segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Povinho foleiro este (2)

Em tempos, manifestei aqui a minha discordância em relação à introdução do chip na matrículas. Pensava, na minha boa fé, que esse seria o limite para a intromissão do Estado na vida dos cidadãos. Estava longe de imaginar que, dois anos volvidos, alguém ousasse ir ainda mais longe e criasse um site onde qualquer cidadão pode denunciar, sob a capa do anonimato, actos de corrupção.
Já me surpreende menos que, em apenas 48 horas, uma centena de portugueses tivesse recorrido a este prestimoso serviço para efectuar denúncias. Afinal, em cada português habita um bufo frustrado.

Pobre e mal agradecido

Cavaco Silva farta-se de repetir que não devemos revoltar-nos contra os mercados. Eu prometo não me revoltar, se o PR se comprometer a não dizer mais barbaridades durante a pré-campanha eleitoral. São quase diárias, mas a de ontem deixou-me sobremaneira perplexo. Depois de Ramos Horta ter anunciado que Timor Leste poderia vir a comprar algua dívida portuguesa, Cavaco Silva respondeu com este brilhanismo:
" Não estamos de mão estendida..."
Alguém me explica a razão de Cavaco Silva não ter tido idêntica reacção quando países ricos como Inglaterra ou Alemanha compram a nossa dívida? Já agora, também gostaria de saber se Cavaco será tão afoito a rejeitar a compra da dívida pela China.

Que nunca descanse em paz!


Já escrevi aqui, diversas vezes, sobre a sangrenta ditadura argentina (1976-1983). Já enalteci a coragem do governo argentino ao decidir julgar e condenar os mais perversos executantes dessas páginas negras da história da Argentina. No passado dia 8 morreu o maior déspota desse período de tirania militar: Emílio Massera.
Foi ele o cérebro de uma das mais nauseabundas e sanguinárias práticas desse período. Daquela cabeça conspurcada brotou a ideia dos tristemente célebres “Voos da Morte”, que lançaram ao mar, vivos, milhares de resistentes argentinos.
Mas nem só os resistentes e adversários políticos eram alvo da sua tirania. O marido da sua amante também foi lançado ao mar, depois de ter sido convidado para uma cerimónia no iate da Marinha. Muitos bebés eram roubados às grávidas resistentes, para serem entregues a casais estéreis afectos ao regime.
Condenado a prisão perpétua em 1985, por crimes contra a humanidade, Massera foi amnistiado e mandado libertar por Carlos Menem, o vigarista que conduziu a Argentina à ruína no início deste século.
Voltaria a ser julgado e condenado anos mais tarde, acusado de outros crimes mas, em 2002, foi considerado demente e inimputável, tendo vivido em liberdade até à sua morte, na semana passada. Os argentinos viram-se finalmente livre de um dos seus maiores tiranos, mas nunca esquecerão os seus crimes.
Embora a cerimónia da cremação tenha sido rodeada de secretismo, para evitar manifestações populares, os comentários dos leitores nos jornais argentinos deixam transparecer de forma bem clara o júbilo com que a notícia da morte foi recebida pela população. O único lamento é que não seja possível cumprir os votos do historiador Osvaldo Bayer:
“Sobre a sua tumba cairá o cuspo de um povo ultrajado, como se fora chuva intermitente”.
Fica o consolo de saber que a sua morte foi antecedida de um longo período de sofrimento. Que nunca descanse em paz!

Ainda a Responsabilidade Social das Empresas

O post que fui obrigado a eliminar remetia para um artigo da “Sábado” que explica como as grandes empresas e bancos escapam ao fisco. Quem leu o artigo, pode argumentar que as empresas que localizam as suas sedes em países com regimes fiscais mais favoráveis estão apenas a aproveitar a oportunidade que a legislação lhes proporciona. Certo. No entanto, uma empresa que foge ao fisco ( no caso da PT, por exemplo, o pagamento dos impostos sobre a venda da Vivo representaria uma diminuição de 0,4% do défice) não pode proclamar ter práticas de Responsabilidade Social. Uma empresa que poupa milhões de euros no pagamento dos impostos está não só a lesar o Estado, como a enganar os seus clientes. Como pode escrever nos relatórios anuais de responsabildade social, que pratica uma política de transparência com os stakeholders?
Não é novidade que mutas empresas mentem sobre a RSE, como já alertara aqui No entanto,para que conste, aqui ficam os montantes que cada uma destas empresas ( há outras citadas no artigo e, provavelmente, muitas mais não mencionadas) roubou legalmente ao Estado:
PT- 570 milhõesBES – 23, 4 milhõesBPI-29,5 milhões.