Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

Fairy Tales

De vez em quando acontecem coisas estranhas no mundo anglo-saxónico. Uma senhora de “pêlo na venta” que vai a um concurso de caça-talentos em Inglaterra e se torna estrela internacional; um sem abrigo americano, alcoólico e drogado, que se torna vedeta de TV e recebe ofertas de emprego de gente famosa, como Oprah Winfrey ou Jack Nicholson.
As histórias de Susan Boyle e Ted Williams, apesar de reais, são tão fantasiosas como os contos de fadas e têm o mesmo objectivo dos contos dos irmãos Grimm, Perrault ou Hans Christian Andersen: iludir a realidade.
Lembro aos meus queridos leitores que os primeiros contos de fadas eram destinados a adultos, estavam impregnados de erotismo e não tinham o objectivo de transmitir ensinamentos morais. Convém, por isso, analisar as histórias de Susan Boyle e Ted Williams no contexto do mundo actual, onde a mediatização destas histórias de “Gatas Borralheiras” (Susan Boyle) ou dos seus autores ( Hans Christian Andersen era filho de um sapateiro e de uma lavadeira e, antes de escrever contos infantis, sonhava ser cantor - como Ted Williams) servem os objectivos da sociedade da hipocrisia instituída à escala global.De quando em vez, convém retirar do anonimato- ou da miséria- uma personagem e guindá-la ao estrelato, utilizando o poder mediático para divulgar ao mundo a sua história “exemplar”. Com estes casos se procura transmitir a mensagem de que qualquer pessoa pode ter sucesso, se estiver no lugar certo à hora certa.
Há quem acredite nestes contos de fadas dos tempos modernos, fabricados para nos iludir e fazer acreditar que a vida é realmente uma tômbola e qualquer um de nós pode um dia ter a sorte de possuir o número premiado.
A vida não é assim. Não acredito nos acasos da sorte. Nem que o sucesso de alguém, à escala global, possa depender exclusivamente das suas capacidades e perseverança. Depende, acima de tudo, das teias de relações que constrói ao longo da vida e da sagacidade dos agentes que os promovem.
Susan Boyle e Ted Williams nasceram com dotes vocais, mas viveram como cidadãos anónimos, desprotegidos da vida, até depois dos 40 anos. Não saíram do anonimato porque porfiaram, mas sim porque alguém os tirou de lá. Porque alguém viu que os seus talentos, associados às suas histórias de vida, poderiam ser utilizados para ganhar algum dinheiro e reinventar os contos de fadas, tornando-os reais.
Não sei como será a vida destes dois ídolos, criteriosamente repescados do anonimato, daqui a dez anos. Sei que, por coincidência, são um homem e uma mulher o que é sempre aconselhável para a “igualdade de género”. Sei que as histórias de vida de Susan Boyle- a solteirona virgem, feia e desmazelada, cuja única companhia era um gato - e Ted Williams (nome igual ao de uma vedeta lendária do beisebol) – um vagabundo descoberto para o estrelato por um jornalista, foram apimentadas com pormenores (reais ou fictícios) de tentativas de suicídio e perseguições e encaixam na perfeição em personagens de contos de fadas.
Há por aí alguém interessado em fazer-nos crer que vivemos no “Mundo Maravilhoso de Walt Disney” mas, na realidade, vivemos num mundo injusto onde impera a lei do mais forte e alguns media se tornaram veículos de propaganda de um poder arrogante e manipulador, ao pintar em tons de rosa o lado negro da vida.
Acordemos! Nem a vida é um conto de Fadas, nem todos os que dirigem o mundo são “Bruxas Más”. Nós é que talvez andemos a fazer as escolhas erradas…

19 comentários:

  1. Tocou no que é , para mi, o ponto essencial: onde estaraão daqui a uns anos estas duas pessoas?

    E quanto às escolhas, também considero que a opção é de nossa inteira responsabilidade.Mas sem podermos esquecer as manipulações e os crimes do Poder.

    Bom final de semana

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  2. Excelente análise sobre uma parte muito importante do mundo onde vivemos, parabéns Carlos.

    Acho que o sitio onde estarão ambos os personagens daqui a 10 anos depende, para além do mundo,em primeiro lugar deles.. e da sua capacidade de saberem armazenar parte do que lhes está a deixar os cinco minutos de fama, se conseguirem perceber que é só isso, 5 minutos, talvez saibam tirar partido e guardar.. para quando voltarem ao anonimato.

    Jorge Soares

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  3. Carlos! Que pessimismo e falta de confiança nos seus semelhantes! : ) Seguidor de Shopenhauer, estou a ver! : )))))

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  4. Nem é preciso muitos anos, o sem abrigo com a voz de ouro e a receber centenas de dólares, voltou aos "consumos" anteriores... mas tem uma vantagem... como já tem dinheiro foi internado para tratamento.

