segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para avivar a memória

Moubarak só ao fim de 30 anos se lembrou que existe uma coisa chamada democracia. O mesmo tempo que os países ocidentais demoraram a recordar ao presidente egípcio que, apesar de tudo, a democracia existe. A todos recomendo Fosgluten

Figura da semana

Sheikh Hasina
Reeleita primeira- ministra do Bangladesh em 2008, Sheikh Hasina foi galardoada pelo governo indiano com o prémio Indira Gandhi, como reconhecimento pelo seu contributo para a paz e democracia, durante o seu primeiro mandato, entre 1996 e 2001.
Afastada do poder nas eleições de 2001, viria a ser alvo de um atentado em 2004, que mataria muitos dos seus apoiantes. Escapou ilesa, como acontecera em 1975. Nesse ano a sua família foi dizimada por uma facção do exército, tendo escapado do massacre, por estar com a irmã em visita à Alemanha.
Em 2007 foi acusada de envolvimento na morte de um influente empresário do Bangladesh. Viria a ser libertada e, em 2008, voltou a ser nomeada primeira-ministra, depois da vitória esmagadora da Liga Awami.
Talvez movida pela vontade de demonstrar que a atribuição destes prémios tem um mérito relativo, Shakira Hasina decidiu comprar uma guerra dentro do seu próprio país. O visado é Muhammad Yunus, o criador do microcrédito e do banco Grameen, que manifestou a intenção de criar um partido político. Hasina não terá gostado e, desde então, começou a mover uma perseguição a Muhammad Yunus, a quem acusa de ter desviado fundos destinados ao Grameen Bank para auxílio humanitário.
A inexistência de irregularidades veio a ser confirmada pela agência Norad, que disponibilizara essas verbas, e pelas próprias autoridades norueguesas, mas Hasina ordenou que o caso fosse investigado pelas autoridades do Bangladesh.
Defensora do microcrédito como sustentáculo para a sua política de erradicação da pobreza no Bangladesh, Hasina é hoje uma crítica feroz do Grameen Bank e, segundo alguns analistas, pretende transformá-lo num banco estatal. O objectivo será eliminar a influência de Muhammad Yunus que, entretanto, desistiu da formação de um partido, mas se vê obrigado a enfrentar a justiça do seu país.
Aviso: as minhas escolhas para figura da semana, nada têm a ver com os acontecimentos que ocorreram na semana anterior. São apenas pessoas, cujas histórias decidi trazer aqui, em breves linhas. Uma por semana...

Sonhos cruzados


Acordou a meio da noite sobressaltada. O companheiro andava ausente em trabalho há três dias e ela sonhou que ele tivera um acidente e estava internado no hospital. Passou o resto da noite em claro, hesitando em telefonar-lhe. E se tudo não passasse de um pesadelo? Às oito da manhã telefonou-lhe. Não lhe contou do sonho. Só queria dizer-lhe que o amava e tinha saudades.
À hora do almoço ele telefonou-lhe. Contou-lhe que sonhara com ela. Estavam os dois a namorar numa praia deserta. Distante. Ela suspirou. Ele disse que regressaria a casa nessa mesma noite. Quando chegou , ela não estava em casa. Estranhou. Ligou-lhe, mas ela não atendeu o telemóvel. Serviu-se de um whiskey. O telefone tocou. Era do hospital. A companheira estava internada.Tivera um acidente grave.

Santa Bárbara


Diz o povo que as pessoas só se lembram de Santa Bárbara quando troveja. Acontece o mesmo em relação ao Estado. Todos gritam "menos Estado, melhor Estado" Mas o que fazem quando o Estado defende o interesse dos contribuintes cortando nos subsídios às escolas privadas, de forma a igualá-los com o sector público? "Aqui d'el Rei que o Estado está a roubar-nos".

Depois ainda há aqueles patuscos para quem o Estado deve servir para pagar as custas judiciais dos seus crimes.

E há os empresários que vivendo quase exclusivamente de serviços prestados ao Estado, não querem que o governo interfira no negócio, porque lhes está a tirar privilégios.

Há ainda aqueles, como Manuela Ferreira Leite, que reclamam o corte dos salários dos trabalhadores, mas protestam e recorrem à litigância, argumentando que a obrigatoriedade de optar entre o salário público e as reformas, não lhes é aplicável.

Valha-nos Santa Bárbara! Eles ainda não perceberam que o Estado somos NÓS

Late night wander (25)

O milagre irlandês, tão elogiado por Paulo Portas e apontado como exemplo a seguir por Portugal, transformou-se num filme de terror. Depois da chegada do salvador FMI, aumentou o desemprego,a pobreza e começaram as convulsões sociais. Está mais do que provado que a direita quer o melhor para Portugal e tem as soluções adequadas.

domingo, 30 de janeiro de 2011

O Bife


Há quem vá a um restaurante só para comer um bife. Embora já tenha sido grande apreciador dessa especialidade gastronómica, nunca me passou pela cabeça pedir um bife num restaurante. (Excepção, claro está, quando estou na Argentina ou no Uruguai e me deixo seduzir por um belo bife de chorizo...) A razão é simples : como bifes muito melhores em casa e muito mais baratos.
Não nego que em Lisboa se comem bons bifes fora de casa, mas apenas os comia em bares, com amigos, para acompanhar uma boa conversa. Nesses tempos, elegi os bifes do Café de S. Bento e do Old Vic como os melhores de Lisboa. Pela qualidade, mas também pela companhia. Hoje, raramente como bifes e, quando o faço, é em casa.
O segredo de um bom bife não reside apenas na qualidade da carne. É essencial cozinhar a carne no ponto que mais se aprecia. Essa coisa de pedir um bife bem ou mal passado, no ponto, ou médio mal, é uma treta. Olho para a carne e sei exactamente quanto tempo ela deve estar na frigideira ou na grelha para ficar como eu gosto.
Quanto aos molhos, embora os ache dispensáveis, pois iludem o sabor da carne, considero-me um “expert” na matéria. Confecciono vários, de acordo com o apetite do momento. Ah! E nunca ponho o “ovo a cavalo”, que considero um intruso no meio da carne suculenta e da batata frita a preceito, ou do legume grelhado. Depois, para acompanhar, nada de cervejas. Um bom tinto é o companheiro ideal para apreciar um bife como deve ser.
Mas por que raio me deu para vos falar hoje de bifes? Porque ontem me deu uma vontade enorme de comer um "bife de chorizo"num restaurante porteño da Maipú, enquanto assistia `a actuação de um casal de "tangueros" que por lá pára. Grelhado, sem molhos, acompanhado de uma bela batata assada e tomate grelhado.

Bons exemplos

O sonho do mineiro Dário Rojo era ter uma frutaria. Um jovem empresário português, de Estarreja, concretizou-o. Ao contrário do que acontece noutros sectores de actividade, nomeadamente na política, onde os políticos profissionais crescem nas jotinhas dos partidos, sem qualquer experiência de vida, mas cheios de ambição de poder, acredito nos jovens empresários portugueses. Têm outra formação, outra sensibilidade e mentalidade, que os distingue da maioria dos nossos empresários seniores, tacanhos e gananciosos.

Late night wander (24)

Francamente, senhora Merkel. Em vez de alemães destes, não nos podia enviar uns euros para aliviar a crise?

sábado, 29 de janeiro de 2011

Saturday nights "on the rock"


Ouvi-a pela primeira vez no "30 minutos" da última terça-feira, na RTP 1. Fiquei rendido àquela voz e perguntei-me como foi possível, com tantos programas de caça-talentos nas nossas televisões, ninguém a ter descoberto.

Humor fim de semana

A CIA resolveu recrutar um atirador. Após uma série de selecções, entrevistas e testes, escolheu três candidatos: um francês, um inglês e um português.
Para a prova final, os agentes da CIA colocaram os candidatos diante de uma porta metálica e entregaram-lhes uma pistola.
-Queremos ter a certeza de que seguem as instruções, quaisquer que sejam as circunstâncias.
Dizem então ao francês:
- Por detrás desta porta você vai encontrar a sua mulher sentada numa cadeira. Terá que a matar!
- Estão a falar a sério? Eu jamais mataria a minha mulher!
- Então você não serve, responde o agente.
O inglês pegou na arma e entrou na sala.
Durante 5 minutos, tudo muito calmo.
Depois regressou com as lágrimas nos olhos.
- Tentei, mas não posso matar a minha mulher.
- Você também não está preparado para trabalhar nesta agência. Pegue na sua mulher e vá-se embora. Mandem entrar o português!
Ouviram-se tiros, um estrondo e depois outro... A seguir ouvem-se gritos, barulhos de móveis partir, etc...
Após alguns minutos fica tudo muito calmo...
A porta abre-se lentamente e o português sai, limpa o suor e diz:
- Vocês bem me podiam ter dito que os tiros eram de pólvora seca! Tive de a matar com a cadeira...

Late night wander (23)

Se um dos grandes animadores da contestação das escolas privadas com contrato de associação é um padre de nome Querubim, percebe-se melhor a utilização de crianças nas manfestações.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

"À burla"

Ora vejam como a Fernanda explica, bem explicadinha, a negociata dos contratos de associação.

Acabem com a nojeira, pá!

Por razões diversas, nunca abordei aqui o caso "Carlos Castro vs Renato Seabra". Quem costumava tratar desse assuntos no CR era a Brites, se bem se lembram.
Acontece, porém, que alguma comunicação social revela um prazer mórbido em dissecar o assunto até ao mais ínfimo pormenor. Tudo o que me interessa neste caso, já sei: um jovem de 21 anos, sedento de fama, matou um homem de 65 de uma forma bárbara. Essa é a notícia. Como tudo aconteceu, se há atenuantes ou agravantes, compete ao tribunal decidir. O resto é folclore.
Por isso, ao ler isto senti vómitos. Eu gostava é que as televisões tivessem coragem de discutir abertamente isto. Mas se calhar não dava muito jeito, porque as audiências podiam ressentir-se...

Desaparecidos

Não é uma blogonovela, nem um seriado. É uma nova rubrica que, dentro de dias, surgirá no CR para lembrar pessoas que, depois de terem sido presença assídua nos media e empolgado a opinião pública, se eclipsaram e caíram no esquecimento.

