segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (2)

Capítulo 2: Não há coincidências
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O grupo retirou-se, depois de mais uma curvatura da espinha a 90 graus, deixando escapar um sibilino “desejamos-vos as maiores felicidades”.
- Hannibal, diz lá o que andaste a fazer. Onde é que te meteste homem? Disseste que ias discursar e apareces-me agora com um rancho folclórico? Havia por aí alguma feira, não me disseste nada e foste fazer um dos teus números de ilusionismo??
- Acalma-te, mulher! Claro que fui discursar, mas isto do ilusionismo está-me no corpo e consegui agrupar umas palavras com sentido, mas que nem eu mesmo entendi muito bem, e eles gostaram do que lhes disse. Gostaram tanto, que me elegeram presidente do partido.
- Do partido? Qual partido? Ai, que eu devia ter ido contigo, minha Nossa Senhora!Não me digas que com essa idade te foste meter em política, homem! Andaste tu a preencher a ficha na PIDE a dizer que estavas integrado no regime da União Nacional do senhor Doutor, que não te metias em política,até escreveste que não convivias com a minha madrasta, omitindo que um ano, no Natal, lhe ofereceste aquela caixa de bombons que a deixou de diarreia…
-Essa por acaso foi uma ideia genial, Maria. Ela a pensar que tinha sido da lampreia de ovos, nunca desconfiou de nada…
- Coitadinha, que Deus lhe “deia” muita saúde Mas diz-me lá. Que partido é esse?
- Olha, para ser franco, nem sei bem.É aquele partido que o sr. Padre de Boliqueime diz que devemos todos votar, porque tem umas setinhas que apontam para o Céu…
-Ah! Então é nesse partido que a gente sempre votou, não é?
- Pois , talvez...já não me lembro muito bem, como sabes não sou político...
- E agora és presidente?
-É verdade, mulher. Vem a gente até à Palmeira da Foz fazer a rodagem ao carro e saio daqui Presidente. Ele há cada coincidência…
- Que é que disseste? Coincidências? Vou já telefonar à Margarida Rebelo Pinto para lhe sugerir o título para um livro. “Não há coincidências”…
- Pois não, Maria, mas os tugas vão ficar a pensar que tudo isto foi uma coincidência… Bem, vou só comer um bolinho de arroz e tomar um café, que temos de voltar depressa para Ulisseia. Amanhã tenho muito que fazer.
- Mas amanhã não tens aulas, Hannibal!
- Pois não, mas vou ter uma reunião muito importante no Partido para traçarmos a estratégia.
- Estou a ver que isso te está a subir à cabeça. Vê lá no que te metes. Com essa mania do ilusionismo ainda és despedido!
- Maria… tu ainda não percebeste? Vou ser o futuro Primeiro Ministro de Trapalhândia!
Maria esbugalhou os olhos, deixou escapar um suspiro e disse:
- Vá lá filho, come o bolinho e toma um chazinho de limão em vez do café. Olha e toma este Ben-u-ron, porque me parece que estás a ficar constipado. Não te dói a cabeça? Parece-me que estás com arrepios...
(Continua)

8 comentários:

  1. Uma estória destas só pode acabar mal..., para os desgraçados que o vão aturar, claro!!!

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  2. Ora, ora, agradeço pelo abraço! E o retribuo.

    E... "consegui agrupar umas palavras com sentido, mas que nem eu mesmo entendi muito bem, e eles gostaram do que lhes disse."

    Veja se não é uma desfaçatez... E, se coincidências existissem, eu diria: "Que coincidência com os que há por aqui!"

    Beijos

    Carla

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  3. Cuidado amigo

    o Cavaco anda à solta

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  4. Vê lá bem a conclusão dessa história, homem! Pensa bem, por favor, não nos dês nenhum desgosto...:))

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  5. Esta "historinha", ou deverei dizer "historona", está "muita" bem contada...e cá fico à espera do próximo episódio.

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  6. Já estou a ver que o conto é negro e não tem final feliz. Ai, ai, e eu que gosto tanto de happy ends... :)

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  7. Por mim a história levava uma reviravolta... Venham de lá esses superpoderes...

    :)))

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