    Bjos

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  5. Mas ainda há quem acredite em fadas? duendes?
    Este tipo de concursos só serve para uma coisa. Para "aparvalhar" quem os vê e enquento isso acontece não se pensa em crise, desemprego, fome...

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  6. Meu caro Carlos, às vezes também acontecem coisas estranhas no mundo latino. Um jovem português vai a um concurso na TV e recebe ofertas desonestas e...
    O final dos contos de Fadas portugueses são MUITO MAIS HORROROSOS do que os contos de Fadas do mundo anglo-saxónico — acabam num hotel de NY!!!

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  7. Concordo absolutamente com o que é escrito neste texto, Carlos. Aliás, estes são apenas dois exemplos, em tempos a própria Lady Di foi um deles, daí a sua morte trágica ter causado tanta consternação no mundo inteiro!

    Às tantas as pessoas precisam de revistas cor de rosa, telenovelas, etc., para se esquecerem das próprias vidinhas monótonas e sem graça! Para lhes dar espaço para sonhar que, quem sabe, um dia serão elas a ser visitadas por uma fada madrinha...

    A manipulação dos media já é outra conversa, porque no fundo é difícil perceber quem a orquestra e qual o verdadeiro interesse!

    Bom fim de semana!

    ps - uso a expressão "pêlo na venta" noutro sentido! :)

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  8. "A vida não é assim. Não acredito nos acasos da sorte. Nem que o sucesso de alguém, à escala global, possa depender exclusivamente das suas capacidades e perseverança. Depende, acima de tudo, das teias de relações que constrói ao longo da vida e da sagacidade dos agentes que os promovem."

    Excelente, completamente de acordo!Parabéns por este magnífico post.
    Beijinhos e bom fim de semana.

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  9. A vida não é um conto de fadas, somos aquilo que os outros querem que sejamos. Tens toda a razão quando escreves: " Não acredito nos acasos da sorte. Nem que o sucesso de alguém, à escala global, possa depender exclusivamente das suas capacidades e perseverança. Depende, acima de tudo, das teias de relações que constrói ao longo da vida e da sagacidade dos agentes que os promovem. "

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  10. Como gostei de mais este texto, Carlos. Nos meus contos para crianças, procuro desmistificar o que narram certos contos clássicos, exactamente porque a realidade é bem outra. Faço-o duma forma muito pobre, à minha maneira, mas faço-o porque me desagrada que a criança comece, bem cedo, a embalar sonhos que quantas vezes não passam daí e o trambolhão, mais tarde, quando já percebem alguma coisa do real, é relativamente grande.
    Bom fim-de-semana.

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  11. Seu texto vem de encontro à uma reflexão que fiz hoje cedo enquanto esperava o semáforo abrir.Saindo de uma loja de móveis vi um pai e uma mãe de mãos dadas com uma menininha de uns 4 anos de idade, vestida de Branca de Neve(aquela da D*sney). Tudo bem que crianças devam fantasiar. Mas como e até quanto?Como vai crescer a princesinha do papai? Pensando que é mesmo uma princesa da D*sney??? E quando ela descobrir que o mundo não é como ela pensa? Pior ainda é se ela nunca perceber.

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  12. Muito bem colocada a questão. A mim também ne estava a fazer confusão a saída da escuridão dessaa duas anónimas criaturas.

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  13. Um ponto de vista muito interessante, Carlos. Muito mesmo.

    :))

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  14. CARLOS, por toda parte é assim. De
    vez em quando, do nada, surgem uns
    personagens estranhos, descobertos
    por alguém mais estranho ainda.
    É tudo muito esquisito e dá o que
    pensar.

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  15. Gostei imenso deste texto e concordo com o que escreveu em grande parte. Apenas num ponto, sou da mesma opinião de "São":

    "Mas sem podermos esquecer as manipulações e os crimes do Poder."

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  16. Têm a importância que as pessoas lhes derem. Se tiverem vontade em agarrar a oportunidade com todas as forças e não cairem nas más graças de agentes sangessugas, certamente apoveitarão o seu momento.

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  17. Preocupam-me tanto estes príncipes e princesas de 40 anos, como as princesinhas e principezinhos que ainda mal sabem falar. Não gosto da exploração que os média fazem ao ser humano, tornam a vida de anónimos em verdadeiros "freak shows" e não existe mente, por muito sã que seja, que aguente este tipo de fama e pressão sem ceder. Não percebo esta sede das pessoas de saber tudo e mais alguma coisa de desconhecidos, de os elevar ao máximo, para mais tarde (e quase de certeza com a mórbida esperança de que isso aconteça de facto) os verem cair na maior podridão de sempre. É pura maldade e o Homem alimenta-se disso.

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  18. APLAUSOS!!!!!!!!!!!!!

    Estivesse eu perto de você lhe daria um abraço enorme, Carlos. Sempre, sempre lúcido!! Impressionante.

    Parabéns e um beijo!

    Carla

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