Por Baco e Dionísio!


Com o fim de semana à porta lembrei-me que, depois da tensão dos últimos dias, poderia escrever sobre o vinho, para animar as hostes.
Já experimentou pedir num desses bares que animam a noite lisboeta, uma garrafa de vinho? Se nunca o fez, experimente! Vai ver a cara da pessoa a quem fez o pedido e sentir-se como um bêbado que se enganou na porta da taberna.
Na noite lisboeta corre a insípida cerveja, o social whisky, o altaneiro gin, a democratizada vodka, ou o empertigado rum. Volteiam no ar os “shots”, integra-se, sorrateiro, o absinto, acampou a folgazona caipirinha, mas a entrada está vedada ao bom vinho.
Sendo entre todas estas bebidas, com excepção de algumas cervejas, a de mais baixo teor alcoólico, o bom vinho foi proscrito da noite e deixou de ser considerado “bebida socialmente correcta”- a não ser que venha seguido dos qualificativos Porto ou Madeira, esses sim com direito a acompanhar outras bebidas estrangeiras.
Mas se o leitor for daqueles que não desistem à primeira e obstinadamente procurar beber bom vinho num desses locais de culto da noite lisboeta, fica desde já avisado de dois pequenos pormenores: a oferta é pouco variada, de fraca qualidade e os preços avassaladores.
Na Bíblia podem encontrar-se 450 citações sobre o vinho, todas elas em defesa do precioso néctar, considerado bebida sagrada que todos devem ter direito a usufruir. Então, porque razão anda por aí gente a querer tirar-nos esse direito?

Ditaduras amigas

Os líderes ocidentais andam nervosos. A queda da ditadura amiga da Tunísia não veio em boa hora. Acresce que a ditadura do amigo Moubarak está a tremer. E, se cair, outras ditaduras amigas do ocidente podem ter o mesmo destino. Neste momento,do Eliseu à Casa Branca, ninguém pensa em exportar democracia. Apenas na melhor forma de evitar os danos causados pela queda das ditaduras amigas.

Late night wander (22)

Sejamos optimistas . Já só faltam cinco anos para nos vermos definitivamente livres dele.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia- Epílogo

Até às legislativas, fofoquices e intrigas animaram os bastidores do palácio do Belo-Além. Pelo meio, uma viagem a Praga que fez recordar a Viagem do Elefante, Hannibal cumpriu a promessa de levar Maria à Capadócia e, finalmente, os preparativos para a campanha de reeleição.
Quando Hannibal reuniu os seus assessores para lhes comunicar que se iria recandidatar logo foi confrontado com a questão:
- Quais vão ser os temas fortes da campanha, senhor Presidente?
- A agricultura, as pescas e os comboios
Os assessores entreolharam-se em silêncio e assim permaneceram, até que um ousou perguntar:
- Senhor Presidente, o senhor destruiu a agricultura, aniquilou metade da nossa frota pesqueira, eliminou 800 quilómetros de linha férrea. Como é que vai agora promover esses assuntos a temas fortes da campanha?
- Você é muito ingénuo! Acredita que os tugas ainda se lembram disso? Preparem-me visitas a agricultores em desespero, marquem encontros com pescadores e arranjem-me de imediato bilhetes para fazer algumas viagens de comboio, porque eu quero dizer aos portugueses que é preciso investir na agricultura, reanimar a indústria pesqueira que este governo maltratou e que adoro viajar de comboio.
E assim se cumpriram os desejos de Hannibal. Durante a pré-campanha eleitoral, aquele que raramente tinha dúvidas e nunca se enganava, passou a ter muitas dúvidas na aprovação dos diplomas enviados pelo governo. Teceu diversas críticas à actuação de Sócrates e agiu como detonador da crise.
Apesar de serem poucos os tugas que assumem gostar de Cavaco, dois milhões ainda foram votar nele confiantes. O casal que mudou o rumo da sua vida, depois de uma viagem à Figueira da Foz, recebeu o reconhecimento de um quarto dos eleitores tugas agradecidos pelos serviços prestados. Masoquismos…
Talvez por isso, esta blogonovela não tenha um final feliz. Ao contrário das boas novelas da SIC e da TVI, desta vez os tugas não foram felizes para sempre. E os reis de Trapalhândia também não tiveram muitos meninos, porque já não têm idade para isso e o Espírito Santo já fez o seu papel quando engravidou a Virgem Maria.

(FIM)

Cabeças duras

É óbvio que "a decisão de onde e como educar as crianças é um direito dos pais". Não podem é querer que sejam os contribuintes a pagar. Perceberam ou querem que faça um desenho?

Monarquia decimal


Vivemos num sistema de monarquia decimal. De 10 em 10 anos é eleito um novo presidente que, ao fim de cinco, é entronizado como monarca em plebiscito, sufragado pelo povo.
Muitos tugas prefeririam evitar o incómodo de serem obrigados, uma vez em cada década, a escolher um novo chefe de estado. É uma trabalheira e um desperdício de tempo e dinheiro! Mais valia que, uma vez eleito, o chefe de estado ocupasse o lugar até à morte, evitando-se assim a chatice das eleições.
Um dia de eleições é, para muitos tugas, uma maçada. Deslocações às assembleias de voto, perder tempo em filas, andar à procura do número de eleitor que o cartão de cidadão comeu e, à noite, ainda ter de aturar os comentadores, que com a sua verborreia os privam da telenovela.
Entronizemos então os futuros presidentes ( mas não este, que daqui a cinco anos deve ir cuidar dos netinhos e deixar os portugueses em paz). Como contributo para esta monarquia decimal, seguindo os cânones da nossa História, proponho desde já os cognomes apropriados aos monarcas que o país elegeu desde o 25 de Abril:

Ramalho Eanes “O Duro”

Mário Soares “O Fixe”

Jorge Sampaio “ O Eloquente”

Cavaco Silva “o Crasso”

Um primor de jornalismo!

"... guarda-redes do Real Madrid que no final do jogo foi atingido por duas garrafas lançadas das bancadas. A primeira sem lhe tocar, mas a segunda que acertou em cheio na sua cabeça, deixando-o atordoado." Depois queixem-se...

Late night wander (21)

O ataque aos trabalhadores e o favorecimento dos interesses e privilégios dos empregadores, valorizados como factores competitivos no mercado ocidental, só vem provar que os governos europeus, apesar de criticarem a China, anseiam que o mercado de trabalho europeu se paute pelas mesmas regras do gigante asiático.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Santos de casa não fazem milagres


Já aqui escrevi várias vezes que considero o Chile o país da América do Sul mais parecido com Portugal. As declarações de Dário Rojo, que recentemente esteve em Portuga,l vieram confirmar a minha opinião.
A solidariedade vinda de vários países de todo o mundo, levou-o a dizer “ as pessoas de fora dão-nos mais valor do que no Chile”.Quantos portugueses não sentirão o mesmo?

E esta, hem?

Afiançou-me uma professora que, na escola onde trabalha, os alunos que não fossem à manifestação fúnebre tinham falta. Claro que já andam por aí uns patuscos do 31 e filiais espalhadas pela blogosfera,a tentar justificar a execrável atitude de exploração das crianças, defendendo-se com o facto de o governo também ter contratado crianças (pagando) como figurantes para apresentação de iniciativas relacionadas com a educação. Claro que ambas as situações são criticáveis mas quem faz estas comparações ou está de má fé, ou ficou com o rabo entalado pelas críticas da ministra.
Já muitas vezes defendi que era necessário acabar com a subsidiodependência dos empresários portugueses. Mas, neste caso, nem de empresários se pode falar. Trata-se de gente que gere escolas com o dinheiro do contribuinte. O facto de algumas dessas escolas terem conseguido, com esse dinheiro, construir piscinas, campos de futebol e picadeiros, demonstra, entre outras coisas, que o dinheiro pago pelo Estado ultrapassa as necessidades. Só que isso não é novidade nenhuma.
A novidade é que os privados passam a vida a dizer que fazem melhor do que o Estado com menos dinheiro e, neste caso, demonstram exactamente o contrário, exigindo que o Estado lhes dê mais dinheiro do que gasta com a escola pública.

O ilusionista de Trapalhândia (11)

Capítulo 11: Entra em cena o moço de fretes

Capítulos anteriores (aqui)
Quando o telefone tocou, por volta das quatro da tarde,Amando estava com uns amigos na sauna no Hotel Shebraton. Embora o momento para ser interrompido, não fosse o ideal, Amando ficou muito sensibilizado ao constatar que Hannibal não o esquecera durante as férias...
- Olá Amando! Então vai tudo bem, por aí por Belo – Além?
- As pessoas sentem a sua falta, Majestade, mas de resto está tudo bem…
- Que história é essa de me estar a chamar Majestade? Você bebeu demais ao almoço, ou anda a fazer jogo duplo com o Juan Carlos?
- Nada disso, Maj… Presidente. Foi só um piropo.
- Deixe-se lá dessas coisas, que já tem idade para ter juízo. Olhe, preciso que me faça um favor…
- Em que posso ajudá-lo, Senhor Presidente?
- Olhe, Amando, a Maria meteu-se-lhe na cabeça que os jornalistas ainda vão para aí inventar uns mexericos por causa de eu receber a Manuela cá em casa todos os dias…
- Quer que eu fale com a senhora doutora para lhe dizer que pode estar descansada, porque Vocelência nunca a trairia?
- …Não seja idiota, não é nada disso! O que eu quero é distrair os jornalistas com outras coisas. Pensei que era capaz de ser boa ideia dizer-lhes que o palácio do Belo- Além está sob escuta do Governo. Que é que você acha?
- Bem, para ser franco, acho que isso é capaz de dar uma grande bronca, mas se o sr Presidente e a esposa acham que é boa ideia, podem contar com o Amando dos Fretes, que eu não estou aqui para outra coisa…
- Então avance lá. Veja lá como é a melhor forma, mas quero que seja uma coisa credível e que entretenha os jornalistas durante o Verão.
- Eu falo aí com uns amigalhaços e faço uma coisa em grande, pode crer. Até vai parecer um romance policial.
- Pois, Amando, a fazer policiais é que você é bom. A minha biografia escrita por si até me faz lembrar o James Bond. Então posso contar consigo?
-Com certeza Maj… senhor Presidente. Mais nada?
- Olhe, se enjorcar alguma coisa que entale directamente o primeiro-ministro e levante suspeições sobre a sua honestidade, também era capaz de ser uma boa ideia. Assim uns negócios escuros e duvidosos, que dêem para por a reputação dele em causa, está a perceber?
- Como o do BPN, senhor presidente?
- BPN? O que é isso? Não sei do que está a falar, Amando Fretes.
-Ah, pois, tem razão, senhor presidente. Isto é do calor. Talvez o Fripór. Deixe comigo que eu trato de tudo…
- Pronto, confio em si, faça o que lhe parecer melhor.
-Esteja descansado Maj...Presidente. Continuação de muito boas férias e cumprimentos à senhora doutora…
Hannibal desligara, porque já sabia a lenga-lenga do eunuco e não lhe apetecia escutá-la. Amando dos Fretes despediu-se dos amigos à pressa e saiu para o carro que o esperava à porta.
- Para o Belo-Além, senhor doutor?- perguntou o motorista
- Não. Vamos para o jornal “Impúdico”. Tenho que ir lá fazer um número de ilusionismo que o chefe me encomendou…
Amado dos Fretes suspirou e o motorista ouviu-o dizer entre dentes. "Em que é que me vou meter, Pai do Céu. Mas o Hannibal merece. Por ele sou capaz de fazer tudo!"

