nada disso, minha fofa. Uns vão jogar na Bolsa, ganhar e continuar a pensar que o dinheiro é grátis. Outros hão-de perder, mas isso faz parte da vida.
- E nós?
- Nós? Claro que vamos ganhar! Não te lembras que fui eu que fiz do Noites do Padeiro e do Sabujo Costa ministros?
- Ai que tu um dia vais dentro e que vai ser de mim, Hanníbal? Pões essa gente ignorante, a correr riscos e vais desgraçá-las?
- Se as pessoas não quiserem correr riscos têm bom remédio. Recorrem ao crédito.
- Mas para isso têm de pagar juros…
-Qual é o problema? Isso não é da minha conta… os tugas são adultos e sabem muito bem o que fazem. Se querem endividar-se, que o façam à vontade...Além disso eu já nem estou no governo, talvez no próximo ano já seja PR e tu primeira dama…

Não foram… O povo ainda estava atento e obrigou-os a esperar dez anos, antes de voltarem a azucrinar os portugueses.
Depois de receber da trupe de vampiros a merecida recompensa pelas aulas de ilusionismo onde lhes ensinara os truques que os levaram ao sucesso, Hannibal pensou que tinha chegado a hora de preparar a sua candidatura ao palácio do Belo Além. Convocou os vampiros para uma reunião e comunicou-lhes:
- Meus amigos! Fiz de vós pessoas respeitáveis, ajudei-vos a enriquecer, agora chegou o momento de me candidatar ao palácio do Belo- Além. Embora as televisões daqui a uns anos venham a deslumbrar-se com séries sobre a nossa espécie rara de vampiros, a verdade é que a vida não nos corre de feição. Durante os anos em que estive afastado, aprendi uns números novos, que mostrei pela primeira vez numa festa de aniversário dos meus netinhos. Digo-vos que toda a gente ficou deslumbrada.
- E que números são esses, professor? -
perguntou Noites do Padeiro
- A seu tempo todos saberão. Só vos digo que são muitos e variados. O mais espectacular será fazer desaparecer a Constituição...
- Parece-me uma excelente ideia
- disse Sabujo Costa batendo palmas.
- Bem, mas esse número só resulta em pleno, se conseguir que a Manuela seja primeiro ministro.
- Primeira-ministra, Hanníbal! Eu quero ser é primeira ministra
- corrigiu Manuela Rançosa com sua voz esganiçada.
-Seja lá como quiseres. O importante é que eu possa chegar ao Palácio do Belo- Além e tu me ajudes a suspender a Democracia por uns tempos. Infelizmente, para lá chegar, ainda é preciso eleições e fazer campanha. Ora isso custa dinheiro e eu sou um mísero professor...
- Então e as acções que te ofereci?- perguntou Sabujo Costa
- Agradeço a tua generosidade, Sabujo, mas aquilo não dá nem para um dia de campanha...
Os presentes olharam, inquiridores, para Sabujo, à espera de uma reacção.
- Se precisas de dinheiro, Hannibal, isso não será problema. Arranjo aí uns números novos com o Noites do Padeiro e mais alguns amigos dele, faço sumir o dinheiro numas "off shores" e depois há-de aparecer para pagar a tua campanha.
-Foste um bom aluno, Sabujo Costa. Bem mereces partilhar comigo a Coelha.
Alguns riram-se muito com esta tirada de Hannibal, outros entreolharam-se interrogativos, porque não perceberam o trocadilho. Brindaram com champagne e começaram a preparar a corrida ao Palácio do Belo- Além.
Foi mais fácil do que esperavam. A luta entre dois candidatos do partido da Rosa Murcha, estendeu uma passadeira vermelha a Hannibal que venceu folgadamente.
Até Adalberto Jasmim, presidente do governo regional da Ilha do Caruncho, que sempre tratara Hannibal por sr. Silva, passou a tratá-lo por professor.
( continua)

5 comentários:

  1. Um percurso deveras interessante, para quem gosta de vampiros... ;)

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  2. Isso é um romance mais-que-realista!
    Em ressaca, enraivecida...

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  3. Meu amigo:
    Parece um guião de um filme fantasmagórico, tem vampiros, canibais, palácio do Belo- Além...bem, se calhar é mais um filme de terror ;-)
    Que imaginação lol lol
    Fico a aguardar a próxima cena :-)
    Beijinhos

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  4. Para ir lendo devagar.
    Viva a imaginação!
    (apesar de tudo)

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