quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (4)

Capítulo 4: O Farol das Amoreiras

Capítulos anteriores ( aqui)

Ao fim de 20 lições de dicção, Hannibal já pronunciava com desenvoltura "supercalifragiliespiralidoso", mas continuava a engasgar-se com o "Rato que roeu a rolha da garrafa do rei da Prússia". As suas preocupações, no entanto, eram outras. Na iminência da entrada de Portugal na CEE precisava de aplicar os truques que engendrara para convencer os tugas que com ele seriam felizes. Os ventos da História estavam do seu lado e traziam até Portugal a Internacional Consumista que será a sua maior aliada.
O primeiro sinal de que a Internacional Consumista podia estar a chegar a Trapalhândia não veio do cometa Halley que nesse ano visitou de novo a Terra, anunciando a comercialização do telemóvel. Veio da URSS com a chegada de Gorbatchov ao Poder. Anos depois emprestaria o seu nome a uma pizza. A Perestroika é palavra de ordem e a solidariedade do mundo contra a fome desperta, com um sinal de esperança, no mega concerto Live Aid, que põe o mundo a cantar "We are the World".
Em Trapalhândia, os tugas fazem filas. Para levantar dinheiro no multibanco e preencher os boletins do totoloto, na esperança de equilibrar o orçamento familiar. As agências de viagens andam numa azáfama a organizar excursões de todo o País para Ulisseia. Motivo: nas Amoreiras acaba de ser inaugurado o farol da sociedade de consumo à tugalesa - o Centro Comercial das Amoreiras.
Trapalhândia entra formalmente para a CEE no dia 1 de Janeiro de 1986 e o primeiro bébé proveta a nascer no País já é um cidadão comunitário. Ambos os acontecimentos podem ser registados com as novas máquinas fotográficas descartáveis. No Hospital de Santa Cruz faz-se a primeira transplantação cardíaca. A medicina tuga vive um ano de glória.
Acaba o papel selado e começa o "Cartão Jovem" . A sociedade de consumo proclama eufórica :"Venham a mim as criancinhas".
"Era Uma Vez na América" enche as salas de cinema, enquanto a campanha de Freitas do Amaral sob o lema "P'ra Frente Trapalhândia" é feita ao bom estilo americano. Mário Soares "é fixe" e ganha as eleições em Fevereiro, mas quem vai p'rá frente é a sociedade de consumo. A D. Branca está presa, mas a Bolsa faz a sua vez e os tugas entram em euforia bolsista. O vai-vem Challenger explode com sete tripulantes a bordo. Pausa no programa de voos tripulados. Os tugas passam a voar nas asas do sonho, por sua conta e risco…
(Continua)

6 comentários:

  1. Hoje não resisti... tive que ir procurar este link
    do supercalifra... ;)


    Bjos

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  2. Parece que não saíu o link mas é em

    http://www.youtube.com/watch?v=1Pu1adxqUAg&feature=related

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  3. Primeiro me deixa parar de rir.

    Eu adoraria ver o Hannibal pronunciar "supercalifragiliespiralidoso". Será que saía, antes das eleições? hehehehehe
    Este milagre nem a Mary Poppins consegue.

    Olha, passa lá na árvore que o recado é para os "meninos".

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  4. Excelente alegoria biográfica do nosso "farol das pampas".

    Este buscão bem precisa de um Quevedo que lhe descreva o "caballo ético y mustio más manco que bien criado" em que anda escarranchado, tratando-nos a todos por cavalgaduras.

    Cumprimentos

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  5. Tenho vindo a acompanhar com grande interesse esta magnífica blogonovela mas hoje assaltou-me uma preocupação: se acaso ela se prolongar numa segunda série, terá a Trapalhândia condições financeiras para mais despesas associadas à produção?

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  6. Duvido que ele alguma vez soubesse dizer "supercalifragi"...

    Quanto à Internacional Consumista, ainda hoje está no auge. Embora digam que não, que os tempos são de crise. Mas abriram os saldos e a malta foi a correr... Enfim, a herança do cavaquistão...

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