(amanhã: conclusão)

Quem quer casar com a Carochinha?

É sobejamente conhecida a história destes jovens ex-namorados e não a vou aqui recordar. Depois de ler isto, apenas me interrogo até que ponto a ganância se pode transformar em estupidez. Jovens do meu país, fujam desta miúda!

Late night wander (20)

Quando Cavaco Silva diz que as suspeições que se levantaram sobre ele foi uma encomenda feita a jornalistas, sabe do que fala. Nada melhor do que a sua experiência na matéria, para avalizar as suas declarações. O caso das escutas, encomendado ao espião de serviço, é apenas um exemplo.
Plagiando Jorge Marmelo... " ninguém percebe tanto de assaltos a bancos como um assaltante de bancos".

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (10)

Capítulo 10: No Palácio de Belo- Além
Capítulos anteriores (aqui)
Foram de euforia os primeiros dias no palácio do Belo- Além. Maria andava numa azáfama a mudar bibelots de um lado para o outro e um dia encantou-se por uns naperons que, afiançaram-lhe, tinham sido feitos por uma bordadeira de Salazar. Não conteve a emoção ao pensar na sorte do ditador que tinha tão fiéis serviçais.Ficou longos dias a suspirar por aqueles tempos em que Portugal era um país de gente ordeira, nada comparável com os arruaceiros que agora enchiam as ruas, por tudo e por nada, para fazer manifestações de protesto.

Quando despertou ainda quis dar um salto à cozinha para arrumar os tachos mas já era tarde. Quando se lembrou disso, já Hannibal os tinha distribuído criteriosamente, entre os fiéis amigos que tinham contribuído para a sua eleição. Noites do Padeiro ficou muito sensibilizado com o seu e telefonou de imediato ao pai :
- Pai! O Hannibal deu-me um tacho de Conselheiro. É um tacho sem grande valor pecuniário, mas tem muito valor estimativo.
- Então vê lá se o guardas bem. Ouvi dizer que esses tachos são muito apreciados em Porto Rico- respondeu o ancião.
Feitas as arrumações no Palácio do Belo- Além os dias seguiram-se pachorrentos. Num final de tarde, estava o casal na biblioteca mergulhado em leituras, ( ela lia a Taras e ele a biografia de Salazar) quando Maria interrompeu o silêncio:
- Ai, Hannibal, se eu sabia que ser primeira dama era esta chatice, não te tinha deixado candidatar. Que grande pasmaceira! Não podes fazer nada para animar isto?
- Poder posso, mas também não sei bem o quê. Que sugeres Maria?
- E se usasses a bomba atómica?
- Isso está fora de questão! Essas coisas só se fazem no segundo mandato...
- Ó filho! Isto ainda agora começou e é tão chato, não sei se aguento um segundo mandato.
- E se fossemos à Ilha do Caruncho? O Jasmim é um tipo divertido arranja de certeza alguma coisa para nos entreter.
Foram… Adalberto Jasmim fez os seus habituais espectáculos circenses e o casal animou-se. Hannibal andava tão distraído e bem disposto, que nem se importou com o facto de Jasmim o ter impedido de cumprimentar os políticos do Caruncho, que garantia serem todos loucos. “São coisas da democracia, não devemos interferir”- desabafaria para os jornalistas suaves.
O efeito das férias em Caruncho durou pouco tempo. Ao fim de algum tempo o casal precisava de novas emoções. Um dia, antes de ir para férias, Hannibal decidiu animar os tugas com uma comunicação ao país, feita de improviso. Durante alguns minutos queixou-se do Parlamento de Trapalhândia. Não suportava a ideia de lhe terem tirado poderes sobre as ilhas dos Aviadores, onde o Cherne tinha servido de mordomo a Bush. Era tudo tanga, mas Hannibal precisava de qualquer coisa que o animasse antes de ir para férias.
No doce remanso da Coelha – cujo espaço aéreo resolveu interditar para que os jornalistas não percebessem que todos os dias recebia Manuela à hora do chá- teve uma discussão com Maria

- Olha lá, Hannibal. Essas reuniões todos os dias com a Manuela Rançosa já me estão a cheirar mal. Vê lá se paras com isso, antes que a Taras comece para aí a publicar fotografias e os jornalistas inventem algum mexerico.
- Estás com ciúmes, fofinha? Já sabes que não te troco por ninguém.Olha, mas se estás preocupada com os mexericos dos jornalistas, arranjo já uma solução. Vou ligar ao Amando dos Fretes.


(Continua)

Virtudes públicas, negócios privados, ou um Cacerolazo à portuguesa


Alguém duvida que se a escola privada não fosse um negócio rentável, Cavaco teria incentivado os pais a manifestarem-se nas ruas contra a proposta do governo, aprovada na Assembleia da República e por ele promulgada?
Os magnatas do negócio ouviram a mensagem e não se fizeram rogados. Desceram à rua, reclamando que o Estado obrigue todos os portugueses a pagar os lucros que lhes advêm do negócio da educação. Com o bom gosto que os caracteriza, trouxeram caixões para a rua e desfilaram entre o Saldanha e a 5 de Outubro, exibindo a sua morbidez sórdida. Atingiram o auge da cretinice, ao depositar, em algumas das urnas, fotografias de alunos que frequentam as suas escolas (Pena que nenhum deles exiba a esfinge do instigador Cavaco, mas isso faz parte de um outro guião).
Os negociantes do ensino privado têm também um elevado sentido de responsabilidade. Talvez por isso, usaram as crianças como arma de arremesso. Fecharam os estabelecimentos de ensino, privando-as do direito às aulas e aconselhando-as a formar cordões humanos às portas das escolas.
À primeira vista, isto faz-me lembrar o Cacerolazo das mulheres chilenas da alta burguesia que, munidas de tachos e panelas, protestavam contra o governo de Allende. Encenação, aliás, prosseguida sem êxito por Vera Lagoa durante o PREC. Mas não é. Ao ver crianças instrumentalizadas, tenho apenas a sensação de que o ensino privado em Portugal é um negócio tão rentável que os seus promotores não hesitam em sacrificar os interesses das crianças em função da sua ganância. Deviam ser julgados como exploradores do trabalho infantil.

A Canção do Dedinho


Um manjerico que entabulava conversa com mulheres em discotecas e depois as violava, foi condenado a 9 anos e seis meses de prisão. Recorreu e em boa hora o fez. O Tribunal da Relação do Porto reduziu-lhe a pena em 20 meses, porque considerou que sendo as violações feitas com os dedos e apenas por momentos, o crime não é assim tão grave.
A decisão deve ter sido proferida por um daqueles juízes que consideram que bater na mulher na medida certa não é crime. Fico na dúvida se o juiz teria mesma opinião no caso de ser ele a vítima...
Dediquemos então esta canção ao senhor doutor juiz
Cantem comigo em coro a "Canção do Dedinho":
( Música de Herman José e Carlos Paião
Letra adaptada do Original: Canção do Beijinho)
"Ora põe cá um
E a seguir põe outro
Mete só mais um
porque dois é pouco.
Ai que eu gosto tanto
é tão gostosinho
ser violado
só um minutinho"

Late night wander (19)

Cavaco incitou os pais dos alunos que frequentam o ensino privado a virem para a rua protestar contra os cortes propostos pelo governo. Será que também apoia a greve dos inspectores da PJ, que pararam as investigações ao BPN?

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Jogos de Poder

A comunicação social anuncia que José Mourinho pode estar de saída do Real Madrid, por incopmpatibilidades com Valdano. Nada de surpreendente. Valdano e Mourinho têm egos do tamanho do mundo e dificilmente cohabitam no mesmo espaço. Em jogo, porém, está o futuro do Real Madrid, pelo que o mais lógico seria Florentino Perez chamar os dois e dar-lhes um puxão de orelhas, avisando-os de que os interesses do Real Madrid estão acima das vaidades de cada um.
Os últimos episódios indiciam, pelo menos na aparência, que o presidente do Real Madrid não quer interferir nesta luta de poleiro. Mas será mesmo assim? A minha leitura é diferente. Florentino Perez remete-se ao silêncio porque, embora saiba que o Real precisa de títulos, não quer sequer imaginar que os louros de eventuais conquistas reacaiam exclusivamente em dois portugueses que mudaram o clube e aumentaram a sua competitividade. Não pode, por isso, prescindir de Valdano. Mas se Mourinho sair no fim da época, com títulos conquistados, Florentino Perez não terá vida fácil dentro do clube.

A Coelheira

Temos um Coelho candidato a PM que nos promete um País das Maravilhas, um Coelho que tirou da cartola um resultado retumbante na Madeira e um presidente encurralado na toca da Coelha, que tem por vizinho o coelho Fantasia.
Portugal tem tudo para dar certo... como país de contos de fadas.

