quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Porque não te calas?

Dizia a jornalista com ar compenetrado, desde Bragança:

" Aqui os efeitos da greve estão a sentir-se de uma forma muito limitada. No hospital, por exemplo, no primeiro turno da noite, dos 27 enfermeiros que deveriam estar de serviço, 19 fizeram greve".

Não será razão para despedimento com justa causa, mas explica muito bem o jornalismo que se vai fazendo por aí.

Violência contra as mulheres

Assinala-se hoje o Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher. Os “Dias de…” valem o que valem, mas vale sempre a pena lembrar que a violência contra as mulheres em Portugal não tem parado de aumentar desde 2004, ano em que se fizeram os primeiros registos. Só o facto de apenas em 2004 ter passado a haver registos seria suficiente para percebermos o atraso civilizacional do país, mas adiante…
Desde 2004 morreram 247 mulheres vítimas de violência. Algumas dessas mortes poderiam ter sido evitadas se as autoridades reagissem mais pró activamente às queixas apresentadas pelas vítimas. Juízes que justificam sentenças benévolas com retrógrados argumentos machistas, ou deputados ( este, ainda por cima é coordenador da Campanha contra a Violência Doméstica) que fazem como a avestruz, em nada contribuem para diminuir os casos de violência.
Este ano já morreram em Portugal 39 mulheres vítimas de maus tratos conjugais e, só na Madeira, foram assistidas 172 mulheres vítimas de violência doméstica.Vivemos numa sociedade machista e hipócrita que promete acção, mas se fica pelas promessas, e onde a mulher, muitas vezes, acaba por ser conivente, por esconder ou desculpar a violência de que é vítima. Começa pela sua mudança de atitude o combate a este flagelo.

As tentações


José Saramago disse um dia numa entrevista:
“ Devíamos estar a aprender até aos 50 anos e, a partir daí, aplicar os nossos conhecimentos na nossa actividade profissional”.
Não só estou de acordo, como vou mais longe. É possível começar uma vida nova aos 60 anos, desde que se encare essa etapa da nossa vida com o entusiasmo e o dinamismo de um recomeço e não com a amargura da proximidade do fim. A terceira idade não é o fim da linha das nossas vidas.
Há dias lia um estudo do IAPMEI, onde se revela que 2,9% dos empreendedores portugueses são reformados e 1,6% tem mais de 65 anos.Estava a pensar nisso e no novo rumo que decidi dar à minha vida, quando aquela tosse opressora que nos cola o peito às costas e percorre o corpo numa dor intensa que ameaça desventrar-nos, me lembrou que o maior erro da minha vida talvez tenha sido não conseguir renunciar ao tabaco. Mesmo quando temos confiança no futuro e acreditamos que recomeçar é possível, essa presença demoníaca do tabaco faz questão de nos lembrar que talvez não tenhamos muito tempo para pôr em prática os planos que traçámos para o futuro. Olho para a caixa das cigarrilhas e hesito. Vale a pena resistir ao prazer de uma fumaça a seguir à refeição, depois de tantos anos a fumar?
Prescindi da cigarrilha e fui para o computador fazer uns acertos num projecto, que vou amanhã apresentar. Fiquei durante alguns minutos bloqueado. O telefone tocou. Fui atender. Alguém pedia a minha colaboração para responder a um inquérito sobre hábitos tabágicos. Expliquei que não podia responder, em virtude da minha actividade profissional. Ao regressar ao meu escritório, a caixa das cigarrilhas atravessou-se no meu olhar. Cedi. Dei duas fumaças prolongadas e regressei ao computador. As ideias saíram com fluência, como no tempo em que acendia um cigarro com o argumento de que me ajudava a concentrar no estudo.
Senti um leve sopro no pescoço. Olhei, mas não havia ninguém. Pareceu-me ouvir umas risadas. Apurei o ouvido, mas só "ouvi" o silêncio. No espelho, formou-se uma névoa e a paz regressou ao escritório. O mafarrico terá ido pregar partidas para casa do vizinho?

O caso da Auto Europa


A Auto- Europa vai aumentar os salários dos seus trabalhadores em 3,9%.
Num panorama de cortes gerais de salários, este aumento pode surpreender muita gente, mas não quem perceba que é o modelo de gestão ( bem diferente do adoptado pelos gananciosos empresários portugueses) a consciencialização dos trabalhadores e dos sindicatos que está na base do sucesso da empresa.
Teria sido fácil à administração da Auto-Europa fazer como os nossos empresários e, escudando-se com a crise, rejeitar o aumento de salários ou tentar pelo menos um aumento ao nível da inflação. Não o fez.
Teria sido cómodo, para os trabalhadores da Auto-Europa, não aderir à greve, argumentando que as práticas seguidas pela empresa não justificavam a greve. No entanto, os trabalhadores aderiram à greve em massa, invocando a solidariedade com os trabalhadores de outros sectores e familiares que estão a ser vítimas da política seguida por este governo.
O direito à greve e à não greve é essencial para o funcionamento de uma democracia e cada um deve agir de acordo com a sua consciência. Agora, o que é inadmissível, é que haja pessoas com lata de ir para as câmaras de televisão dizer que estão solidários com a greve, mas não a fazem, porque isso representaria a perda de um dia de salário. Ou quem utilize as mesmas câmaras para afirmar que os grevistas são calaceiros. Gente desta não devia ter direito a votar, porque não percebe nada da sociedade em que vive e, assim sendo, quando mete o voto na urna, está a votar apenas num clube e não num modelo de sociedade que pretende para o país.

Pelo país dos blogs

Revejo-me neste texto da SHE que, em minha opinião, merece um forte aplauso. Ide ler, ide ler!