O ilusionista de Trapalhândia (9)

Capítulo 9: O regresso de D. Branca?
Capítulos anteriores (aqui)

Voltemos então a 1995, quando Hannibal decidiu deixar o cargo de primeiro-ministro.
Quem não gostou da ideia foi Maria, mas foi-se contendo. Só dois meses depois de Hannibal ter quebrado o tabu é que conseguiu arranjar coragem para lhe dizer o que lhe ia na alma.
- Então tinhas prometido que fazias de mim primeira dama e agora que as coisas começam a dar para o torto deixas o governo? Fui eu confiar em ti durante este tempo todo, fartei-me de sofrer para nada.?
-Tem calma, Mariazinha! Já sabes que nunca me engano, raramente tenho dúvidas e cumpro as minhas promessas. Serei PR e tu primeira dama.
-Agora que os tugas estão a endividar-se como loucos e um dia vão deixar de poder pagar aos bancos, que sentem que os abandonaste, é que pensas em candidatar-te a Belém? Devias ter feito isso em 1991, quando estavas na mó de cima. Agora as pessoas não te vão perdoar!
- Maria, não te lembras que em 1988, quando os tugas andavam doidos a jogar na bolsa, eu os avisei para os riscos, com aquela bela metáfora do “Gato por Lebre”?
- Claro que lembro. E depois veio o Salgueiro dizer que não havia problema nenhum...
- Pois, Maria, tu lembras-te, mas os tugas já se esqueceram e isso é que é importante. Vais ver que com esta febre maluca dos portugueses a endividarem-se, ainda vamos ganhar um bom dinheirito. Imagina que o Oliveira e Costa e o Dias Loureiro e mais uns quantos, quando sairmos do governo, estão a pensar criar um Banco
- E tu vais para Presidente do Conselho de Administração?
- Não, Maria. Já ouviste falar de crédito?
- Ai, valha-me Deus, Nossa Senhora e a Santíssima Trindade! Tu agora vais ser como a D. Branca? Eu bem sei que aquele número do cartão de crédito que ofereceste a todos os portugueses foi genial, mas quando eles perceberem que afinal têm de pagar as dívidas e não êm dinheiro, vão reagir mal...
- Nada disso, minha fofa. Uns vão jogar na Bolsa, ganhar e continuar a pensar que o dinheiro é grátis. Outros hão-de perder, mas isso faz parte da vida.
- E nós?
- Nós? Claro que vamos ganhar! Não te lembras que fui eu que fiz do Noites do Padeiro e do Sabujo Costa ministros?
- Ai que tu um dia vais dentro e que vai ser de mim, Hanníbal? Pões essa gente ignorante, a correr riscos e vais desgraçá-las?
- Se as pessoas não quiserem correr riscos têm bom remédio. Recorrem ao crédito.
- Mas para isso têm de pagar juros…
-Qual é o problema? Isso não é da minha conta… os tugas são adultos e sabem muito bem o que fazem. Se querem endividar-se, que o façam à vontade...Além disso eu já nem estou no governo, talvez no próximo ano já seja PR e tu primeira dama…

Não foram… O povo ainda estava atento e obrigou-os a esperar dez anos, antes de voltarem a azucrinar os portugueses.
Depois de receber da trupe de vampiros a merecida recompensa pelas aulas de ilusionismo onde lhes ensinara os truques que os levaram ao sucesso, Hannibal pensou que tinha chegado a hora de preparar a sua candidatura ao palácio do Belo Além. Convocou os vampiros para uma reunião e comunicou-lhes:
- Meus amigos! Fiz de vós pessoas respeitáveis, ajudei-vos a enriquecer, agora chegou o momento de me candidatar ao palácio do Belo- Além. Embora as televisões daqui a uns anos venham a deslumbrar-se com séries sobre a nossa espécie rara de vampiros, a verdade é que a vida não nos corre de feição. Durante os anos em que estive afastado, aprendi uns números novos, que mostrei pela primeira vez numa festa de aniversário dos meus netinhos. Digo-vos que toda a gente ficou deslumbrada.
- E que números são esses, professor? -
perguntou Noites do Padeiro
- A seu tempo todos saberão. Só vos digo que são muitos e variados. O mais espectacular será fazer desaparecer a Constituição...
- Parece-me uma excelente ideia
- disse Sabujo Costa batendo palmas.
- Bem, mas esse número só resulta em pleno, se conseguir que a Manuela seja primeiro ministro.
- Primeira-ministra, Hanníbal! Eu quero ser é primeira ministra
- corrigiu Manuela Rançosa com sua voz esganiçada.
-Seja lá como quiseres. O importante é que eu possa chegar ao Palácio do Belo- Além e tu me ajudes a suspender a Democracia por uns tempos. Infelizmente, para lá chegar, ainda é preciso eleições e fazer campanha. Ora isso custa dinheiro e eu sou um mísero professor...
- Então e as acções que te ofereci?- perguntou Sabujo Costa
- Agradeço a tua generosidade, Sabujo, mas aquilo não dá nem para um dia de campanha...
Os presentes olharam, inquiridores, para Sabujo, à espera de uma reacção.
- Se precisas de dinheiro, Hannibal, isso não será problema. Arranjo aí uns números novos com o Noites do Padeiro e mais alguns amigos dele, faço sumir o dinheiro numas "off shores" e depois há-de aparecer para pagar a tua campanha.
-Foste um bom aluno, Sabujo Costa. Bem mereces partilhar comigo a Coelha.
Alguns riram-se muito com esta tirada de Hannibal, outros entreolharam-se interrogativos, porque não perceberam o trocadilho. Brindaram com champagne e começaram a preparar a corrida ao Palácio do Belo- Além.
Foi mais fácil do que esperavam. A luta entre dois candidatos do partido da Rosa Murcha, estendeu uma passadeira vermelha a Hannibal que venceu folgadamente.
Até Adalberto Jasmim, presidente do governo regional da Ilha do Caruncho, que sempre tratara Hannibal por sr. Silva, passou a tratá-lo por professor.
( continua)

Rescaldo das Presidenciais

Vencedores:
Cavaco Silva:
apesar de ter sido o presidente reeleito com o menor número de votos e a mais baixa percentagem, ganhou as eleições, que era o seu objectivo. Como era de esperar, o seu discurso de vitória foi mesquinho e vingativo. Revela muito sobre o candidato que os portugueses decidiram reconduzir. Têm o que merecem.
José Manuel Coelho: foi a grande surpresa da noite eleitoral. Fez campanha sem dinheiro, sem meios, sem logística e recebeu 4,5 por cento dos votos. Mas a sua grande vitória foi na Madeira. Ficou em segundo lugar, a seis mil votos de Cavaco, e ganhou em diversas freguesias e concelhos, incluindo o Funchal. Alberto João Jardim deve ter ficado à beira de um ataque de nervos. Mas quando um candidato como Coelho recebe quase 200 mil votos, fica claro que, um dia destes, um populista seduzirá os portugueses. E isso é assustador...
Vencidos:
Manuel Alegre:
a derrota só não foi decepcionante, porque a campanha desastrosa que fez já o prenunciava. Esperava-se, de qualquer modo, uma votação superior à de 2006.
Defensor de Moura: fez uma campanha séria e empenhou-se em levantar questões que os portugueses deveriam ter maturidade suficiente para exigir que fossem esclarecidas, mas os portugueses fizeram ouvidos de mercador.
Francisco Lopes: não conseguiu manter os votos de Jerónimo de Sousa, num momento em que tudo apontava, poderia ter uma votação significativa.
Mário Soares: nunca declarou apoio expresso a nenhum candidato, mas todos sabiam que apoiava Fernando Nobre. O resultado do presidente da AMI foi um bom resultado, mas de nada lhe servirá no futuro.
Alberto João Jardim: o segundo lugar de Coelho na Madeira não será fácil de digerir.

Late night wander (18)

Na noite eleitoral houve mais vencidos do que vencedores.Daqui a umas horas, escreverei sobre isso.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Teresópolis






Já fui muito feliz em Teresópolis. Recordo os banhos na cachoeira, os picnics em família e aquele quarto da casa construída na encosta, com uma vista soberba, que me era sempre reservado. Lembro-me das penosas viagens de Niterói para Teresópolis, só para passar o fim de semana, mas que eram recompensadas com aquele ambiente de paz e convívio com a Natureza, durante dois dias.

Desde que a família decidiu vender a casa, nunca mais voltei a Teresópolis mas, ao ver o meu amigo Pacheco de Miranda fazer uma reportagem da catástrofe que se abateu sobre a cidade, senti um nóa apertar-me a garganta e dei comigo a tentar descortinar se ainda estaria de pé, ou teria sido levada pela enxurrada.

O ilusionista de Trapalhândia (8)

Capítulo 8: O beijo da morte

Capítulos anteriores (aqui)
O Mundo parece estar arrependido por ter tentado destruir a diferença. Por isso atribui o Prémio Nobel da Paz a Rigoberta, uma índia guatemalteca, ignorando dois ex-inspectores da PIDE a quem Hannibal concede pensões por "serviços excepcionais". Injustiças…
Nas bocas do mundo começa a pronunciar-se a palavra Internet (Net para os amigos) que irá revolucionar os já tão alterados hábitos de milhões de pessoas. Com os computadores também se criam efeitos especiais. Começou a era da realidade virtual.
Mas no ano da graça de 1993, em que se quebram todas as barreiras de comunicação, as grandes vedetas são os dinossauros de Spielberg, que invadem as salas de cinema com o seu Parque Jurássico.
O desemprego e a recessão ameaçam os países ricos, a SIDA continua a fazer milhares de vítimas e a Igreja a dizer não ao "Control", agora à venda com vários sabores.
Em Trapalhândia há um novo canal de televisão. É da Igreja e chama-se TVI. Em breve irá mudar de mãos. De mão em mão anda também o primeiro CD ROM feito no país . Apesar de o conteúdo não ser dos mais aliciantes, (a I Série do Diário da República desde 1970), a curiosidade é grande. Dentro de pouco tempo será uma banalidade.
O que não é banal é que no espaço de poucas horas morram duas crianças num mesmo Aquaparque, os novos centros de diversão da época estival. Mas acontece no Restelo e as dúvidas sobre as condições de segurança daqueles estabelecimentos aumentam.
Guiada pelo ilusionista Hannibal, Trapalhândia está no pelotão da frente na Europa e em Outubro, enquanto os estudantes mostram o rabo ao Ministro da Educação, é lançado o primeiro satélite tuga. Começou a aventura no espaço.
Em 1994 Ulisseia é capital Europeia da Cultura e vêem-se os primeiros sinais da EXPO -98: começam as demolições. A TV Pimba assenta arraiais com "Perdoa-me", "Cenas de um Casamento" e "All you Need is Love". A RTP contra-ataca no mesmo estilo .
De Foz Côa vem a surpresa: gravuras pré-históricas são descobertas e ... era uma vez uma barragem.Os telefones eróticos atacam em força, as vendas por correspondência são uma praga, a publicidade entra em nossas casa sem pedir licença, os hipermercados crescem como cogumelos, os desportos radicais assentam praça. Em cada esquina há um moedinhas, uma caixa multibanco e um cócó de cão. Pedro Abrunhosa pensa interpretar o sentir dos portugueses cantando "Não Posso Mais". Mas estava enganado, porque o pior ainda estava para vir...
Depois das auto estradas de betão, entramos , em 95, na era das auto estradas da informação. Mas nestas não andamos: navegamos ou "surfamos" sem pagar portagem. A conta vem ao fim do mês, como a dos telefones eróticos.
Chega o porta- moedas electrónico e a TV por cabo, vai-se às Docas de patins em linha, e quem nos traz as cartas é "O Carteiro de Pablo Neruda". O muito chorado Monumental reabre as suas portas transformado em Centro Comercial. A sociedadde de consumo celebra mais uma vitória…
Cada um tem o seu PC , os cartões de visita passam a incluir fax e e-mail. E toda a gente nos quer levar coisas a casa. Da Telepizza à comida chinesa, passando por refeições completas, incluindo serviço e guardanapos, tudo é possível obter através do telefone. O trânsito vai aumentar na hora de ponta de fim de tarde e as motoretas da Telepizza passam a ser reefrenciadas como perigo público.
Estamos em Trapalhândia, no ano de 1995, e a música de Vangelis ecoa pelo País. Consta que algumas coisas vão mudar lá para o final do ano. "É o Bicho é o Bicho"- canta Iran Costa.
Por esta altura, já Hannibal tinha cumprido o seu papel. Com a sua trupe de vampiros destruíra a agricultura e a pesca, começara a reciclar os tugas para serem prestadores de serviços, oferecendo em troca a parafernália consumista.
Sabendo que a “poção mágica” ( que mais não era do que os fundos comunitários que diariamente abarrotavam os cofres da Nação) já não chegava para saciar os ímpetos consumistas de um povo extasiado e adormecido, o ilusionista- vampiro que agora comia bolo-rei diante das câmaras de televisão, decidiu jogar a cartada do “tabu”.
"Ah, bom, não sei se me recandidato, afinal vocês estão a ser demasiado exigentes, já vos dei tudo o que prometi e vocês ainda querem mais, se calhar o melhor é dar o lugar a outro". Alguns capangas do ilusionista esguio tentaram demovê-lo, mas logo desistiram quando viram a possibilidade de ganhar mais dinheiro, servindo outros patrões. Não se sabe se por sugestão do próprio Hannibal , se por iniciativa própria, um grupo de vampiros decide criar o BPN. Antes, porém, vão ter de aprender alguns números de ilusionismo com Hannibal. As aulas serão pagas anos mais tarde com umas acções suspeitas. Só alguns tugas ficam de tanga, mas todos serão condenados a pagar, durante gerações, os números do gangue de ilusionistas-vampiros que Hannibal amestrara.
Aos poucos, o povo de Trapalhândia começa a mergulhar no torpor provocado pelo beijo dos vampiros. Mas não nos adiantemos...

( Continua)

Late night wander (17)

O FMI ainda não chegou, mas mandou dois emissários para abrir caminho

sábado, 22 de janeiro de 2011

10 reflexões em dia de reflexão

Hoje é dia de reflexão. Por isso vos proponho que, antes de votarem amanhã, pensem naquilo em que eu pensei:
1- Paulo Portas foi um dos mais ferozes críticos de Cavaco quando era director do Independente. Hoje apoia Cavaco incondicionalmente e sujeita-se às humilhações do candidato, com o sorriso comprado num dentista.
2- Pedro Passos Coelho apenas apareceu episodicamente na campanha, porque a contragosto teve de apoiar um candidato que não é o dele.
3- Cavaco não respondeu a nenhuma das suspeições que sobre ele se levantaram, zombando dos deveres de um qualquer candidato democrático.
4- A situação a que chegámos não é culpa exclusiva deste governo. O actual estado do país começou a desenhar-se quando Cavaco acabou com a agricultura e com a pesca, reduziu Portugal a um país de serviços e nos entregou, como oferenda, aos agiotas.
5- Foi Manuela Ferreira Leite, a maior amiga de Cavaco, que criou a geração dos recibos verdes.
6- As tiradas populistas e demagógicas de alguns candidatos podem ser simpáticas, mas não resolvem os problemas do país.
7- Um candidato que erige como bandeira não ser político ou ter vivido sempre à margem dos partidos, não é o que neste momento Portugal precisa.
8- Votar num candidato que incita os pais a virem para a rua protestar em defesa do apoio ao ensino privado, é votar na instabilidade.
9- Defender a abstenção, porque nenhum candidato o entusiasmou, é demitir-se dos problemas do país.
10- Uma pessoa de esquerda não se abstém. Vai à luta e vota, para derrotar o candidato da direita.

O ilusionista de Trapalhândia (7)

Capítulo 7: A Rendição
Capítulos anteriores (aqui)
Dois anos antes caíra o Muro de Berlim e atrás dele caíram os regimes comunistas.
Os jovens do mundo ocidental vivem empolgados o desenrolar dos acontecimentos de 89, (alguém, reparou que lido ao contrário é 68?) mas os ídolos e os ícones são diferentes. Cohn Bendit é preterido em favor de Karl Popper, em vez de flores na cabeça usam cartões de crédito nos bolsos, e trocam a leitura de
Salut Les Copains pelo Financial Times. Ao interesse pela evolução dos tops musicais, sucede-se uma crescente atenção às cotações da bolsa. É que os jovens do final dos anos oitenta já não são hippies. São yuppies e em vez dos jeans coçados envergam gravatas de padrões psicadélicos, fatos de marca e circulam em carros topo de gama, de telemóvel em riste.
A costa alentejana é atingida por uma maré negra, enquanto o País dança nas discotecas ao ritmo da Lambada. O telemóvel chega a Portugal e os portugueses lêem a "Crónica do Rei Pasmado". O novo aparelho é muito caro, apenas ao alcance de bolsas mais abonadas. Mas não tardará que se transforme numa praga e um restaurante lisboeta afixe à porta: "Proibida a entrada a cães e a telemóveis".
A Revisão Constitucional permite as nacionalizações totais de várias empresas e apenas com três letras se passa a escrever a palavra imposto (IRS).
No início da década de 90, em Trapalhândia, vai toda a gente ao "Baile do Rivoli" , mas "Não há estrelas no Céu". Quem o afirma é Rui Veloso. Por pouco também deixa de haver peixe. Um desastre ecológico destrói 100 toneladas no rio Tejo e uma maré negra atinge Porto Santo. Para nos dar as notícias nasce um novo diário: “ O Público”.
No ano em que o escudo adere ao Sistema Monetário Europeu (1992), Portugal estreia-se na Presidência da CEE e, em Lisboa, o polémico Centro Cultural de Belém é inaugurado. Para fechar logo de seguida e reabrir no ano seguinte. Ele há coisas assim em Trapalhândia...
Com os Jogos Olímpicos e a Expo -92 a realizarem-se em Espanha, os tugas passam o ano a saltar a fronteira, inaugurando as "escapadelas de três dias".
Quem também se escapa, mas por período mais longo, para os EUA, é o corrector da Bolsa Pedro Caldeira. O jogo da Bolsa dera para o torto e várias figuras públicas ficam sem umas massas valentes. Quem não anda muito bem de finanças são os estudantes. Novos actores da sociedade de consumo, os jovens não têm dinheiro para as propinas. Vai daí, manifestam-se em frente à AR. Derrubam o Ministro mas azar... os pais vão mesmo pagar propinas.
Finalmente a RTP deixa de ter o monopólio televisivo. A esperança numa televisão melhor nasce com a SIC, mas o sonho dura pouco tempo. A qualidade passa a ser nivelada por baixo. No entanto, a aposta no
"Poder do Dinheiro" revela-se acertada. Por meia dúzia de contos, qualquer um se despe em palco, mas desta vez os púdicos espectadores e os atentos Bispos não reagem contra a ofensa aos costumes perpetrada por filmes "demoníacos" como "O Império dos Sentidos" e "Pato com Laranja". A sociedade de consumo ri-se baixinho... enquanto as iras se voltam contra Saramago e o seu "Evangelho Segundo Jesus Cristo". Os tugas estão rendidos. O dinheiro é barato e o crédito fácil. O endividamento sobe de forma assustadora, mas os vampiros garantem que não há problema.

(Continua)

Late night wander (16)

E que tal sugerir ao DN que faça um retrato de Belém? É fácil. Basta analisar as contas e concluir que Cavaco aumentou a despesa em 31 por cento nos cinco anos de mandato.
Depois é só explicar como e porquê.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Um grande imbróglio

Se no domingo Cavaco for reeleito, com mais votos do que os dos seus familiares e amigos, então, os portugueses têm um grave problema para resolver. Uns desconfiam que Sócrates é mentiroso. Outros desconfiam da honestidade de Cavaco, por se ter recusado a esclarecer as dúvidas que sobre ele recaem.
Esta é a verdadeira crise do Portugal democrático, que o FMI nunca poderá resolver.

O ilusionista de Trapalhândia (6)

Capítulo 6: a chegada do Vampiro

Capítulos anteriores ( aqui)
Entusiasmado, o povo deu-lhe a maioria e Hannibal começou a governar. Ao fim de algum tempo, constatou que as promessas daquele senhor esguio e com problemas de dicção se estavam a cumprir. Aqueles cartõezinhos magnéticos que permitiam adiar para os meses seguintes o pagamento da parafernália de produtos que ele prometera eram mesmo mágicos, e os lares encheram-se de coisas que o povo não percebia muito bem como funcionavam, nem para o que serviam, mas que com o tempo passaram a ser indispensáveis.
Quatro anos depois o povo, satisfeito, voltou a elegê-lo quase por aclamação. Por essa altura Trapalhândia vivia em plena euforia bolsista e os tugas aprendiam novas siglas: OPV e OPA fazem parte do novo léxico.Os hipermercados são a nova sala de visitas domingueira dos tugas que não querem perder, ao fim de semana, o hábito dos engarrafamentos de trânsito. A festa do consumo já chegou e os tugas divertem-se. Renderam-se aos encantos da sociedade de consumo e começam a endividar-se.
Entrementes, Hannibal ia prosseguindo o seu trabalho. Andava tenso e crispado, mas simultaneamente feliz. Maria não estranhava o comportamento do marido, mas ficou preocupada quando uma noite, enquanto passeavam ao luar de Cryingmount ele a beijou no pescoço. Sentiu uma leve picada que pensou ser um "chupão". Depois, perdeu as forças e desmaiou.
Na manhã seguinte, ao acordar, estava invulgarmente bem disposta, mas não conseguia lembrar-se de nada do que ocorrera na véspera. Levantou-se. Quando estava diante do espelho, a custo reprimiu um grito. Tinha uma pequena cicatriz no pescoço...
Chamou Hannibal, mas não obteve resposta. Vestiu-se, tomou o pequeno almoço sozinha e foi ao jardim, onde encontrou o marido em grande azáfama. Estava ainda mais crispado do que nos últimos dias.
- Que estás a fazer, Hannibal?
- Estou a arrancar os cravos. Já não suporto estas malditas flores que não me deixam trabalhar.
- Mas eram tão bonitos...
- Bonitos? Tu achas os cravos bonitos? Pois fica sabendo que são umas flores daninhas que só criam problemas. Estão a dar cabo do jardim que me tem dado tanto trabalho a construir.
- E o que vais plantar no lugar dos cravos?
- Papoilas! Quero o país inundado de papoilas para fazer os tugas felizes.
A voz crispada de Hannibal deixou Maria inquieta. Aproximou-se um pouco mais para lhe fazer uma carícia. Enlaçou os braços em volta do pescoço dele e, quando o ia beijar, reparou que os incisivos de Hannibal tinham crescido de forma desmesurada.
(Continua)

Se não votarem em mim, vem o lobo mau e dá tau-tau!

Para Cavaco vale tudo. Tão depressa ameaça com o fantasma de uma grave crise política, como diz que é o garante da estabilidade. Afirma que o país, na situação em que está, não aguenta uma segunda volta e que se não for eleito as taxas de juro vão aumentar, mas é o candidato que mais dinheiro gasta na campanha e o Presidente mais despesista de sempre.
Se Cavaco está tão preocupado com os custos de uma segunda volta, quer dizer que também não quer eleições legislativas antecipadas, ou nesse caso abrirá uma excepção?

Sondagens fast food

Quando o fast-food chega às sondagens, não há credibilidade que resista.

Late night wander (15)

Chega-me a notícia de que metade dos portugueses diz que Portugal está pior do que há 40 anos . Ou sofrem de cavaquite aguda ( perda de memória selectiva), ou são parvos.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

A dívida belga

Além dos problemas políticos que ontem aqui aflorei, a Bélgica tem uma das maiores dívidas externas da zona Euro. Nos meios políticos ouve-se falar em surdina de uma possível entrada do FMI no país. Há quem admita que, se Portugal tiver de recorrer ao Fundo Europeu, a Espanha aguentará apenas alguns meses e, logo a seguir, a gula dos mercados virar-se-á para a Bélgica que, além de um endividamento crónico, vive há três anos um impasse político.
Se isso vier a acontecer os especuladores atingem o coração da Europa e, então, talvez a senhora Merkel perceba o que está em jogo.
Pensando em termos europeus, não deixa de ser preocupante imaginar o "berço" da União Europeia partido em dois, com o FMI a intervir para colar os cacos...

Eles precisam, é de Vaselina!


Os defensores da entrada do FMI em Portugal, “para pôr isto na ordem”, devem andar descoroçoados.
Na semana passada, depois de Portugal ter vendido dívida a um juro mais baixo do que os analistas da desgraça previam, recomendei-lhes Eno. Hoje, ao saber que Portugal conseguiu colocar 750 milhões a 4 por cento (juro elevado, mas mesmo assim ( 120 pontos abaixo da última emissão), o melhor é recomendar-lhes Vaselina. Não uma vaselina qualquer. Vaselina Pacu, a mais indicada para os que vivem com o lema "a desgraça do país é a garantia do nosso ganha pão".

O ilusionista de Trapalhândia (5)

Capítulo 5: Pão e circo, a hora do ilusionista

Capítulos anteriores ( aqui)


Por esta altura, os deuses também deviam andar entretidos com a sociedade de consumo e não ouviram as preces de Maria. De nada lhe valera prometer ir a Fátima todos os meses durante um ano, rezar o terço todas as noites, só entrar no Amoreiras para comprar botinhas para o neto e não comer chocolates durante um ano, se Hannibal ganhasse com maioria absoluta.
Não ganhou, mas as profecias do homem que nunca se enganava, raramente tinha dúvidas e não perdia mais do que cinco minutos diários a ler os jornais, cumpriram-se.
Chateado com as reformas que Hannibal propunha, o PRD caiu na esparrela e apresentou uma moção de censura. O governo caiu e Soares “O Fixe”marcou novas eleições para o Verão de 1987. Quando Maria soube indignou-se:
-Hannibal, tu estás a ver isto? O Soares marcou eleições para o Verão só para não podermos ir de férias! E logo este ano que prometeste que me levavas à Capadócia. Não há direito!
- Deixa lá Maria. Com o dinheiro que todos os dias chega da Europa, não vão faltar oportunidades de te levar à Capadócia. Agora o importante é salvar o país...
- Lá estás tu com a mania das grandezas! E que vou fazer ao bikini que comprei no Amoreiras, se não vou para a praia este ano?
Por essa altura, Trapalhândia recebia, diariamente, milhões de contos para se modernizar. Assim começaram a surgir casas com piscina e veículos todo terreno comprados com verbas destinadas à agricultura, enquanto uns portugueses ainda mais engenhosos faziam uma redestribuição pouco escrupulosa, mas generosa, das verbas do Fundo Social Europeu destinadas à formação.
Na campanha para as eleições legislativas de 1987, os discursos de Hannibal eram dirigidos ao povo, com promessas de felicidade:
- Prometo-vos, se me elegerem, que terão dinheiro para comprar frigoríficos, arcas congeladores, televisores de alta definição, computadores e uma parafernália de produtos que vocês nem imaginam que podem existir, nem sabem para que servem, mas que se vão tornar indispensáveis na vossa vida.
- E também nos dás automóveis, casas de fim de semana e o direito a passar férias em Cancún?
- perguntou o Povo.
- Dou-vos tudo isso e ainda férias nas Maldivas, “time-share”, centros comerciais, hipermercados recheados de saldos, promoções e outras confusões, automóveis para os vosso filhos, 100 canais de televisão, caixas multibanco e cartões de crédito à fartazana, para vocês se divertirem.
- Nós já não acreditamos no Pai Natal- respondeu o Povo incrédulo. Só podes ser um daqueles publicitários que prometem tudo, mas quando a gente vai a ver descobre que era um embusteiro.
- Estais todos muito enganados. Eu descobri a poção mágica que transforma os vossos desejos em realidade. Confiai em mim, que não vos desiludirei.
- Tá bem, já percebemos… vais organizar um daqueles concursos estilo Cola Cao, pões-nos a todos a comprar aquela mistela e depois sorteias os felizes contemplados- retorquiu o Povo desconfiado.
-Ó povo incréu! Julgais vós que seria capaz de vos intrujar? Se digo que é para todos , é mesmo para todos. Sem concursos, sem truques, apenas com a minha capacidade para utilizar a poção mágica em vosso proveito. E digo-vos mais… se me reelegerem ainda vos apresento uma Fada Madrinha que, apesar de ter cara de Bruxa Má, vos irá satisfazer outros desejos.

Uma noite, depois de um comício, Maria não se conteve e , quando chegaram ao hotel, enfrentou Hannibal:
-Tu estás maluco? Que é que andas aí a magicar ?Subiu-te o poder à cabeça e já não sabes o que dizes? Puseste-te a prometer porcarias a toda a gente, como é que as vais pagar?
-Está sossegada, Maria, tem calma. Eu não vou pagar absolutamente nada, não estou doido. Vou é fazer as coisas de maneira a que os portugueses pensem que as coisas não lhes vão custar nem um centavo. Inventei uns cartõezinhos magnéticos fantásticos. Quando as pessoas os passam por uma máquina, acreditam que compraram as coisas sem gastar dinheiro. A conta só vem no mês seguinte...
- E se no mês seguinte as pessoas não tiverem dinheiro para pagar?
- Começam a pagar juros, claro...
- Mas as pessoas não percebem isso, pois não? Olha que isso ainda acaba mal, Hanníbal...
- Se as coisas correrem para o torto vão mas é culpar o governo que estiver em funções, já nem se lembram que fui eu a dar-lhes aqueles cartõezinhos mágicos.Com os salários a subir e os juros a baixar, durante 10 ou 15 anos as pessoas aguentam-se. Daqui a 10 anos vou-me embora e o governo que vier a seguir que se amanhe, porque nessa altura já serás primeira dama e eu serei PR, tenho autoridade moral para criticar as asneiras que o primeiro ministro da altura fizer...
- Olha lá, tu vais ser primeiro-ministro, ou ilusionista de circo?
- ...se queres que te diga com franqueza, nem estou muito preocupado com isso...
tenho cá uma fezada que quando chegar a PR, a Manuela vai ser PM e sabes como nos damos bem.
- Lá isso é verdade. Ela é muito tua amiga… mas achas que as pessoas quando virem que não têm dinheiro para pagar as dívidas não se vão revoltar?
- Qual revoltar, qual quê! Os tugas querem é pão e circo e têm a memória curta. Olha, toma lá o meu cartão de crédito e vai ali comprar umas coisinhas ao Amoreiras, para te pores bonita para a minha tomada de posse...
- E tu que vais ficar aqui a fazer?
- Vou reunir com uns jornalistas
- Com jornalistas? Mas tu nem lês jornais, de que é que vais falar com os jornalistas?
- Não vou falar com eles. Vou fazer um dos meus números de ilusionismo.
- Cuidado com os jornalistas, homem! Olha que se eles começam a puxar os cordelinhos ainda são capazes de descobrir umas coisas...
- Está descansada, mulhere! Os jornalistas portugueses são muito suaves. A maioria gosta mais de estar ao lado do poder, do que andar a fazer investigação. Não vês o Amando,que me segue para todo o lado como um cãozinho de estimação?
- Vê lá se eles descobrem o que fizeste à minha madrasta!
- Eles querem lá saber disso, Maria! Vais ver como dentro de algum tempo me vêm comer à mão. Faço uns números novos, como eles nunca viram, digo umas coisas que eles não gostam de ouvir, depois o Amando trata de os amansar, com a promessa de uns exclusivos e daqui a algumas semanas tratam-me como um ídolo. Vais ver as vezes que vou aparecer nas capas dos jornais como a grande esperança de Portugal...
- Tu lá sabes...mas olha que eu tenho muito medo de jornalistas...

(Continua)

Late night wander (14)

As eleições para a PR deveriam ser como os referendos. Sendo a abstenção superior a 50%, a decisão dos eleitores não é vinculativa. Poupava-se dinheiro e chatices.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Farinha Amparo e Spaguetti Bolognese


Em tempos, quando um automobilista fazia asneiras e violava as regras de trânsito, havia sempre quem perguntasse, em alusão a uma farinha que dava brindes :
- Olha lá, saiu-te a carta num pacote de Farinha Amparo?
Os tempos mudaram. A farinha Amparo deixou de dar brindes e o pregão passou a ser outro:
- Saiu-te a carta num bolo rei?
Veio depois a União Europeia, acabou com os brindes do bolo-rei e, hoje, os automobilistas fartam-se de fazer asneiras mas ninguém invoca a farinha Amparo ou o bolo que, noutros tempos, apenas se comia no Natal.
Hoje, a grande moda, é perguntar a um licenciado de reputação duvidosa:
- Tiraste a licenciatura depois de Bolonha, não foi?
Bolonha veio descredibilizar muitas licenciaturas e desvalorizar os mestrados. Pouco mais se poderia esperar de uma terra que inventou aquela pasta tão apreciada por miúdos. No entanto, também em breve este pregão cairá em desuso. Um dia destes, o licenciado interpelado sobre a origem da sua licenciatura, responderá descontraidamente:
- Comprei-a na Internet!

O estranho caso dos belgas


Os belgas- um povo estranho que entre outras singularidades elegeu o mexilhão como prato gastronómico nacional- estão há quase oito meses sem governo. Na verdade, o impasse dura há mais de três anos, porque francófonos e flamengos não se entendem e as últimas eleições legislativas, realizadas em Junho, deram a vitória na Flandres ao partido flamengo que preconiza a dissolução da Bélgica e, na região francófona, os vencedores foram os socialistas,que defendem a manutenção da união de Flandres e Valónia.
Quem, por estes dias, demande a insípida Bruxelas, a inóspita Antuérpia ou a pacata Gent, não se aperceberá que este povo dicotómico está desgovernado.
Tudo funciona normalmente. Nos transportes, nos hospitais, nos serviços públicos, nos tribunais ou nas escolas não se ouve ninguém falar de crise política e todos parecem alheios à eminente dissolução de um país. Não sei se são loucos, inconscientes, desinteressados ou conformistas. Sei que continuam a sua vida. Sem governo, nem solução à vista.
E com um grave problema de dívida, que abordarei aqui amanhã.

O ilusionista de Trapalhândia (4)

Capítulo 4: O Farol das Amoreiras

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Ao fim de 20 lições de dicção, Hannibal já pronunciava com desenvoltura "supercalifragiliespiralidoso", mas continuava a engasgar-se com o "Rato que roeu a rolha da garrafa do rei da Prússia". As suas preocupações, no entanto, eram outras. Na iminência da entrada de Portugal na CEE precisava de aplicar os truques que engendrara para convencer os tugas que com ele seriam felizes. Os ventos da História estavam do seu lado e traziam até Portugal a Internacional Consumista que será a sua maior aliada.
O primeiro sinal de que a Internacional Consumista podia estar a chegar a Trapalhândia não veio do cometa Halley que nesse ano visitou de novo a Terra, anunciando a comercialização do telemóvel. Veio da URSS com a chegada de Gorbatchov ao Poder. Anos depois emprestaria o seu nome a uma pizza. A Perestroika é palavra de ordem e a solidariedade do mundo contra a fome desperta, com um sinal de esperança, no mega concerto Live Aid, que põe o mundo a cantar "We are the World".
Em Trapalhândia, os tugas fazem filas. Para levantar dinheiro no multibanco e preencher os boletins do totoloto, na esperança de equilibrar o orçamento familiar. As agências de viagens andam numa azáfama a organizar excursões de todo o País para Ulisseia. Motivo: nas Amoreiras acaba de ser inaugurado o farol da sociedade de consumo à tugalesa - o Centro Comercial das Amoreiras.
Trapalhândia entra formalmente para a CEE no dia 1 de Janeiro de 1986 e o primeiro bébé proveta a nascer no País já é um cidadão comunitário. Ambos os acontecimentos podem ser registados com as novas máquinas fotográficas descartáveis. No Hospital de Santa Cruz faz-se a primeira transplantação cardíaca. A medicina tuga vive um ano de glória.
Acaba o papel selado e começa o "Cartão Jovem" . A sociedade de consumo proclama eufórica :"Venham a mim as criancinhas".
"Era Uma Vez na América" enche as salas de cinema, enquanto a campanha de Freitas do Amaral sob o lema "P'ra Frente Trapalhândia" é feita ao bom estilo americano. Mário Soares "é fixe" e ganha as eleições em Fevereiro, mas quem vai p'rá frente é a sociedade de consumo. A D. Branca está presa, mas a Bolsa faz a sua vez e os tugas entram em euforia bolsista. O vai-vem Challenger explode com sete tripulantes a bordo. Pausa no programa de voos tripulados. Os tugas passam a voar nas asas do sonho, por sua conta e risco…
(Continua)

Late night wander (13)

Como ainda não percebi que benefícios poderão advir para os portugueses, da entrada do FMI em Portugal, fui perguntar a gregos e irlandeses, que já o têm como hóspede há algum tempo. Nem uns nem outros me souberam explicar...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O ilusionista de Trapalhândia (3)

Capítulo 3: Planos para o futuro

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Regressaram a Ulisseia em silêncio, cogitando sobre o futuro. Naquela época ainda não havia auto-estradas e a viagem era longa. Perto de Erisurfeira Maria perguntou:
-Hannibal, filho, tu sabes no que te vais meter? Isso da política não é para ti, só nos vai trazer problemas. Tu já estiveste no governo do Sá Cordeiro (“que Deus o tenha em descanso”) e não te deste lá muito bem, porque é que vais insistir? Estás tão bem a dar aulas lá na Universidade, tens o lugarzinho no Banco e ainda fazes aqueles números de circo, para que é que te vais meter na política?
- Na política, eu, Maria? Tu não estás boa da cabeça, mulher! Eu nunca fui nem nunca serei político. Sei que estamos muito bem na vida, apesar de sermos míseros professores… mas político nunca! O meu futuro é o ilusionismo. Não gostavas de ser primeira dama?
- Primeira dama? Mas isso não é o que chamam à mulher do Presidente da República?
- É…
- Então vais ser Primeiro Ministro ou Presidente da República? Ai filho, não estás mesmo nada bem. Devias ter tomado o Ben-u -ron, como eu te recomendei. Vê lá, queres que vá eu a conduzir até Lisboa?
- Ai, Maria, não estás a perceber nada. Dá tempo ao tempo. Para já vou ser primeiro-ministro, mas daqui a uns 10 anos candidato-me a presidente da República para fazer de ti primeira dama…
- Daqui a 10 anos? Dizes que não queres ser político e já estás a pensar ser presidente da República daqui a 10 anos?
- Ó filha, para ser presidente da República não é preciso ser político. Os tugas vão cansar-se dos políticos e só quem não for político, como eu te afianço que nunca serei, e os tugas vão acreditar que não sou, é que tem hipóteses de vir a ser presidente. Confia em mim, vá lá…
- Bem, se me garantes que vou ser primeira dama, confio. Afinal, no ilusionismo tu és mesmo bom...Mas como é que estás tão certo de ganhar as eleições? Aprendeste algum número de ilusionismo novo?
- Então como é que pensas que cheguei à Palmeira da Foz anónimo e saio daquela sala candidato a primeiro-ministro?
- Hipnotizaste-os a todos, foi?
- Não foi bem isso, porque no hipnotismo ainda estou a dar os primeiros passos... mas lá chegaremos, Maria, lá chegaremos...
- Mas olha lá...Agora há para aí o partido do Janes que vai baralhar as contas todas e se ganhares não vais ter maioria absoluta, cansas-te daquilo tudo num instante. Olha que eu bem sei como tu gostas de mandar sem teres ninguém a importunar-te...Saíste-me cá um mandão!
-Estás a falar do PRD? São uns ingénuos coitaditos. Se eu não ganhar com maioria absoluta tomo umas medidas que ninguém vai gostar e os patinhos apresentam logo uma moção de censura. A oposição vai toda atrás, o presidente da República dissolve o Parlamento, há novas eleições e dessa vez ganho com maioria absoluta, podes ter a certeza.
- E dizes-me tu, com essa ronha toda que não queres ser político. Tens cá uma lata!
- Ihihih!
- Olha Hannibal, prometes que quando fores primeiro-ministro mandas fazer uma auto-estrada para o Allgarve?
- Nem penses nisso, Maria! Os tugas iam pensar que eu estava no governo para defender os interesses do Allgarve e nunca mais votavam em mim. Isso está completamente fora de questão. Mas vou fazer melhor… vou mandar construir uma auto-estrada no Algarve. Desde Lakes até à fronteira com Espanha.
- Para podermos ir comprar caramelos a Ayamonte?
- Sim. E também para meter gasolina, porque daqui a uns anos o preço do petróleo vai ser tão alto e os impostos sobre a gasolina tão elevados, que temos de ir a Espanha meter gasolina.
- Mas sendo primeiro-ministro não vais ter carro e gasolina de graça?
- Claro que vou. E tu, o meu chefe de gabinete e os assessores também.
- Então para que é que te interessa ir meter gasolina a Espanha?
- Não sou eu, Maria, são os tugas. Aqueles que vão para o Allgarve no Verão e passam o tempo todo a passear de um lado para o outro. Tendo uma auto-estrada no Allgarve deslocam-se mais depressa.
-Olha lá, Hannibal… mas se forem assim tantos portugueses para o Allgarve, lá se vai o sossego da nossa Mariani em Cryingmount.
-É verdade que corremos esse risco, mas se isso acontecer arranjamos outro terreno e construímos uma casa maiorzinha, com uma bela vista para o mar. Tenho uns amigos que tratam disso e arranjam um terreno baratucho.
- Eu tenho medo, Hannibal…
-De quê, minha fofa?
- De viver numa casa isolada. E os assaltos?
- Quem falou de uma casa isolada? Os meus amigos também onde ir para lá.E para que servem os seguranças? Se lhes pago é para nos protegerem.
- O quê? Vais ter de pagar a seguranças para nos protegerem? Mas isso deve custar uma fortuna…
- Não sou eu que vou pagar, Maria. São os tugas com os seus impostos, estás a perceber?
-Estou a perceber, estou. Bem mereço chegar um dia a primeira dama… Olha, Hannibal, vais ter de fazer campanha para ganhar as eleições, não vais?
- Claro. Pelo menos para já ainda tem de ser assim… mas depois eu peço à Manuela e ela trata do assunto...
-Então amanhã vou telefonar à Glória de Matos
- Está bem, dá-lhe cumprimentos meus.
- Agora és tu que não estás a perceber. Vou telefonar-lhe para ver se ela te ensina a falar de uma forma que todos entendam. Ou pelo menos se indica alguém…
- Achas que vai ser preciso?
- Claro que vai, mas deixa isso comigo ...
(continua)

A honestidade de Cavaco e a inversão do ónus da prova

Se um qualquer cidadão me dissesse que, para ser mais honesto do que ele, eu teria de nascer duas vezes, o mais provável é que reagisse enfiando-lhe uma murraça nos queixos.
Com o cidadão Cavaco, porém, não posso reagir assim. Para além do dever de respeito à figura do PR, tenho de ponderar que anda rodeado de seguranças.Isso não me impede de dizer o que penso.
Em minha opinião, Cavaco é realmente sério, pois raras vezes se ri. Daí a poder concluir que é um cidadão honesto, vai uma grande distância. Só porque ele afirma que é? Por aí não vou lá…
Cavaco apresentou provas de que aquilo de que o acusam é mentira? Não. Reagiu com insultos ( disse que não respondia aos outros candidatos, mesmo quando eles são loucos) e depois remeteu-se ao silêncio.
Por outro lado, Cavaco demonstra uma falta de memória preocupante. Não se lembra a quem vendeu as acções da SLN e, imagine-se(!!!) mandou o seu staff dizer que não se recorda quando, nem onde, fez a escritura da sua casa de férias. Escritura essa que, curiosamente, desapareceu…Pode daqui inferir-se que Cavaco é desonesto? Não.
Ninguém pode acusar um cidadão de ser desonesto, ou criminoso, sem provas. O problema é que, ao recusar esclarecer todas as dúvidas e se alcandorar a “português mais honesto”, Cavaco inverteu o ónus da prova. Agora é a ele que compete provar que é mais honesto do que eu. E aí eu respondo: mais honesto do que eu, garanto que não é.
Tal como ele tem o direito de afirmar que sou menos honesto do que ele, e de garantir que é honesto porque ele próprio o diz ,também eu, até prova em contrário, tenho o direito de duvidar da honestidade do PR. Porquê? Poderia responder, utilizando a argumentação cavaquista, simplesmente "porque sim”. Não o faço. Começo por lhe lembrar a história da mulher de César e depois olho para o seu percurso e tiro as minhas conclusões.
No mínimo, o que posso garantir é que me preocupa muito a sua persistente falta de memória selectiva...
Razão, mais do que suficiente, para nunca votar nele.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O retrato desfocado do Estado


Há uma semana elogiei aqui o trabalho de investigação do DN, que se propunha traçar um retrato do Estado. Concluída a publicação, mantenho o que então escrevi: o jornalismo de investigação, liberto das imposições de agenda, é a essência da profissão e, por isso, sempre digno de louvor.
Acontece, porém, que o trabalho dos jornalistas do DN me deixou com água na boca e a sensação de estar a ver uma fotografia desfocada. Fui ao longo da semana bombardeado com números (que não me surpreenderam) mas continuei sem encontrar explicações, sem conhecer detalhes, que me permitam fazer uma avaliação correcta. Pior… em virtude de os dados apresentados se referirem, quase exclusivamente, à última década, fiquei com a sensação de que o Estado é um corpo de 10 anos, imberbe mas monstruoso e não um corpo maduro de 36- os anos da nossa democracia- que foi engordando ao longo do tempo, por falta de exercício e práticas alimentares saudáveis.
Ora todos sabemos que os maus hábitos alimentares adquiridos na juventude são em grande parte responsáveis pela obesidade na adolescência e idade adulta… e foi precisamente entre os 10 e os 20 anos ( quando Cavaco era primeiro ministro) que o Estado engordou e adquiriu maus hábitos. Como revela a investigação do DN.
O retrato do Estado traçado pelos jornalistas fez-me lembrar um voyeur apaixonado pela vizinha, que todos os dias vê sair de casa, voluptuosa, no vestuário que lhe realça as formas. Quando ela entra no carro, enxerga-lhe um pouco da coxa curvilínea que lhe aguça a imaginação, e desperta vontade para descortinar um pouco mais a sua nudez. Mune-se de uma câmara fotográfica e, durante semanas, põe-se à janela na esperança de a ver despir-se. Um dia consegue tirar umas fotografias através dos vidros fumados, onde se percebem dois seios firmes e umas nádegas protuberantes, mas a fotografia não permite perceber correctamente o traçado curvilíneo das formas, nem se os seios e as nádegas terão sido moldados em silicone, ou são dádivas generosas da Natureza.
A fotografia também não concede ao voyeur o privilégio de saber se a mulher que ostenta aquele corpo é casta, ou dada às volúpias da carne, dócil ou megera. Tudo o que o voyeur conseguiu confirmar é que o corpo nu daquela mulher o atrai ainda mais do que quando a vê sair de casa elegantemente vestida. Mas porquê?
Ao trabalho do DN falta a assertividade que se espera de uma investigação aturada. Depois de o ler, percebem-se melhor alguns contornos daquele corpo monstruoso, mas continuamos sem saber se a obesidade se deve a uma doença degenerativa incurável, ou é fruto de incúria e displicência do paciente.
O DN tirou uma fotografia ao Estado, mas ficou do lado de cá da vidraça. Não cuidou, ou não lhe foi permitido ir ao fundo da questão, para saber se a gordura resulta de mau funcionamento hormonal, se há qualquer disfunção endócrina, se a luxúria é desleixo ou adição.
Não se leia aqui uma crítica aos jornalistas que fizeram, repito, um trabalho meritório. Sei, por experiência própria, como é difícil penetrar no âmago do aparelho de Estado. Conhecer-lhe os vícios, as teias de interesses e jogos de poder que se entrelaçam nos gabinetes e corredores dos serviços públicos, as amizades de conveniência, a falta de noção de alguns dirigentes que lidam com dinheiros públicos e fazem, ou permitem, gastos sumptuários, os esbirros de prepotência que os levam a atirar para uma prateleira funcionários qualificados e a promover inúteis a cargos de chefia. Sei tudo isso, mas tinha valido a pena tentar ir mais fundo.
Perceber como se fazem os concursos, como se fundamentam as promoções, como o “outsourcing” sustenta algumas empresas que trabalham quase exclusivamente para o Estado, fazendo trabalhos que os funcionários poderiam assegurar.
Todos sabemos que o Estado gasta muito, mas o que eu queria saber é se gasta mal e onde.
Dizer que há funcionários públicos a mais é recorrente. O importante era saber onde estão os excedentários e porque é que as Leis de Mobilidade Interna e Especial falharam nos seus propósitos. Uma dica: pagar 12 meses de vencimento e cobrar IRS sobre 14, talvez explique alguma coisa...
Se o Governo defende que pode diminuir os salários dos funcionários públicos, por que razão não envereda também pelas negociações com funcionários interessados em sair, mas que estão impedidos de o fazer porque as leis referidas e o novo regime de reformas os obriga a permanecer para além da sua vontade e do termo do contrato que assinaram com o Estado?
Como cidadão, interessava-me conhecer sem tibiezas os impedimentos e obstáculos a soluções conducentes a um Estado mais atraente, mais funcional e mais jovem. Um Estado gratificante e não um encosto de ocasião.
Se os jornalistas tivessem tido possibilidade de entrar no aparelho de Estado, talvez tivessem encontrado resposta para muitas das dúvidas que certamente se lhes colocaram e que os portugueses em geral ( e os funcionários públicos em particular) gostariam de ver respondidas.
O DN ficou à janela. Tirou a fotografia através da vidraça embaciada e mostrou-nos apenas um Estado gordo e desmazelado. Foi pena. Talvez para a próxima, possamos ver a fotografia de outro ângulo. Porventura tirada na praia, em topless…
Como devia ter feito o voyeur apaixonado pela vizinha. Se fosse mais afoito, ia até á praia, tirava uma fotografia e aproveitava para entabular conversa. Provavelmente, ficaria a conhecê-la melhor.